ReflexõesImaginativas

Reflexões imaginativas no espaço-tempo das Permanências e dos Fluxos

com a licença de Augusto de Franco pelo enxerto (quase paráfrase) feito sobre o título de um de seus trabalhos.

Sumário Parte I – Reflexões imaginativas: alguns pontos no caminho para identificar condições de possibilidade no pensamento de teorias, modelos e sistemas, usando o pensamento principalmente de Michel Foucault.

 

Dom Quixote,
por Salvador Dalí
Miguel de Cervantes, 1547-1616
Dom Quixote em sua biblioteca

“O poeta
faz chegar a similitude até os signos
que a dizem,

o louco
carrega todos os signos com uma semelhança
que acaba por apagá-los

Dom Quixote é a primeira das obras modernas,

  • pois que aí se vê a razão cruel das identidades e das diferenças desdenhar infinitamente dos signos e das similitudes:
  • pois que aí a linguagem rompe seu velho parentesco com as coisas, para entrar nessa soberania solitária donde só reaparecerá, em seu ser absoluto, tornada literatura;
  • pois que aí a semelhança entra numa idade que é, para ela, a da desrazão e da imaginação.

Uma vez desligados a similitude e os signos, 

  • duas experiências podem se constituir
  • e duas personagens aparecer face a face.

O louco, 

  • entendido não como doente,
  • mas como desvio constituído e mantido, como função cultural indispensável, 

tornou-se, na experiência ocidental, o homem das semelhanças selvagens.

Essa personagem, tal como é bosquejada nos romances ou no teatro da época barroca e tal como se institucionalizou pouco a pouco até a psiquiatria do século XIX, é aquela que se alienou na analogia. 

É o jogador desregrado do Mesmo e do Outro.

Toma as coisas pelo que não são e as pessoas umas pelas outras; ignora seus amigos, reconhece os estranhos; crê desmascarar e impõe uma máscara. Inverte todos os valores e todas as proporções, porque acredita, a cada instante, decifrar signos: para ela, os ouropéis fazem um rei. 

Segundo a percepção cultural que se teve do louco até o fim do século XVIII, ele só é o Diferente na medida em que não conhece a Diferença; por toda a parte vê semelhanças e sinais da semelhança; todos os signos para ele se assemelham e todas as semelhanças valem como signos.

Na outra extremidade do espaço cultural, mas totalmente próximo por sua simetria, 

o poeta 

  • é aquele que, por sob as diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentescos subterrâneos das coisas, suas similitudes dispersadas. 
  • Sob os signos estabelecidos e apesar deles, ouve um outro discurso, mais profundo, que lembra o tempo em que as palavras cintilavam na semelhança universal das coisas: a Soberania do Mesmo, tão difícil de enunciar, apaga na sua linhagem a distinção dos signos.

Daí sem dúvida, na cultura ocidental moderna, o face-a-face da poesia e da loucura.

Mas já não se trata do velho tema platônico do delírio inspirado. 

Trata-se da marca de uma nova experiência da linguagem e das coisas.

Às margens de um saber que separa os seres, os signos e as similitudes, e como que para limitar seu poder, o louco garante a função do homossemantismo: reúne todos os signos e os preenche com uma semelhança que não cessa de proliferar.

O poeta garante a função inversa; sustenta o papel alegórico; sob a linguagem dos signos e sob o jogo de suas distinções bem determinadas, põe-se à escuta de “outra linguagem”, aquela, sem palavras nem discursos, da semelhança.

O poeta faz chegar a similitude até os signos que a dizem,

o louco carrega todos os signos com uma semelhança que acaba por apagá-los.

Assim, na orla exterior da nossa cultura e na proximidade maior de suas divisões essenciais, estão ambos nessa situação de “limite” – postura marginal e silhueta profundamente arcaica – onde suas palavras encontram incessantemente seu poder de estranheza e o recurso de sua contestação.

Entre eles abriu-se o espaço de um saber onde, por uma ruptura essencial no mundo ocidental,

  • a questão não será mais a das similitudes,
  • mas a das identidades e das diferenças.

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 3 – Representar;
tópico I. Dom Quixote
de Michel Foucault

Influências e inspirações

1 a influência de Vilém Flusser no livro ‘Filosofia da caixa preta’: 

uso das funções reversíveis Imaginação e Conceituação para navegar, ida e volta, entre 

textos ↔ imagens ↔ e ocorrências espacio-temporais; 

e ainda, não menos importante

    • as imagens tradicionais, as imagens técnicas, as classes de abstrações que usamos cotidianamente;
Vilém-Flusser-Portrait-008
Vilém Flusser
1920-1991

2 as sugestões de Humberto Maturana nos livros: Cognição, Ciência e Vida cotidiana; Emoções e Linguagem na Educação e na Política; ‘De máquinas e de seres vivos’:

objeções e propostas de mudança feitas por Maturana ao fazer dos pesquisadores em IA do MIT do final dos anos ’50, aceitação de algumas das críticas feitas, e aparentemente, uma alteração de rota;

Humberto Maturana
1928-

3 a influência especialmente muito forte de Michel Foucault no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’:

a descoberta de duas pedras de tropeço durante seu trabalho nesse livro, a saber:

    • uma impossibilidade (ainda em nossos dias) de fundar as sínteses no espaço da representação, presente no nosso pensamento cotidiano;
    • e uma obrigação de abrir o campo transcendental da subjetividade constituindo, para além do objeto, os quase-transcendentais Vida(Biologia), Trabalho(Economia) e Linguagem(Filologia).
Michel Foucault
1926-1984

 

O circuito ida e volta possibilitado por funções
Imaginação e Conceituação reversíveis

classes de abstrações:
Graus da abstração;
Dimensões próprias a cada caso

Veja aqui os seguintes pontos:

  • O livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’ tal como visto por seu autor, Michel Foucault;
  • A história do nascimento do ‘As palavras e as coisas’ contada por Michel Foucault no Prefácio desse livro, associada a imagens;
  • O espaço a ser ocupado pelo estudo em estilo de arqueologia realizado no ‘As palavras e as coisas’;
  • A descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura, posicionada por Michel Foucault entre os anos de 1775 e 1825;
  • O que exatamente Foucault via quanto ao que acontecia com as formas de
  • A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura e os dois perfis de conceitos característicos das duas configurações do pensamento; 
  • pensamento em nossa cultura e a modos distintos de absorver o mundo;
  • O espectro de modelos com três segmentos – AQUÉM, DIANTE e para ALÉM do objeto, traçado a partir dessa visão e da forma de reflexão que se instaura em nossa cultura, por Michel Foucault
  • As duas opções alternativas para a visão do fenômeno ‘operações’, com diferentes abrangências, e as respectivas duas origens do valor carregado pelas proposições para as representações; as correspondentes duas configurações de funcionamento da própria linguagem e do pensamento, e os modelos resultantes em cada caso.
  • Conceitos homônimos mas com significados diferentes entre o pensamento clássico, o de antes de 1775, e o moderno, o de depois de 1825, segundo Michel Foucault;
  • A análise das riquezas: (riquezas: um domínio, solo e objeto da “economia” na idade clássica, segundo Michel Foucault);

Veja esses pontos a seguir:

O livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, na visão de Michel Foucault

“Ora, esta investigação arqueológica mostrou duas grandes descontinuidades na epistémê da cultura ocidental:

  • aquela que inaugura a idade clássica (por volta dos meados do século XVII)
  • e aquela que, no início do século XIX, marca o limiar de nossa modernidade.

A ordem,
sobre cujo fundamento pensamos,
não tem o mesmo modo de ser
que a dos clássicos.

Por muito forte que seja a impressão que temos de um movimento quase ininterrupto da ratio européia desde o Renascimento até nossos dias,

  • por mais que pensemos que a classificação de Lineu, mais ou menos adaptada, pode de modo geral continuar a ter uma espécie de validade,
  • que a teoria do valor de Condillac se encontra em parte no marginalismo do século XIX,
  • que Keynes realmente sentiu a afinidade de suas próprias análises com as de Cantillon,
  • que o propósito da Gramática geral (tal como o encontramos nos autores de Port-Royal ou em Bauzée) não está tão afastado de nossa atual linguística 

 – toda esta quase-continuidade ao nível das idéias e dos temas não passa, certamente, de um efeito de superfície; no nível arqueológico, vê-se que o sistema das positividades mudou de maneira maciça na curva dos séculos XVIII e XIX.

Não que a razão tenha feito progressos;

  • mas o modo de ser das coisas e da ordem que, distribuindo-as, oferece-as ao saber; é que foi profundamente alterado.

Se a história natural de Tournefort, de Lineu e de Buffon tem relação com alguma coisa que não ela mesma,

  • não é com a biologia, a anatomia comparada de Cuvier ou o evolucionismo de Darwin,
  • mas com a gramática geral de Bauzée, com a análise da moeda e da riqueza tal como a encontramos em Law, em Véron de Fortbonnais ou em Turgot.

Os conhecimentos chegam talvez a se engendrar; as ideias a se transformar e a agir umas sobre as outras (mas como? até o presente os historiadores não no-lo disseram);

  • uma coisa, em todo o caso, é certa:
    • a arqueologia,
      • dirigindo-se ao espaço geral do sabe!;
      • a suas configurações
      • e ao modo de ser das coisas que aí aparecem,
    • define sistemas de simultaneidade, assim como a série de mutações necessárias e suficientes para circunscrever o limiar de uma positividade nova.

Assim, a análise pôde mostrar a coerência que existiu, durante toda a idade clássica, entre

  • a teoria da representação e as
    • da linguagem,
    • das ordens naturais,
    • da riqueza e do valor:

É esta configuração que, a partir do século XIX, muda inteiramente;

  • a teoria da representação desaparece como fundamento geral de todas as ordens possíveis;
  • a linguagem, por sua vez, como quadro espontâneo e quadriculado primeiro das coisas, como suplemento indispensável entre a representação e os seres, desvanece-se;
  • uma historicidade profunda penetra no coração das coisas, isola-as e as define na sua coerência própria.

Impõe-lhes formas de ordem que são implicadas pela continuidade do tempo;

  • a análise das trocas e da moeda cede lugar ao estudo da produção,
  • a do organismo toma dianteira sobre a pesquisa dos caracteres taxinômicos;
  • e, sobretudo, a linguagem perde seu lugar privilegiado e torna-se, por sua vez, uma figura da história coerente com a espessura de seu passado.

Na medida, porém, em que as coisas giram sobre si mesmas,

  • reclamando para seu devir não mais que o princípio de sua inteligibilidade
  • e abandonando o espaço da representação,

o homem,
por seu turno, entra,
e pela primeira vez,
no campo do saber ocidental.

Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates – não é, sem dúvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma configuração, em todo o caso, desenhada pela disposição nova que ele assumiu recentemente no saber:

Daí nasceram todas as quimeras dos novos humanismos, todas as facilidades de uma “antropologia “, entendida como reflexão geral, meio positiva, meio filosófica, sobre o homem.

Contudo, é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que

  • o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber;
  • e que desaparecerá desde que este houver encontrado uma forma nova.”

“Vê-se que esta investigação responde um pouco, como em eco, ao projeto de escrever uma história da loucura na idade clássica; ela tem, em relação ao tempo, as mesmas articulações, tomando como seu ponto de partida o fim do Renascimento e encontrando, também ela, na virada do século XIX; o limiar de uma modernidade de que ainda não saímos.

Enquanto, na história da loucura,

  • se interrogava a maneira como uma cultura pode colocar sob uma forma maciça e geral a diferença que a limita, 

trata-se aqui  

  • de observar a maneira como ela experimenta a proximidade das coisas, como ela estabelece o quadro de seus parentescos e a ordem segundo a qual é preciso percorrê-los.

Trata-se, em suma, de uma história da semelhança:

  • sob que condições o pensamento clássico pôde refletir, entre as coisas, relações de similaridade ou de equivalência que fundam e justificam as palavras, as classificações, as trocas?
  • A partir de qual a priori histórico foi possível definir o grande tabuleiro das identidades distintas que se estabelece sobre o fundo confuso, indefinido, sem fisionomia e como que indiferente, das diferenças?

A história da loucura
seria a história do Outro

– daquilo que, para uma cultura  
é ao mesmo tempo
interior e estranho,
a ser portanto excluído
(para conjurar-lhe o perigo interior),
encerrando-o porém
(para reduzir-lhe a alteridade);

a história da ordem das coisas
seria a história do Mesmo
 

– daquilo que, para uma cultura,
é ao mesmo tempo
disperso e aparentado,
a ser portanto distinguido por marcas
e recolhido em identidades.

E se se pensar que a doença é, ao mesmo tempo, 

  • a desordem, a perigosa alteridade no corpo humano e até o cerne da vida, 

mas também 

  • um fenômeno da natureza que tem suas regularidades, suas semelhanças e seus tipos –

vê-se que lugar poderia ter uma arqueologia do olhar médico.

Da experiência-limite do Outro às formas constitutivas do saber médico e, destas, à ordem das coisas e ao pensamento do Mesmo, o que se oferece à análise arqueológica 

  • é todo o saber clássico, 
  • ou melhor; esse limiar que nos separa do pensamento clássico e constitui nossa modernidade.

Nesse limiar apareceu pela primeira vez esta estranha figura do saber que se chama homem e que abriu um espaço próprio às ciências humanas.

Tentando trazer à luz esse profundo desnível da cultura ocidental, é a nosso solo silencioso e ingenuamente imóvel que restituímos suas rupturas, sua instabilidade, suas falhas; e é ele que se inquieta novamente sob nossos passos.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Prefácio

Veja essa história em uma animação abaixo. Esta animação relaciona o texto de Foucault com as estruturas de operações sob as duas configurações do pensamento, a do clássico, de antes de 1775, e a do moderno, depois de 1825.

Provavelmente você vai se sentir mais confortável se antes de ver esta figura, visualizar o funcionamento das operações nesses dois casos.

A história do nascimento do livro ‘As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas’,
de Michel Foucault, contada por ele mesmo no Prefácio

que pode ser vista junto com outras animações  mais, nesta página:

Uma história do nascimento do livro ‘As palavras e as coisas,
contada pelo próprio autor no Prefácio

Se quiser ver o funcionamento das operações no pensamento clássico e no moderno (usando os critérios de Foucault para essa identificação, veja a página seguinte:

Funcionamento das operações para as configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

Essa história está contada por Foucault no Prefácio do ‘As palavras e as coisas’, e está aqui  no início desta apresentação pela ideia de sobrepor o texto dessa historinha a uma imagem em que estão representadas as duas estruturas exigidas pelos modelos de operações em dois perfis que podem ser associados às configurações do pensamento  nos períodos de antes e de depois de um evento ao qual Foucault dá o status de ‘evento fundador da nossa modernidade’ – uma descontinuidade epistemológica ocorrida entre 1775 e 1825 -, tendo o pensamento clássico, antes de 1775, e o moderno, depois de 1825:

  • o texto de Borges, que deu origem ao livro, associado a uma heterotopia e ao pensamento clássico;
  • efeitos desse texto sobre as familiaridades do pensamento que tem a nossa idade e a nossa geografia abalando todos os planos e todas as superfícies ordenadas que tornam para nós sensata a profusão dos seres; e fazendo vacilar e inquietando por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro;
  • associação da Utopia ao pensamento moderno (o impensado organizando as operações)
  • o texto da Enciclopédia chinesa uma taxinomia sob o pensamento clássico;
  • o limite do nosso pensamento: a impossibilidade de pensar isso.
  • Que coisa é impossível pensar? e de que impossibilidade se trata?
  • a desordem pior que aquela do incongruente, ou da aproximação daquilo que não convém:
    • seria a utilização de um grande número de ordens possíveis na dimensão sem lei nem geometria do heteróclito;
  • o consolo das Utopias;
  • a inquietação causada pelas heterotopias;
    • porque solapam secretamente a linguagem;
    • porque impedem de nomear as coisas, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham,
    • porque arruínam de antemão a sintaxe
      • e não somente a sintaxe que constrói as frases
      • também aquela sintaxe, menos manifesta, que autoriza manter juntas, ao lado e em frente umas das outras, as palavras e as coisas.
Neste trabalho mostramos como essas coisas mencionadas nesse texto se relacionam com modelos de operações, e também modelos de organizações.
Colocamos ao fundo da narrativa desse texto do Prefácio as diferentes configurações do pensamento em modelos de operações e de organizações, e como vão se alterando à medida que a narrativa prossegue.

Este estudo em estilo de arqueologia feito por Michel Foucault no
‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’,
tem como tema:

  • não propriamente produções de pensamento formuladas e configuradas, 
  • e ainda menos, produções do pensamento já em funcionamento – com seus sucessos e insucessos, e submetidas a possíveis desvirtuamentos; 
  • mas o tema inerente a esse estilo em arqueologia é quais são 
    • as condições de possibilidade no pensamento nas quais esta ou aquela produção do pensamento – teoria, modelo ou sistema – pode ser formulada. 

Enquanto com inventividade e laivos de criatividade conseguimos criar infinidades de formulações sobre um mesmo perfil de condições de possibilidade do pensamento, que acabam muitas vezes sendo combinações lineares de formulações anteriores, mesmo com muita criatividade e toda a inventividade possível os conjuntos determinantes de condições de possibilidade não proliferam do mesmo modo.

A análise, compreensão e utilização
de produções do pensamento
– teorias, modelos e sistemas –
tomadas quando já formuladas e configuradas,
é extremamente (mais) difícil;
e ainda tanto mais o será,
se o conhecimento consciente
das respectivas condições de possibilidade
no pensamento não se verificar.
Essas dificuldades se agravarão
se a produção do pensamento objeto de análise
estiver em pleno uso em um ambiente,
influindo sobre ele – e dele recebendo influências
– que certamente incidirão sobre a análise.

O excerto da Cartilha, o ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, – abaixo selecionado descreve o que é esse estudo em estilo de arqueologia realizado por Foucault, e como são as operações no antes e no depois desse evento fundador da nossa modernidade no pensamento, a descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825, descrita por ele.

Você pode ver agora a nossa interpretação do que conseguimos apreender desse texto, ou primeiro ler o texto original e depois ver esta animação:

A idade da história em três tempos:
uma descrição de Foucault, do que seja sua arqueologia das ciências humanas

o que também pode ser visto na página seguinte:

A idade da história em três tempos: uma descrição de Foucault do que seja a sua arqueologia das ciências humanas.

Poderá ser útil ver também o funcionamento das operações

Funcionamento das operações em função das configurações do pensamento de antes de 1775 e de depois de 1825, datas limites da ocorrência desse evento fundador da nossa modernidade no pensamento. 

AVISO: tudo o que se segue neste trabalho depende da distinção estabelecida entre os dois modos de ver ‘operações’ correspondentes às duas configurações do pensamento, expressas nas animações acima
a partir do texto de Foucault abaixo.

Diz Foucault: 

“A arqueologia, essa,
deve percorrer o acontecimento
segundo sua disposição manifesta;

ela dirá como as configurações próprias a cada positividade se modificaram
(ela analisa por exemplo, 

                      • para a gramática, o desaparecimento do papel maior atribuído ao nome
                        e a importância nova dos sistemas de flexão; 

                      • ou ainda, a subordinação, no ser vivo, do caráter à função); 

ela analisará a alteração dos seres empíricos que povoam as positividades 

                      • (a substituição do discurso pelas línguas, 

                      • das riquezas pela produção); 

estudará o deslocamento das positividades umas em relação às outras

                    • (por exemplo, a relação nova entre a biologia, as ciências da linguagem e a economia); 

enfim e sobretudo, mostrará que o espaço geral do saber

                      • não é mais o das identidades e das diferenças, o das ordens não-quantitativas, o de uma caracterização universal, de uma taxinomia geral, de uma máthêsis do não-mensurável, 

                      • mas um espaço feito de organizações, isto é,
                        de relações internas entre elementos, cujo conjunto assegura uma função;

mostrará que essas organizações são descontínuas,
que não formam, pois, um quadro de simultaneidades sem rupturas,
mas que algumas são do mesmo nível
enquanto outras traçam séries ou sequências lineares. 

De sorte que se vêem surgir,
como princípios organizadores desse espaço de empiricidades,

a Analogia e a Sucessão:


de uma organização a outra,

o liame, com efeito,
•  não pode mais ser
a identidade de um ou vários elementos,
•  mas a identidade da relação entre os elementos
(onde a visibilidade não tem mais papel)
e da função que asseguram;

ademais, se porventura essas organizações se avizinham

por efeito de uma densidade
singularmente grande
de analogias,
↓ não é porque ocupem localizações próximas

num espaço de classificação,
↑ mas sim porque foram formadas
uma ao mesmo tempo que a outra
e uma logo após a outra

no devir das sucessões. 

Enquanto, no pensamento clássico, 

                • a sequência das cronologias não fazia mais que percorrer o espaço prévio e mais fundamental de um quadro que de antemão apresentava todas as suas possibilidades, 

doravante 

                • as semelhanças contemporâneas
                  e observáveis simultaneamente no espaço
                  não serão mais que as formas depositadas e fixadas

                  de uma sucessão que procede
                  de analogia em analogia. 

A ordem clássica distribuía num espaço permanente as identidades e as diferenças não-quantitativas que separavam e uniam as coisas: era essa a ordem que reinava soberanamente, mas a cada vez segundo formas e leis ligeiramente diferentes, sobre o discurso dos homens, o quadro dos seres naturais e a troca das riquezas. 

A partir do século XIX,
a História vai desenrolar numa série temporal
as analogias que aproximam umas das outras as organizações distintas. 

É essa História que, progressivamente, imporá suas leis

                      •  à análise da produção, 

                      • à dos seres organizados, enfim, 

                      • à dos grupos linguísticos. 

A História
dá lugar às organizações analógicas,

assim como a Ordem
abria o caminho
das identidades

e das diferenças sucessivas.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7 – Os limites da representação;
tópico I. A idade da história
de Michel Foucault

Veja isto em 

ou ainda na seguinte página

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825

segundo Michel Foucault

De um lado e de outro dessa descontinuidade epistemológica temos:

  • antes de 1775 – pensamento clássico ou idade clássica do pensamento, com modelos com a (im)possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação;
  • depois de 1825 – pensamento moderno ou a nossa modernidade no pensamento, com modelos com a possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação.

Note que Adam Smith e David Ricardo estão posicionados em lados opostos com relação à fase de ruptura desse evento ao qual Foucault dá o status de evento fundador da nossa modernidade no pensamento.

Note ainda que todos os autores que formam a base do liberalismo clássico também estão posicionados por Foucault antes desse evento, em plena idade clássica.

Michel Foucault vê o pensamento que nos é contemporâneo – e com o qual queiramos ou não pensamos – muito dominado por:

  • uma impossibilidade – a de fundar as sínteses do objeto das operações de pensamento, no espaço da representação;
  • e uma obrigação ainda não cumprida – a de abrir o campo transcendental da subjetividade e constituir, para além do objeto, esses quase-transcendentais que são para nós a Vida, o Trabalho e a Linguagem.

e aparentemente ele imputa a esse domínio do nosso pensamento por essas questões, o tempo e dificuldades em acréscimo que precisou enfrentar em seu trabalho no ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’.

Impossibilidade X Possibilidade
de fundar as sínteses (da empiricidade objeto)
no espaço da representação

A obrigação cumprida:
os quase-transcendentais
Vida, Trabalho e Linguagem constituídos

Veja o que ele diz, o mesmo texto colocado em duas animações e no excerto abaixo em seu original, que têm a finalidade de reunir as ideias em elementos de imagem que compõem duas estruturas diferentes, nos dois lados de uma mesma imagem:

“Eis que nos adiantamos
bem para além do acontecimento histórico que se impunha situar
– bem para além das margens cronológicas
dessa ruptura
que divide, em sua profundidade,
a epistémê do mundo ocidental
e isola para nós o começo
de certa maneira moderna de conhecer as empiricidades. 

É que o pensamento que nos é contemporâneo 
e com o qual, queiramos ou não, pensamos, 
se acha ainda muito dominado 

  • pela impossibilidade,
    trazida à luz por volta do fim do século XVIII,
    de fundar as sínteses
    no espaço da representação.

  • e pela obrigação 
    correlativa, simultânea,
    mas logo dividida contra si mesma,
    de abrir o campo transcendental
    da subjetividade 
    e de constituir, inversamente, para além do objeto, 
    esses quase-transcendentais que são para nós a Vida, o Trabalho, a Linguagem.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas (Cartilha);
Capítulo 7 – Trabalho, Vida e Linguagem;
tópico I. As novas empiricidades
de Michel Foucault

as animações acima também podem ser vistas nesta página

Os dois obstáculos, as duas pedras de tropeço, encontrados por Michel Foucault em seu caminho,

com especial destaque para o segundo obstáculo, a saber, o cumprimento da obrigação de abertura do campo transcendental da subjetividade constituindo, para além do objeto, o espaço em que habitam os modelos das ciências humanas.

E o funcionamento das operações tanto no pensamento clássico, o de antes de 1775, como no moderno, depois de 1825, usando o critério de Foucault, pode ser visto na seguinte página:

 

Em nenhum momento Foucault solicita ao seu leitor que faça um ato de fé no que ele diz.
Foucault argumenta sempre, a partir de dados levantados quanto ao modo de ser do pensamento em uma vasta plêiade de autores contemporâneos às mudanças. 

Foucault via no conjunto de teorias, modelos e sistemas em nossa cultura, um espectro de modelos com três segmentos, que decorre dessa visão, e que aponta para o futuro; e que lhe sugeria a necessidade de distinções entre esses diferentes modos de ser do pensamento, e todo o trabalho com a arqueologia feita no ‘As palavras e as coisas’: 

Como se vê pelo ponto em que se insere na ‘Cartilha’ essa citação, o capítulo 7 de um trabalho em dez capítulos, quando escreveu esse trecho Foucault já tinha bem adiantado seu trabalho no ‘As palavras e as coisas’; nesse momento ele aponta dois obstáculos, duas pedras de tropeço que precisou enfrentar e que tiveram o poder de dilatar em muito o tempo necessário para fazer esse livro; ele via:  

    1. uma impossibilidade, a de fundar as sínteses [da representação para a empiricidade objeto de cada operação] no espaço da representação
    2. e uma obrigação a ser cumprida:
      a de abrir o campo transcendental da subjetividade
      e de constituir, inversamente, para além do objeto, 
      os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem 

O espectro de modelos com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e ALÉM do objeto

 O espectro de modelos com três segmentos, que abriga teorias, modelos e sistemas desde o século XVII até o século XXI, usando essa análise de Michel Foucault decorre desse momento intenso de Foucault.   

Efeito do levantamento da impossibilidade de fundar as sínteses (do objeto das operações) no espaço da representação;
e da constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem

Os segmentos do espectro de modelos compostos com os critérios acima são os seguintes

    • AQUÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • sem espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a impossibilidade 
        de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e portanto sem a constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • DIANTE do objeto – teorias, modelos e sistemas
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • sem essa impossibilidade, ou melhor, com a possibilidade
        de fundar as sínteses dos objetos das operações, no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e constituídos, para além do objeto, os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • para ALÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a possibilidade de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação.
      • nos quais foi aberto o campo transcendental da subjetividade e foram constituídos para além do objeto, os “quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem
        estes, os modelos no domínio das ciências humanas. 

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura, após o evento fundador da nossa modernidade, a descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825, segundo Michel Foucault

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura
com esse perfil de conceitos do pensamento moderno, o de depois de 1825

“Instaura-se uma forma de reflexão, 
bastante afastada do cartesianismo
e da análise kantiana, 
em que está em questão,
pela primeira vez, 
o ser do homem,
nessa dimensão segundo a qual 
o pensamento
se dirige ao impensado 
e com ele se articula.”
 

As palavras e as coisas: 
uma arqueologia das ciências humanas
; Cap. 9. O homem e seus duplos; V – O “cogito” e o impensado

Veja também essa Forma de reflexão espelhada no funcionamento das operações, especificamente no segmento DIANTE do objeto e na etapa da Construção da representação.

Nesse excerto da Cartilha, Foucault modela dinamicamente uma proposição que se ajusta a cada etapa da operação, coloca em cada proposição:

  • o ser do homem (o sujeito)
  • dirigindo-se ao objeto, o impensado,  (atributo do predicado do sujeito). 

Nota: Nessa forma de reflexão que se instaura, ‘o ser do homem’ não se dirige ao intangível, mas ao impensado! (que pode ser também intangível, sem problemas)  Muitas vezes o intangível continua exatamente assim, intangível, mesmo depois que o pensamento tenha dado um jeito no seu aspecto impensado.   

Intangível é uma qualidade de algo e não faz parte das propriedades originais e constitutivas desse algo.

Essa forma de reflexão sim, dirige-se ao impensado, o objeto por inteiro, em relação ao qual o Pensamento pode muito. Pode descobrir suas propriedades originais e constitutivas, propriedades substantivas, e não adjetivas, aparências, como é o intangível.
(Ref. Entrevista de Jorge Forbes)

Ao contrário do impensado, que mediante articulação no pensamento patrocinada pelo sujeito, pode ganhar o espaço da representação, o intangível na maioria dos casos, permanece exatamente isso: intangível.  

Veja as bases de sustentação e essa forma de reflexão em   

Os  perfis das duas configurações do pensamento, segundo o pensamento de Michel Foucault:
e Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento

Essa forma de reflexão é consistente e está na base do Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo.

Veja em imagens 

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho, o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, de 1817; veja também as diferenças entre esses dois conceitos, nas palavras de Michel Foucault

que ilustram essa forma de reflexão no depois da descontinuidade epistemológica, e a reflexão no período anterior.

O espectro de modelos com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e ALÉM do objeto

 O espectro de modelos com três segmentos, que abriga teorias, modelos e sistemas desde o século XVII até o século XXI, usando essa análise de Michel Foucault decorre desse momento intenso de Foucault.   

Os segmentos do espectro de modelos compostos com os critérios acima são os seguintes

    • AQUÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • sem espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a impossibilidade 
        de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e portanto sem a constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • DIANTE do objeto – teorias, modelos e sistemas
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • sem essa impossibilidade, ou melhor, com a possibilidade
        de fundar as sínteses dos objetos das operações, no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e constituídos, para além do objeto, os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • para ALÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a possibilidade de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação.
      • nos quais foi aberto o campo transcendental da subjetividade e foram constituídos para além do objeto, os “quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem
        estes, os modelos no domínio das ciências humanas. 

Efeito do levantamento da impossibilidade de fundar as sínteses (do objeto das operações) no espaço da representação;
e da constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem

Resumidamente, podemos ler operações, as que ocorrem no circuito das trocas (Mercado) ou outras, de qualquer tipo –  posicionando o ponto de  início da leitura desse fenômeno de duas maneiras diferentes:
  1. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ colocado no  cruzamento da disponibilidade entre dois objetos intervenientes na operação de troca: o que é dado e o que é recebido, testando as condições de troca;
  2. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ antes do cruzamento da disponibilidade entre os dois objetos – o que é dado e o que é recebido – e portanto antes da disponibilidade de um dos objetos, testando desta vez a permutabilidade futura desse objeto e não imediatamente as condições de troca.

O carregamento de valor na proposição em cada caso:

  1. valor é carregado diretamente na proposição desde dentro do espaço da representação;
  2. valor é carregado na proposição desde fora do espaço da representação, com origens de valor externas ao espaço da representação, provenientes de:
    1. designações primitivas;
    2. linguagem de ação ou raiz.

 

 

 

O mapa de opções para leitura do fenômeno ‘operações’ (em qualquer área):
duas visões com duas abrangências muito diferentes dependendo da leitura que fazemos.

  • As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’; 
  • As alterações na linguagem em decorrência da incorporação das origens externas de valor atribuído à proposição em cada etapa das operações.  
Duas visões, duas leituras do fenômeno ‘operações’:
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775; (seta amarela)
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825 (seta vermelha)
com duas amplitudes – duas abrangências muito diferentes

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ em função da disponibilidade dos objetos intervenientes em uma operação de troca.

Os pontos amarelos 1 e 2 marcam o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ justamente no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

  • o elemento central destas operações é ‘Processo’
  • o ponto amarelo 1, no lado esquerdo da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento clássico, que ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento clássico tudo existe desde sempre e para sempre compondo o Universo;
    • a operação funciona com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) e por isso não são consideradas propriedades originais e constitutivas, o que coloca a noção de objeto fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.
  • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, marca a inserção do ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, porém, em um pensamento configurado com o perfil de características do pensamento moderno
    • o elemento central desta operação é ‘Forma de produção’;
    • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que também ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
      • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
      • a operação transcorre na etapa de instanciamento de representação anteriormente construída, e pode funcionar tanto com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) como com propriedades sim-originais e sim-constitutivas), o que coloca a noção de objeto opcionalmente dentro ou fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

O ponto vermelho marcado com 1 no lado direito da figura marca o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade do objeto da operação – a de construção de representações novas – tratando portanto da permutabilidade futura desse objeto em uma eventual operação de troca.

  • o ponto vermelho 1, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que ocorre agora no interior de dois domínios: no domínio do Pensamento e da Língua e no domínio do Discurso e da Representação, porém fora do Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
    • a operação transcorre na etapa de construção de representação nova, e  tem como escopo a descoberta das propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, o que coloca a noção de objeto obrigatoriamente dentro desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

As duas possibilidades carregamento de valor pela proposição formulada na(s) linguagem(ns) em função desses pontos de inserção do início de leitura de operações.

Quando nos pontos amarelos 1 e 2  no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

O pressuposto no LE da figura ‘a existência precede a distinção’ feita na operação vale também para a linguagem.

  • ‘Processo’, o elemento central das operações no LE da figura sob o pensamento clássico é formulado com atividades, tasks encontrados no interior da categoria selecionada no Sistema de categorias, ou Quadro de simultaneidades escolhido, e o valor carregado à proposição formulada na linguagem é proveniente dessa origem interna à linguagem previamente existente nesse ambiente.

Quando no ponto vermelho 1 antes da disponibilidade de um dos objeto que possivelmente será levado a uma futura operação de troca.

  • Esse ponto vermelho 1 marca o início da operação de construção de representação nova. Feita a consulta ao repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da linguagem, a resposta foi negativa quanto à capacidade do repositório no estado em que se encontra de dar suporte ao ‘impensado’;
  • Disso decorre que a linguagem de ação ou de uso não pode fornecer representação que sirva ao objeto vislumbrado.
  • Nesse caso, a origem de valor para as proposições formuladas pela linguagem deve necessariamente provir de fonte externa à linguagem: as designações primitivas.

O que não muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura

A proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações e suas duas possibilidades de carregamento de valor, quanto às respectivas origens

a proposição
como veículo portador de valor

A proposição é para a linguagem
o que a representação é
para o pensamento:
sua forma, ao mesmo tempo
mais geral e mais elementar,
porquanto, desde que a decomponhamos, não reencontraremos mais o discurso,
mas seus elementos
como tantos materiais dispersos.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo IV  – Falar;
tópico III – Teoria do verbo
Michel Foucault 

a representação:
como o destino final do valor atribuído

(…) Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

O que sim muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura 

A origem do valor atribuído ao veículo de carregamento de valor para a representação: a proposição, sempre, porém em linguagens essencialmente diferentes até representações com origens de valor distintas.

o que muda é a origem – interna ou externa à linguagem –
do valor atribuído à proposição e por ela carregado para a representação

o destino final do valor atribuído à proposição, a representação,  pode ser 

  • representação já existente, a operação de construção da representação já foi realizada, o objeto já está disponível para uma troca,   
    (e a operação de troca imediata é possível) 
  • ou representação possível, pode ser construída, e o que a operação investiga é a permutabilidade futura do objeto
    (a operação de troca imediata não é possível)

Sobre isso, a explicação de Michel Foucault no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação do valor, é a seguinte

“Valer, para o pensamento clássico,
é primeiramente valer alguma coisa,
poder substituir essa coisa num processo de troca.

A moeda só foi inventada,
os preços só foram fixados e só se modificam
na medida em que essa troca existe.

Ora, a troca é um fenômeno simples
apenas na aparência.

Com efeito, só se troca numa permuta,
quando cada um dos dois parceiros
reconhece um valor
para aquilo que o outro possui.

Num sentido, é preciso, pois,
que as coisas permutáveis,
com seu valor próprio,
existam antecipadamente nas mãos de cada um,
para que a dupla cessão e a dupla aquisição
finalmente se produzam.

Mas, por outro lado,

  • o que cada um come e bebe,
    aquilo de que precisa para viver
    não tem valor
    enquanto não o cede;
  • e aquilo de que não tem necessidade
    é igualmente desprovido de valor
    enquanto não for usado
    para adquirir alguma coisa de que necessite.

Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

  • (atual [troca imediata]
  • ou possível [permutabilidade]),

isto é, 

  1. no interior da troca
    [representação existente]
  2. ou da permutabilidade
    [representação possível]
    .

… e prossegue Michel Foucault, indo diretamente ao ponto:

“Daí duas possibilidades simultâneas de leitura:

  1. leitura já dadas as condições de troca;
  2. leitura investiga a permutabilidade, isto é a criação de condições de possibilidade da troca

1 uma analisa o valor
no ato mesmo da troca,
no ponto de cruzamento
entre o dado e o recebido;

  • A primeira dessas duas leituras corresponde a uma análise que coloca e encerra

toda a essência da linguagem
no interior da proposição;

no primeiro caso, com efeito, a linguagem encontra seu lugar de possibilidade numa atribuição assegurada pelo verbo – isto é, por esse elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras mas que as reporta umas às outras; o verbo, tornando possíveis todas as palavras da linguagem a partir de seu liame proposicional, corresponde à troca que funda, como um ato mais primitivo que os outros, o valor das coisas trocadas e o preço pelo qual são cedidas;

2 outra analisa-o
como anterior à troca
e como condição primeira
para que esta possa ocorrer.

  • a outra, a uma análise que descobre essa mesma essência da linguagem do lado das

    • designações primitivas
    • linguagem de ação ou raiz;

[no segundo caso] a outra forma de análise,  

a linguagem está enraizada
fora de si mesma e como que

      • na natureza, ou nas   
      • analogias das coisas;

a raiz, o primeiro grito que dera nascimento às palavras antes mesmo que a linguagem tivesse nascido, corresponde à formação imediata do valor,

      • antes da troca
      • e das medidas recíprocas da necessidade.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

Opções de origem de valor atribuído à proposição e carregada por ela para a representação

Origem do valor atribuído à proposição
interna à linguagem

Operação de instanciamento de representação composta de representações anteriormente existentes
sob o pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo Michel Foucault; mostrando a origem de valor nas proposições interna à linguagem.
Note que designações primitivas e linguagem de ação
não são intervenientes nessa formulação de operações.

Origem do valor atribuído à proposição
externa à linguagem

Operação de Construção de representação nova, no caminho da Construção da representação
sob o pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825 segundo Michel Foucault;
mostrando a origem de valor nas proposições
externa à linguagem:
a) designações primitivas e b) linguagem de ação e a função que desempenham na operação.

 

O mapa de opções para leitura do fenômeno ‘operações’ (em qualquer área):
duas visões com duas abrangências muito diferentes dependendo da leitura que fazemos.

  • As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’; 
  • As alterações na linguagem em decorrência da incorporação das origens externas de valor atribuído à proposição em cada etapa das operações.  
Duas visões, duas leituras do fenômeno ‘operações’:
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775; (seta amarela)
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825 (seta vermelha)
com duas amplitudes – duas abrangências muito diferentes

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ em função da disponibilidade dos objetos intervenientes em uma operação de troca.

Os pontos amarelos 1 e 2 marcam o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ justamente no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

  • o elemento central destas operações é ‘Processo’
  • o ponto amarelo 1, no lado esquerdo da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento clássico, que ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento clássico tudo existe desde sempre e para sempre compondo o Universo;
    • a operação funciona com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) e por isso não são consideradas propriedades originais e constitutivas, o que coloca a noção de objeto fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.
  • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, marca a inserção do ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, porém, em um pensamento configurado com o perfil de características do pensamento moderno
    • o elemento central desta operação é ‘Forma de produção’;
    • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que também ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
      • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
      • a operação transcorre na etapa de instanciamento de representação anteriormente construída, e pode funcionar tanto com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) como com propriedades sim-originais e sim-constitutivas), o que coloca a noção de objeto opcionalmente dentro ou fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

O ponto vermelho marcado com 1 no lado direito da figura marca o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade do objeto da operação – a de construção de representações novas – tratando portanto da permutabilidade futura desse objeto em uma eventual operação de troca.

  • o ponto vermelho 1, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que ocorre agora no interior de dois domínios: no domínio do Pensamento e da Língua e no domínio do Discurso e da Representação, porém fora do Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
    • a operação transcorre na etapa de construção de representação nova, e  tem como escopo a descoberta das propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, o que coloca a noção de objeto obrigatoriamente dentro desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

As duas possibilidades carregamento de valor pela proposição formulada na(s) linguagem(ns) em função desses pontos de inserção do início de leitura de operações.

Quando nos pontos amarelos 1 e 2  no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

O pressuposto no LE da figura ‘a existência precede a distinção’ feita na operação vale também para a linguagem.

  • ‘Processo’, o elemento central das operações no LE da figura sob o pensamento clássico é formulado com atividades, tasks encontrados no interior da categoria selecionada no Sistema de categorias, ou Quadro de simultaneidades escolhido, e o valor carregado à proposição formulada na linguagem é proveniente dessa origem interna à linguagem previamente existente nesse ambiente.

Quando no ponto vermelho 1 antes da disponibilidade de um dos objeto que possivelmente será levado a uma futura operação de troca.

  • Esse ponto vermelho 1 marca o início da operação de construção de representação nova. Feita a consulta ao repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da linguagem, a resposta foi negativa quanto à capacidade do repositório no estado em que se encontra de dar suporte ao ‘impensado’;
  • Disso decorre que a linguagem de ação ou de uso não pode fornecer representação que sirva ao objeto vislumbrado.
  • Nesse caso, a origem de valor para as proposições formuladas pela linguagem deve necessariamente provir de fonte externa à linguagem: as designações primitivas.

 

Para referência:

Os dois princípios para o que seja trabalho

O Princípio Monolítico de Trabalho de Adam Smith, de 1776, têm valor carregado na proposição diretamente de dentro do espaço da representação;

Exemplos de modelos para operações e organizações organizados sob a configuração de pensamento clássica

O Princípio Dual de trabalho de David Ricardo têm valor carregado na proposição e por elas para as representações como no segundo caso acima.

 
As diferenças nas visões de ‘operações’ decorrentes de diferenças no posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno, podem ser vistas nas animações que descrevem o funcionamento das operações em cada caso: essas diferenças também podem ser vistas na página seguinte:
  • a animação correspondente ao pensamento clássico posiciona o início da leitura de ‘operações’ no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, pressupondo portanto, a disponibilidade desses dois objetos;
  • a animação correspondente ao pensamento moderno posiciona o início de leitura de ‘operações’ antes desse ponto, quando ainda um dos objetos envolvidos em uma futura troca está indisponível.
O texto de Foucault sobre essas duas alternativas de inserção do ponto de início da visão de ‘operações’ está na página seguinte:
E essas mudanças estão refletidas no tópico 
‘Uma anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento’
 
Para entender melhor os elementos de imagem que representam a origem de valor para as proposições desde fora da linguagem e fora do espaço da representação: 
  • ‘designações primitivas’
  • ‘linguagem de ação ou raiz’

A primeira opção de atribuição de valor dá-se diretamente na proposição – como ocorre no modelo de operações do pensamento clássico; veja a figura seguinte na qual está ilustrada a segunda opção de atribuição de valor à proposição com o carregamento do valor para a representação.

Operação de Construção de representação nova, no caminho da Construção da representação
sob o pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825 segundo Michel Foucault;
mostrando a origem de valor nas proposições
externa à linguagem:
a) designações primitivas e b) linguagem de ação e a função que desempenham na operação.
 
 
Se essa figura lhe parecer ‘poluída’, pense o seguinte:
  • ela mostra uma fotografia de um instante na operação de construção da representação nova;
    • a representação para o objeto dessa operação foi concluída;
    • os elementos de suporte na experiência à Forma de produção foram nada mais do que selecionados – encontrados e/ou desenvolvidos;
    • foi construído um objeto análogo ao vislumbrado para essa empiricidade objeto, representado na figura pela Sucessão de analogias.
  • acaba de ser formulada uma proposição explicativa porque foi obtida sustentação na experiência para todos os quesitos atribuídos ao objeto cuja representação aca acaba de ser construída.
  • as designações primitivas, ao lado da linguagem de ação ou de uso são as origens do valor atribuído a essa proposição.

Se a figura ainda lhe parecer confusa, e achar que vale a pena esclarece-la, veja novamente o Funcionamento das operações.

Veja uma coleção de conceitos chamados pelos mesmos nomes, mas consignificados muito distintos, sob o pensamento clássico e sob o moderno. 

Uma lista de alguns conceitos distintos no significado mas chamados pelos mesmos nomes:

  • 0. os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo;
    • diferenças na paleta de ideias ou elementos de imagem e suas estruturas;
    • comparações entre os dois princípios feitas por Michel Foucault;
    • as duas diferentes origens de valor atribuído à proposição pela distinta opção de leitura do fenômeno ‘operações’.
  • 1. dois conceitos para o que seja um verbo;
  • 2. dois conceitos para o que seja ‘Classificar’;
  • 3. dois papéis atribuídos ao homem;
  • 4. dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento;
  • 5. duas sintaxes envolvidas na construção de representação nova;
  • 6. dois conceitos para História;
  • 7. dois espaços gerais do saber;
  • 8. dois conceitos para tempo: calendário e absoluto;
  • 9. a proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações.
  • 10. Tabela de propriedades das duas configurações do pensamento.

Veja abaixo as diferenças entre os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo, usando as palavras de Michel Foucault

Aquém do objeto
Adam Smith, 1776

Princípio monolítico de trabalho de Adam Smith,
publicado no Riqueza das Nações, de 1776

Diante e  Além do objeto
David Ricardo, 1817

Princípio dual de trabalho de David Ricardo, publicado no Principle of Political Economy and Taxation, em 1817

Comparações entre os dois princípios de trabalho,
e a importância do princípio de trabalho de David Ricardo segundo Michel Foucault

Comparação, feita por Michel Foucault,
entre os princípios de trabalho
o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, 1817

comparações entre Adam Smith
e David Ricardo,
por Michel Foucault
A importância de David Ricardo,
segundo Michel Foucault

As duas diferentes origens de valor para a proposição, em função da configuração de pensamento adotada

Os elementos de imagem, as ideias, que permitem formular o modelo de operações baseado diretamente na linguagem e na representação
Os elementos de imagem, as ideias,
que permitem formular o modelo de operações
desde fora da linguagem
a partir das designações primitivas
– e da linguagem de ação ou de raiz(*)

Conceito de Verbo ‘Processo’ na configuração de pensamento
do período clássico, antes de 1775
Conceito de Verbo ‘Forma de produção’ na configuração
de pensamento do período moderno, depois de 1825

Processo
como verbo

 

“A única coisa que o verbo afirma
é a coexistência de duas representações:
por exemplo, 

          • a do verde
            e da árvore,

          • a do homem
            e da existência

            ou da morte; 

é por isso que o tempo dos verbos
não indica aquele [tempo]
em que as coisas existiram no absoluto,
mas um sistema relativo
de anterioridade ou de simultaneidade
das coisas entre si.”

‘Forma de produção’
como verbo

“É preciso, portanto,
tratar esse verbo como um ser misto,
ao mesmo tempo palavra entre as palavras,
preso às mesmas regras,
obedecendo como elas
às leis de regência e de concordância;

e depois,


em recuo em relação a elas todas,

numa região que

          • não é aquela do falado

          • mas aquela donde se fala.

Ele está na orla do discurso,
na juntura entre

          • aquilo que é dito

          • e aquilo que se diz,

exatamente lá onde os signos
estão em via de se tornar linguagem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo IV – Falar;
tópico III. A teoria do verbo
por Michel Foucault

Os dois conceitos para o que seja ‘Classificar

Classificar, portanto,
não será mais
referir o visível
a si mesmo,
encarregando um de seus elementos
de representar todos os outros;

Será
num movimento que faz revolver a análise,
reportar o visível,
ao invisível,
como a sua razão profunda;
depois,
alçar de novo dessa secreta arquitetura,
em direção aos seus sinais manifestos
[as “aparências”]que são dados à superfície dos corpos.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas’;
Capítulo VII – Os limites da representação;
tópico III. A organização dos seres
por Michel Foucault

pensamento clássico, antes de 1775
segmento AQUÉM do objeto

o homem está fora da paleta de ideias
no pensamento clássico, o de antes de 1775
era tratado como um gênero, ou uma espécie
do Sistema de Categorias

pensamento moderno, depois de 1825
segmento DIANTE  do objeto

os dois papéis do homem no pensamento moderno,
o de depois de 1825:
a) raiz e fundamento de toda positividade;
b) elemento do que é empírico

O modo de ser do homem,
tal como se constituiu no pensamento moderno,
permite-lhe desempenhar dois papéis:
está, ao mesmo tempo,

  • no fundamento de todas as positividades,

  • presente, de uma forma que não se pode sequer dizer privilegiada, no elemento das coisas empíricas.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cao. 10. As ciências humanas;
tópico I. O triedro dos saberes

“Assim o círculo se fecha.

Vê-se, porém, através de qual sistema de desdobramentos. 

As semelhanças exigem uma assinalação, pois nenhuma dentre elas poderia ser notada se não fosse legivelmente marcada. 

Mas que são esses sinais? 

Como reconhecer, entre todos os aspectos do mundo e tantas figuras que se entrecruzam,

que há aqui um caráter

no qual convém se deter,
porque ele indica uma secreta
e essencial semelhança? 

Que forma constitui o signo
no seu singular valor de signo? 

– É a semelhança.
Ele significa na medida
em que tem semelhança com o que indica
(isto é, com uma similitude). 

Contudo, 

  • não é a homologia que ele assinala, 

pois seu ser distinto de assinalação se desvaneceria no semelhante de que é signo; 

  • trata-se de outra semelhança, 

uma similitude vizinha e de outro tipo que serve para reconhecer a primeira, mas que, por sua vez, é patenteada por uma terceira. 

Toda semelhança recebe uma assinalação; essa assinalação, porém, é apenas uma forma intermediária da mesma semelhança. 

De tal sorte que o conjunto das marcas faz deslizar, sobre o círculo das similitudes, um segundo círculo que duplicaria exatamente e, ponto por ponto, o primeiro, se não fosse esse pequeno desnível que faz com que 

  • o signo da simpatia resida na analogia, 
  • o da analogia na emulação, 
  • o da emulação na conveniência, 

que, por sua vez, para ser reconhecida, requer 

  • a marca da simpatia… 

A assinalação e o que ela designa são exatamente da mesma natureza; apenas a lei da distribuição a que obedecem é diferente; a repartição é a mesma.”

“A arqueologia, essa, deve percorrer o acontecimento segundo sua disposição manifesta; ela dirá como as configurações próprias a cada positividade se modificaram 

  • (ela analisa por exemplo, para a gramática, o desaparecimento do papel maior atribuído ao nome e a importância nova dos sistemas de flexão; ou ainda, a subordinação, no ser vivo, do caráter à função); 

ela analisará a alteração dos seres empíricos que povoam as positividades 

  • (a substituição do discurso pelas línguas, das riquezas pela produção); 

estudará o deslocamento das positividades umas em relação às outras 

  • (por exemplo, a relação nova entre a biologia, as ciências da linguagem e a economia); 

enfim e sobretudo, mostrará que o espaço geral do saber não é mais o das identidades e das diferenças, o das ordens não-quantitativas, o de uma caracterização universal, de uma taxinomia geral, de uma máthêsis do não-mensurável, 

  • mas um espaço feito de organizações, isto é, de relações internas entre elementos, cujo conjunto assegura uma função; 
  • mostrará que essas organizações são descontínuas, que não formam, pois, um quadro de simultaneidades sem rupturas, mas que algumas são do mesmo nível enquanto outras traçam séries ou sequências lineares. 

 De sorte que se vêem surgir, 

como princípios organizadores
desse espaço de empiricidades, 

a Analogia
e a Sucessão:

de uma organização a outra, o liame, com efeito, 

  • não pode mais ser a identidade de um ou vários elementos,
  • mas a identidade da relação entre os elementos (onde a visibilidade não tem mais papel) 
  • e da função que asseguram; 

ademais, se porventura essas organizações se avizinham por efeito de uma densidade singularmente grande de analogias,

  • não é porque ocupem localizações próximas num espaço de classificação,
  • mas sim porque foram formadas uma ao mesmo tempo que a outra e uma logo após a outra no devir das sucessões. 

Enquanto, no pensamento clássico,

a seqüência das cronologias não fazia mais que percorrer o espaço prévio e mais fundamental de um quadro que de antemão apresentava todas as suas possibilidades,

doravante

as semelhanças contemporâneas e observáveis simultaneamente no espaço não serão mais que as formas depositadas e fixadas de uma sucessão que procede de analogia em analogia.  (*)

 

 

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Cap. – II. A prosa do mundo;
tópico II. As assinalações
de Michel Foucault

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Cap. – VII. Os limites da representação;
tópico I. A idade da história
de Michel Foucault

A sintaxe que autoriza
a construção das frases
A sintaxe que autoriza a manter juntas,
ao lado ou em frente umas das outras,
as palavras e as coisas

pensamento clássico,
de antes de 1775

pensamento moderno,
de depois de 1825

História entendida como

  • a coleta das sucessões de fatos
    tais como se constituíram.

História entendida como 

  • o modo de ser fundamental das empiricidades,

     

    aquilo a partir de que elas são

    • afirmadas, 

    • postas, 

    • dispostas 

    • e repartidas no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis

Mas vê-se bem que a História
não deve ser aqui entendida
como a coleta das sucessões de fatos, tais como se constituíram;
ela é o modo de ser fundamental das empiricidades,
aquilo a partir de que elas são
afirmadas, postas, dispostas e repartidas no espaço do saber
para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.

Assim como a Ordem no pensamento clássico
não era a harmonia visível das coisas,
seu ajustamento, sua regularidade ou sua simetria constatados,
mas o espaço próprio de seu ser
e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo,
as estabelecia no saber,
assim também a História, a partir do século XIX,
define o lugar de nascimento do que é empírico,
lugar onde,
aquém de toda cronologia estabelecida,
ele assume o ser que lhe é próprio. 

As palavras as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7. Os limites da representação;
tópico I. A idade da história

Espaços gerais dos saberes por segmento do espectro de modelos

pensamento clássico,
antes de 1775

pensamento moderno,
depois de 1825

Aquém do objeto

o espaço geral do saber
sob o pensamento filosófico clássico,
o de antes de 1775
O Quadro de simultaneidades

Diante do objeto

o espaço geral dos saberes
sob o pensamento filosófico moderno,
o de depois de 1825
o Triedro dos saberes
exceto as ciências humanas

 Além do objeto

o espaço interior do Triedro dos saberes
– o habitat das ciências humanas –
mostrando o modelo constituinte composto e comum a
todas as Ciências Humanas

Os dois conceitos para o tempo, em função do segmento do espectro de modelos e do tipo de operação em curso

Aquém do objeto

formulação sim reversível
e
instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento clássico, o de antes de 1775
tempo calendário no sistema Input-Output
operação de instanciamento de representação anteriormente formulada

Diante do objeto

formulação não reversível
e construção da representação nova
deus Kairós 

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo absoluto sistema absoluto
no caminho da Construção da representação

também Diante do objeto

formulação sim reversível
 e instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo relativo, sistema relativo ou absoluto,
no caminho do Instanciamento da representação

A análise das riquezas, junto com a gramática geral e a história natural, no pensamento clássico – o de antes de 1775, são contrapostas à análise da produção, filologia e biologia no pensamento de depois de 1825.

“Nem vida,
nem ciência da vida
na época clássica;
tampouco filologia.

Mas sim
uma história natural,
uma gramática geral.

Do mesmo modo,
não há economia política

porque, na ordem do saber,
a produção não existe.


Em contrapartida,
existe, nos séculos XVII e XVIII,

uma noção que nos permaneceu familiar,
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial.

Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito,
pois não tem lugar no interior
de um jogo de conceitos econômicos

que ela deslocaria levemente,
confiscando um pouco de seu sentido
ou corroendo sua extensão.

Trata-se antes de um domínio geral:
de uma camada bastante coerente
e muito bem estratificada,

que compreende e aloja, como tantos objetos parciais,
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação,
de renda, de interesse.


Esse domínio,

solo e objeto da “economia” na idade clássica,
é o da riqueza.

 Inútil colocar-lhe questões
vindas de uma economia de tipo diferente,

organizada, por exemplo,
em torno da produção ou do trabalho;

 inútil igualmente analisar seus diversos conceitos
(mesmo e sobretudo se seus nomes
em seguida se perpetuaram,

com alguma analogia de sentido),
sem levar em conta
o sistema em que assumem sua positividade.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

Sem fazer um alinhamento filosófico das ideias, das noções, para respectivamente cada período histórico em nossa cultura, o padrão é ficar com a análise de riquezas do pensamento filosófico clássico. (o que nem é difícil de perceber que é feito, em nosso meio)

O mínimo que somos chamados a fazer é esclarecer as razões pelas quais o conceito ‘riquezas’ é tão largamente utilizado; e as razões pelas quais Michel Foucault escreve “economia” assim, entre aspas, quando se refere ao período clássico. 

Veja a seguir os pontos:

  • Modos de ser e Métodos do pensamento: Cartesianismo, fora dele, Ciência, Tecnologia, Reflexão
  • A Descontinuidade epistemológica situada por Michel Foucault entre os anos de 1775 e 1825 em nossa cultura.
  • O funcionamento de operações – do pensamento, as de produção, as de troca, antes e depois desse evento fundamental em nossa cultura, antes e depois dele;
  • As paletas de ideias, e respectivos elementos de imagem, necessárias para cada operacionalidade;
  • Os domínios nos quais as operações acontecem, em função da configuração do pensamento;
  • O tempo nas operações em função da configuração do pensamento e da etapa da operação;
  • O lugar dado ao homem em cada configuração do pensamento;
  • Uma Anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento;
  • Um verdadeiro manual para construção de modelos para qualquer ciência humana, modelos nos quais o campo transcendental da subjetividade foi aberto e foram constituídos os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem, escrito pelo próprio Michel Foucault
  • Metáforas adequadas para modelos de operações respectivamente para cada configuração do pensamento;
  • Propriedades emergentes dos modelos de operações e organizações em função da configuração do pensamento utilizada.

 

O cartesianismo, segundo Vilém Flusser em ‘Da Religiosidade”; Cap. Pensamento e Reflexão

Um salto para fora do cartesianismo, segundo Vilém Flusser

Métodos do pensamento durante seus movimentos em direção ao mundo e a si mesmo

 

E foi realmente necessário
um acontecimento fundamental
– um dos mais radicais,
sem dúvida,
que ocorreram na cultura ocidental,
para que se desfizesse a positividade do saber clássico
e se constituísse uma positividade de que,
por certo,
não saímos inteiramente.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7. Os limites da representação;
tópico I. A idade da história

uma linha de tempo mostrando os intervalos de tempo entre o desenvolvimento de conhecimento e sua aplicação prática

 

O mapa de opções para leitura do fenômeno ‘operações’ (em qualquer área):
duas visões com duas abrangências muito diferentes dependendo da leitura que fazemos.

  • As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’; 
  • As alterações na linguagem em decorrência da incorporação das origens externas de valor atribuído à proposição em cada etapa das operações.  
Duas visões, duas leituras do fenômeno ‘operações’:
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775; (seta amarela)
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825 (seta vermelha)
com duas amplitudes – duas abrangências muito diferentes

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ em função da disponibilidade dos objetos intervenientes em uma operação de troca.

Os pontos amarelos 1 e 2 marcam o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ justamente no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

  • o elemento central destas operações é ‘Processo’
  • o ponto amarelo 1, no lado esquerdo da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento clássico, que ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento clássico tudo existe desde sempre e para sempre compondo o Universo;
    • a operação funciona com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) e por isso não são consideradas propriedades originais e constitutivas, o que coloca a noção de objeto fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.
  • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, marca a inserção do ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, porém, em um pensamento configurado com o perfil de características do pensamento moderno
    • o elemento central desta operação é ‘Forma de produção’;
    • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que também ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
      • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
      • a operação transcorre na etapa de instanciamento de representação anteriormente construída, e pode funcionar tanto com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) como com propriedades sim-originais e sim-constitutivas), o que coloca a noção de objeto opcionalmente dentro ou fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

O ponto vermelho marcado com 1 no lado direito da figura marca o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade do objeto da operação – a de construção de representações novas – tratando portanto da permutabilidade futura desse objeto em uma eventual operação de troca.

  • o ponto vermelho 1, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que ocorre agora no interior de dois domínios: no domínio do Pensamento e da Língua e no domínio do Discurso e da Representação, porém fora do Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
    • a operação transcorre na etapa de construção de representação nova, e  tem como escopo a descoberta das propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, o que coloca a noção de objeto obrigatoriamente dentro desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

As duas possibilidades carregamento de valor pela proposição formulada na(s) linguagem(ns) em função desses pontos de inserção do início de leitura de operações.

Quando nos pontos amarelos 1 e 2  no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

O pressuposto no LE da figura ‘a existência precede a distinção’ feita na operação vale também para a linguagem.

  • ‘Processo’, o elemento central das operações no LE da figura sob o pensamento clássico é formulado com atividades, tasks encontrados no interior da categoria selecionada no Sistema de categorias, ou Quadro de simultaneidades escolhido, e o valor carregado à proposição formulada na linguagem é proveniente dessa origem interna à linguagem previamente existente nesse ambiente.

Quando no ponto vermelho 1 antes da disponibilidade de um dos objeto que possivelmente será levado a uma futura operação de troca.

  • Esse ponto vermelho 1 marca o início da operação de construção de representação nova. Feita a consulta ao repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da linguagem, a resposta foi negativa quanto à capacidade do repositório no estado em que se encontra de dar suporte ao ‘impensado’;
  • Disso decorre que a linguagem de ação ou de uso não pode fornecer representação que sirva ao objeto vislumbrado.
  • Nesse caso, a origem de valor para as proposições formuladas pela linguagem deve necessariamente provir de fonte externa à linguagem: as designações primitivas.

O que não muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura

A proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações e suas duas possibilidades de carregamento de valor, quanto às respectivas origens

a proposição
como veículo portador de valor

A proposição é para a linguagem
o que a representação é
para o pensamento:
sua forma, ao mesmo tempo
mais geral e mais elementar,
porquanto, desde que a decomponhamos, não reencontraremos mais o discurso,
mas seus elementos
como tantos materiais dispersos.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo IV  – Falar;
tópico III – Teoria do verbo
Michel Foucault 

a representação:
como o destino final do valor atribuído

(…) Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

O que sim muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura 

A origem do valor atribuído ao veículo de carregamento de valor para a representação: a proposição, sempre, porém em linguagens essencialmente diferentes até representações com origens de valor distintas.

o que muda é a origem – interna ou externa à linguagem –
do valor atribuído à proposição e por ela carregado para a representação

o destino final do valor atribuído à proposição, a representação,  pode ser 

  • representação já existente, a operação de construção da representação já foi realizada, o objeto já está disponível para uma troca,   
    (e a operação de troca imediata é possível) 
  • ou representação possível, pode ser construída, e o que a operação investiga é a permutabilidade futura do objeto
    (a operação de troca imediata não é possível)

Sobre isso, a explicação de Michel Foucault no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação do valor, é a seguinte

“Valer, para o pensamento clássico,
é primeiramente valer alguma coisa,
poder substituir essa coisa num processo de troca.

A moeda só foi inventada,
os preços só foram fixados e só se modificam
na medida em que essa troca existe.

Ora, a troca é um fenômeno simples
apenas na aparência.

Com efeito, só se troca numa permuta,
quando cada um dos dois parceiros
reconhece um valor
para aquilo que o outro possui.

Num sentido, é preciso, pois,
que as coisas permutáveis,
com seu valor próprio,
existam antecipadamente nas mãos de cada um,
para que a dupla cessão e a dupla aquisição
finalmente se produzam.

Mas, por outro lado,

  • o que cada um come e bebe,
    aquilo de que precisa para viver
    não tem valor
    enquanto não o cede;
  • e aquilo de que não tem necessidade
    é igualmente desprovido de valor
    enquanto não for usado
    para adquirir alguma coisa de que necessite.

Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

  • (atual [troca imediata]
  • ou possível [permutabilidade]),

isto é, 

  1. no interior da troca
    [representação existente]
  2. ou da permutabilidade
    [representação possível]
    .

… e prossegue Michel Foucault, indo diretamente ao ponto:

“Daí duas possibilidades simultâneas de leitura:

  1. leitura já dadas as condições de troca;
  2. leitura investiga a permutabilidade, isto é a criação de condições de possibilidade da troca

1 uma analisa o valor
no ato mesmo da troca,
no ponto de cruzamento
entre o dado e o recebido;

  • A primeira dessas duas leituras corresponde a uma análise que coloca e encerra

toda a essência da linguagem
no interior da proposição;

no primeiro caso, com efeito, a linguagem encontra seu lugar de possibilidade numa atribuição assegurada pelo verbo – isto é, por esse elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras mas que as reporta umas às outras; o verbo, tornando possíveis todas as palavras da linguagem a partir de seu liame proposicional, corresponde à troca que funda, como um ato mais primitivo que os outros, o valor das coisas trocadas e o preço pelo qual são cedidas;

2 outra analisa-o
como anterior à troca
e como condição primeira
para que esta possa ocorrer.

  • a outra, a uma análise que descobre essa mesma essência da linguagem do lado das

    • designações primitivas
    • linguagem de ação ou raiz;

[no segundo caso] a outra forma de análise,  

a linguagem está enraizada
fora de si mesma e como que

      • na natureza, ou nas   
      • analogias das coisas;

a raiz, o primeiro grito que dera nascimento às palavras antes mesmo que a linguagem tivesse nascido, corresponde à formação imediata do valor,

      • antes da troca
      • e das medidas recíprocas da necessidade.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

 

Clique na figura para ver o significado de cada ideia – ou elemento de imagem, assinalado

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Domínio do Discurso e da Representação
no interior do qual ocorrem as operações de instanciamento da representação
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775

Os dois domínios onde ocorrem as operações de construção da representação
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825
quando no caminho da Construção da representação:
– a) o domínio do Pensamento e da Língua; e b) o domínio do Discurso e da Representação

Domínio do Discurso e da Representação
onde ocorrem as operações quando no caminho do Instanciamento da representação
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825

Os dois conceitos filosóficos para o que seja ‘Trabalho’:
o de Adam Smith, de 1776, e o de David Ricardo, de 1817

Aquém do objeto
Adam Smith, 1776

Principio monolítico de trabalho de Adam Smith,
publicado no Riqueza das Nações, de 1776

Diante e  Além do objeto
David Ricardo, 1817

Principio dual de trabalho de David Ricardo, publicado no Principles of Political Economy and Taxation, de 1817

Comparações entre os dois princípios de trabalho,
e a importância do princípio de trabalho de David Ricardo segundo Michel Foucault

Comparação, feita por Michel Foucault,
entre os princípios de trabalho
o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, 1817

Comparações entre Adam Smith
e David Ricardo,
por Michel Foucault

A importância de David Ricardo, 
no pensamento de Michel Foucault

Os dois conceitos para o tempo, em função do segmento do espectro de modelos e do tipo de operação em curso

Aquém do objeto

formulação sim reversível
e
instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento clássico, o de antes de 1775
tempo calendário no sistema Input-Output
operação de instanciamento de representação anteriormente formulada

Diante do objeto

formulação não reversível
e construção da representação nova
deus Kairós 

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo absoluto sistema absoluto
no caminho da Construção da representação

Diante do objeto

formulação sim reversível
e instanciamento de representação existente
deus Chronos

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo relativo, sistema relativo ou absoluto,
no caminho do Instanciamento da representação

 

pensamento clássico, antes de 1775
segmento AQUÉM do objeto

o homem está fora da paleta de ideias
no pensamento clássico, o de antes de 1775
era tratado como um gênero, ou uma espécie
do Sistema de Categorias

pensamento moderno, depois de 1825
segmento DIANTE  do objeto

os dois papéis do homem no pensamento moderno,
o de depois de 1825:
a) raiz e fundamento de toda positividade;
b) elemento do que é empírico

pensamento moderno, o de depois de 1825
no campo das ciências humanas,
segmento do espectro para ALÉM do objeto

Em seus dois papéis, o homem tem competências de acordo com “categorias” segundo os pares constituintes das ciências da Vida, do Trabalho e da Linguagem

A classe de modelos das ciências humanas:
um modelo composto pelos três pares constituintes
competências do homem em cada “categoria”,quando em seus dois papéis, em modelo de ciência humana

As três “categorias” definidas pelos pares constituintes das ciências da Vida (Biologia), do Trabalho (Economia) e da Linguagem (Filologia)

É na superfície de projeção da biologia que o homem aparece como um ser que

  • tem funções – que recebe estímulos (fisiológicos, mas também sociais, inter humanos, culturais), que responde a eles, que se adapta, evolui, submete-se às exigências do meio, harmoniza-se com as modificações que ele impõe, busca apagar os desequilíbrios,
  •  age segundo regularidades, tem, em suma, condições de existência e a possibilidade de encontrar normas médias de ajustamento que lhe permitem exercer suas funções. 

Na superfície de projeção da economia, o homem aparece enquanto tem 

  • necessidades e desejos, enquanto busca satisfaze-los, enquanto, pois, tem interesses, visa a lucros, opõe-se a outros homens; em suma, ele aparece numa irredutível situação de conflito
  • a esses conflitos ele se esquiva, deles foge ou chega a dominá-los, a encontrar uma solução que apazigue, ao menos em um nível e por algum tempo, sua contradição; instaura um conjunto de regras que são, ao mesmo tempo, limitação e dilatação do conflito. 

Enfim, na superfície de projeção da linguagem, as condutas do homem aparecem como 

  • querendo dizer alguma coisa; seus menores gestos, até em seus mecanismos involuntários e até em seus malogros, têm um sentido; e tudo o que ele deposita em torno de si, em matéria de objetos, de ritos, de hábitos, de discurso, toda a esteira de rastros que deixa atrás de si constitui um conjunto coerente e um sistema de signos. 

Assim, estes três pares,

  • função e norma
  • conflito e regra
  • significação e sistema,

cobrem, por completo, o domínio inteiro do conhecimento do homem. 

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 10. As ciências humanas;
tópico III – Os três modelos

Os modos de ser do homem
A descontinuidade epistemológica de 1775 e 1825

nosso patrimônio cultural sobre
a vida, o trabalho e a linguagem estava:

na idade clássica,  antes de 1775, 

  • na História natural;
  • na Gramática Geral,
  • e na Análise de Riquezas.

na modernidade, depois de 1825, 

    • na Biologia;
    • na Filologia
    • e na Análise da produção.

O tratamento dado ao homem 
na idade clássica 

  • uma espécie
  • ou um gênero,

ocupando uma das categorias do Sistema de categorias ou Quadro de simultaneidades. Um tratamento genérico entre os demais seres vivos focalizando

  • a potência da vida; 
  • a fecundidade do trabalho no homem; a espessura história da linguagem.

O tratamento dado ao homem
na idade moderna:

“O modo de ser do homem, 
tal como se constituiu no pensamento moderno, 
permite-lhe desempenhar dois papéis: 
está ao mesmo tempo,

  • no fundamento de todas as positividades,
  • presente, de uma forma que não se pode sequer dizer privilegiada,
    • no elemento das coisas empíricas.”

As palavras e as coisas: 
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 10 – As ciências humanas;
tópico I – O triedro dos saberes de Michel Foucault

1
“Em tantas ignorâncias, 
em tantas interrogações  permanecidas em suspenso,
seria preciso, sem dúvida, deter-se: 
aí está fixado o fim do discurso,  e o recomeço talvez do trabalho. 
Há ainda, no entanto, algumas palavras a dizer.
Palavras cujo estatuto é, sem dúvida,  difícil de justificar,
pois se trata de introduzir no último instante 
e como que por um lance de teatro artificial, 
uma personagem  que não figurara ainda 
no grande jogo clássico das representações.” (…)


As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
2
“No pensamento clássico, 
aquele para quem a representação existe,   
e que nela se representa a si mesmo,   
aí se reconhecendo por imagem ou reflexo,   
aquele que trama todos os fios entrecruzados   
da “representação em quadro” -,   
esse [o homem] jamais se encontra lá presente.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
3
“Antes do fim do século XVIII,  
o homem não existia.
Não mais que
a potência da vida,
a fecundidade do trabalho
ou a espessura histórica da linguagem.  
Sem dúvida,  as ciências naturais  trataram do homem como
de  uma espécie 
ou de um gênero  
a discussão sobre  o problema das raças,   
no século XVIII,  o testemunha.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
4
“Mas não havia 
consciência epistemológica 
do homem como tal.
A epistémê clássica 
se articula segundo linhas 
que de modo algum isolam
o domínio próprio e específico  do homem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
5
“Na medida, porém,  em que
as coisas  giram sobre si mesmas, 
reclamando para seu devir 
não mais que  o princípio de sua inteligibilidade 
e abandonando o espaço da representação, 
o homem, por seu turno,  
entra, e pela primeira vez, 
no campo do saber ocidental.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Prefácio
de Michel Foucault
6
“O modo de ser do homem, 
tal como se constituiu  no pensamento moderno, 
permite-lhe desempenhar dois papéis: 
está ao mesmo tempo,

no fundamento de todas as positividades,

presente, de uma forma
que não se pode sequer dizer privilegiada,
  no elemento das coisas empíricas.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 10 – As ciências humanas;
tópico I – O triedro dos saberes
de Michel Foucault
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Uma Anatomia ou uma Cartografia para modelos de operações segundo a configuração do pensamento:

pensamento clássico, o de antes de 1775;

  • a leitura do fenômeno ‘operação’  é feita a partir do ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca (todas as representações são pré-existentes à operação;
  • a formulação da representação é reversível; não há construção de novas representações, e a operação transcorre  no caminho do Instanciamento da representação combinada entre duas representações anteriores pré-existentes;
    • não há construção de representações; 
  • domínio: do Discurso e da Representação;
  • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (estrutura Input-Output)
  • elemento central: Processo
  • tempo: relativo ou tempo calendário sob o deus Cronos
  • ordem: Quadro de simultaneidades com um Sistema de categorias. (pode ser múltipla, e de uso simultâneo).

pensamento moderno, o de depois de 1825;

  • a leitura do fenômeno ‘operações’ é feita em um ponto situado antes do cruzamento  do que é dado e o que é recebido em uma operação de troca; o pensamento é capaz de construir representações novas;
  • caminho da Construção da representação; formulação da representação irreversível; operação ocorre no
    • Lugar do nascimento do que é empírico; com os subespaços:
      • Lugar desde onde se fala: domínio do Pensamento e da Língua;
      • Lugar do falado: domínio do Discurso e da Representação.
    • elemento central: Forma de produção;
    • tempo: absoluto (não relativo e não calendário) sob o deus Kairós;
    • ordem: única, dada pelas regras da gramática da língua utilizada.
    • origens de valor
      • designações primitivas;
      • linguagem de ação ou de uso: Repositório
    • caminho do Instanciamento da representação;
      • domínio do Discurso e da Representação;
        • Mercado, ou Circuito onde ocorrem as trocas;
      • linguagem de ação ou de uso: Repositório.

Veja isso também na seguinte página:

Anatomia ou cartografia dos modelos: os diferentes lugares onde o pensamento acontece, em função do perfil de pensamento e do caminho no qual seguem as operações.

Os domínios no interior dos quais transcorrem as operações, antes e depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

operação sob o pensamento clássico, antes de 1775

    • operação de construção da representação:
      • inexistente na leitura do fenômeno ‘operações’ feita no pensamento clássico
    • Operação de instanciamento ocorre no circuito das trocas (Mercado),
      • no interior do domínio do Discurso e da representação.

operação sob o pensamento moderno, depois de 1825

    • operação de Construção da representação transcorre no interior 
      do Lugar de nascimento do que é empírico;

um lugar composto por dois blocos em dois domínios diferentes:

      • o domínio do Pensamento e da língua;
        • o Lugar desde onde se fala;
      • o domínio do Discurso e da representação.
        • o Lugar do falado.

 

    • operação de Instanciamento de representação anteriormente construída
      • a operação de troca ocorre no Circuito das trocas (Mercado).
        • no interior do domínio do Discurso e da Representação

O Triedro dos saberes: arquitetura do espaço de saberes, modelo constituinte, utilização dos modelos constituintes fora das respectivas áreas de origem, por Michel Foucault

um verdadeiro manual para construção de modelos para qualquer ciência humana,
modelos nos quais o campo transcendental da subjetividade foi aberto e foram constituídos, para ALÉM do objeto, os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem escrito pelo próprio Michel Foucault

O espaço interior
do triedro dos saberes: o habitat das ciências humanas
A classe de modelos das ciências humanas: um modelo composto pelos três pares constituintes
Uso dos pares de modelos constituintes fora do domínio próprio em que foram criados

O espaço geral dos saberes delimitado pelo Triedro dos saberes, em cujo interior está o habitat das ciências humanas.

O Triedro dos saberes: a classe fundamental de toda ciência humana:

Projeções das ciências da Vida, do Trabalho e da Linguagem na classe fundamental das ciências humanas:

  • Estudo das literaturas e dos mitos – projeção da Filologia
    • [significação-sistema];
  • Sociologia – projeção da Economia;
    • [conflito-regra]
  • Psicologia, – projeção da Biologia.
    • [função-norma]

Utilização dos modelos constituintes das ciências da Vida, do Trabalho e da Linguagem; pares constituintes podem ser utilizados fora das respectivas áreas de origem.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 10 – As ciências humanas;
tópico I – O triedro dos saberes

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 10 – As ciências humanas;
tópico II – A forma das ciências humanas

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 10 – As ciências humanas;
tópico III – Os três modelos

Resumo Metáfora adequada para operações e Propriedades emergentes

  • pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775
    • propriedade emergente: Fluxo
    • metáfora adequada: transformação única Entradas ⇒ Saídas
    • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (Input-Output)
  • pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • propriedade emergente: Permanência
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de mesmo sinal;
      • sistema: absoluto no interior do Lugar de nascimento do que é empírico
    • caminho do Instanciamento da representação
      • propriedade emergente: Fluxo
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de sinais trocados;
      • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si ou absoluto, dependendo do projeto da operação.

Visão da operação clássica
Transformação única de Entradas em Saídas,
ou Processamento de informações

A. Pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775

1.   Transformação única, de Entradas Saídas, sobre a estrutura Input-Output, ou um processamento de informações

A metáfora da transformação de Entradas  ⇒ Saídas, sobre a estrutura Input-Output, que dá lugar a um sistema relativo de anterioridade ou de simultaneidade das coisas entre si é válida aqui, e é a famosa caixa preta. 

Seu elemento central é Processo, um verbo, que a única coisa que afirma é a coexistência de duas representações indicando um sistema relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (veja os dois conceitos para verbo de Foucault). O tempo, sob esse sistema, é um tempo calendário, reversível, como reversível é a formulação da operação sob essa configuração do pensamento.

Com a opção pela leitura do fenômeno ‘operações’ desde um ponto de vista posicionado no cruzamento do que é dado com o que é recebido na troca, essa metáfora representa apelas a operação de instanciamento de representação anteriormente feita e já carregada de valor diretamente atribuído à proposição.

Toda a etapa da construção de representação nova está fora desse escopo e por isso, a transformação pode ser única.

Veja aqui em Conceitos homônimos mas com significados diferentes, os conceitos para o que seja um verbo.

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho da Construção da representação
A metáfora adequada às operações no caminho
da Construção de representação
para a empiricidade objeto

B. Pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825

1.  Metáforas no caminho da Construção da representação:
uma Conversão, ou um par de transformações de mesmos sinais

Veja novamente página Metáforas adequadas e propriedades emergentes dos modelos de operações em cada segmento do espectro de modelos sob o título Conversão ou um par de transformações de mesmos sinais no caminho da Construção da representação.

Toda a operação pode ser reduzida a uma

  • Conversão, de pensamento não articulado em representação.

Essa conversão pode ser desdobrada em um par de transformações de mesmos sinais:

  • Primeira transformação:
    • [não – sim] pensamento não-articulado em pensamento sim-articulado;
  • Segunda transformação:
    • [nãosim] representação não-existente para representação sim-existente.

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação
Metáfora adequada para operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação:
uma Conversão ou um par de transformações com sinais trocados

2.  Metáforas no caminho do Instanciamento da representação: outra Conversão, ou um par de transformações mas agora de sinais opostos

Veja novamente página Metáforas adequadas e propriedades emergentes dos modelos de operações em cada segmento do espectro de modelos agora sob o título Conversão ou um par de transformações de sinais trocados no caminho do Instanciamento da representação.

Toda a operação pode ser reduzida a uma

  • Conversão,
    • de uma disponibilidade de recursos 
    • para disponibilidade de objeto da produção.

Essa conversão pode ser desdobrada em um par de transformações de mesmos sinais:

    • Primeira transformação: [simnão] Consumo, ou disponibilidade de recursos para indisponibilidade de recursos;
    • Segunda transformação: [não sim] Produção: indisponibilidade de objeto para disponibilidade de objeto.

Resumo Metáfora adequada para operações e Propriedades emergentes

  • pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775
    • propriedade emergente: Fluxo
    • metáfora adequada: transformação única Entradas ⇒ Saídas
    • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (Input-Output)
  • pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • propriedade emergente: Permanência
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de mesmo sinal;
      • sistema: absoluto no interior do Lugar de nascimento do que é empírico
    • caminho do Instanciamento da representação
      • propriedade emergente: Fluxo
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de sinais trocados;
      • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si ou absoluto, dependendo do projeto da operação.

A.  Modelos de operações sob o pensamento clássico, o de antes de 1775

1.  Fluxo na etapa de instanciamento de representação anteriormente formulada reversivelmente

Veja em Funcionamento das operações… a animação sob o título Aquém do objeto. Essa é uma operação de instanciamento de representação formulada anteriormente como uma composição de representações existentes. O apontador de início da operação está no cruzamento entre o dado e o recebido, ou na disponibilidade dos dois objetos envolvidos em uma eventual operação de troca.

Sob o pensamento clássico, o de antes de 1725 e anterior à descontinuidade epistemológica temos:

  • O tipo de pensamento usado tem a impossibilidade de fundar as sínteses [do objeto das operações] no espaço da representação – o primeiro obstáculo vislumbrado por Foucault em seu trabalho;
  • Essa impossibilidade arrasta o ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ para o cruzamento entre o que é dado e o que é recebido na operação de troca, ou o ponto em que os dois objetos envolvidos na operação de troca estão disponíveis;
    • valor é atribuído diretamente sobre a proposição;
  • A operação pode acontecer no Circuito das trocas já que os objetos envolvidos nesse tipo de operação estão disponíveis; essa operação transcorre inteiramente em um domínio único, o domínio do Discurso e da representação.
  • História, nesse tipo de operações, é entendida como a coleta das sucessões de fatos, tais como se constituíram.
  • O tipo de propriedades possíveis de serem consideradas na modelagem das operações é propriedades não-originais e não-constitutivas das coisas, que são selecionadas para participar das operações por suas propriedades consistentes com esse tipo, ou por “aparências”.
  • O elemento central desse modelo de operações é ‘Processo’, sobre um sistema relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si;
  • Resta nesse modelo de operações a contabilidade do que se aproxima de uma região do espaço em que ocorrem operações, do que entra nessa região, do que fica nessa região ou que Sai dela. A análise se restringe a esse Fluxo, pela total ausência da noção de objeto definido pelas suas propriedades originais e constitutivas, e pela pressuposição de que tudo existe, desde sempre e para sempre prescindindo assim da noção de sujeito.

Transformação única de Entradas em Saídas,
ou Processamento de informações
propriedade emergente FLUXO

1.  Permanência: no caminho da Construção da representação, em uma formulação irreversível.

Veja agora em Funcionamento das operações… a animação sob o título Diante do objeto. A operação modelada é de formulação da representação para empiricidade objeto ainda não representada. Ao final dessa operação passa a existir a representação, ou o projeto, do objeto antes indisponível para eventual operação de troca. E esse objeto, com o fim dessa operação com sucesso, está resolvido (seu projeto foi executado) mas ainda está indisponível. Para que ele esteja disponível será necessário o desencadeamento da etapa de instanciamento dessa representação recém criada. Então, a aposta é que essa representação permaneça em um repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da língua, de onde será selecionado para essa ulterior operação de instanciamento.

  • O tipo de pensamento utilizado tem desta vez a possibilidade de fundar as sínteses [do objeto das operações] no espaço da representação.
  • Essa possibilidade arrasta o ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ para antes do ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca, ou para o ponto em que pelo menos um dos objetos envolvidos na operação de troca não está disponível;
    • valor carregado pela proposição para a representação tem origem fora da representação e da linguagem:
      • nas designações primitivas;
      • na linguagem de ação ou de uso.
  • A operação transcorre no, ‘ interior do ‘Lugar de nascimento do que é empírico: “Assim como a Ordem no pensamento clássico não era a harmonia visível das coisas, seu ajustamento, sua regularidade ou sua simetria constatados, mas o espaço próprio de seu ser e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo, as estabelecia no saber, assim também a História, a partir do século XIX, define o lugar de nascimento do que é empírico, lugar onde, aquém de toda cronologia estabelecida, ele assume o ser que lhe é próprio.”
  • História, nesse tipo de operação é o “modo de ser fundamental das empiricidades, aquilo a partir de que elas são afirmadas, postas, dispostas e repartidas no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.”
  • O tipo de propriedades consideradas na modelagem de operações é propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, exatamente aquele objeto que falta para compor uma operação de troca.
  • O elemento central deste modelo de operações agora é a Forma de produção, em um sistema absoluto no qual “aquém de toda cronologia estabelecida, ele [o objeto da operação, aquele que falta para compor a operação de troca] assume o ser que lhe é próprio.
  • Nesse modelo de operações a representação (projeto) daquele objeto que faltava para eventual operação de troca é construída e dessa construção de nova representação surgem as propriedades sim-originais e sim-constitutivas que descrevem essa representação construída.

Propriedade emergente PERMANÊNCiA
no caminho da Construção da representação
metáfora adequada Conversão

B.    Modelos de operações sob o pensamento moderno, depois de 1825

 2.  Fluxo: no caminho do Instanciamento da representação:

A propriedade emergente volta a ser Fluxo, no caminho do Instanciamento da representação.

A representação objeto da operação de instanciamento é recuperada do Repositório no estado em que ela se encontrava quando foi adicionada a ele.

A empiricidade objeto será instanciada nesse estado em que foi recuperada; assim, o ‘modo de ser fundamental’ dessa empiricidade objeto da operação de instanciamento não muda.

Processos, atividades, etc. que compõem os elementos de suporte na experiência da Forma de produção são desencadeados, e há fluxos vários, que são mostrados na página indicada.

A metáfora adequada às operações
no caminho do Instanciamento da representação
propriedade emergente novmente FLUXO

 

 

O mapa de opções para leitura do fenômeno ‘operações’ (em qualquer área):
duas visões com duas abrangências muito diferentes dependendo da leitura que fazemos.

  • As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’; 
  • As alterações na linguagem em decorrência da incorporação das origens externas de valor atribuído à proposição em cada etapa das operações.  
Duas visões, duas leituras do fenômeno ‘operações’:
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775; (seta amarela)
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825 (seta vermelha)
com duas amplitudes – duas abrangências muito diferentes

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ em função da disponibilidade dos objetos intervenientes em uma operação de troca.

Os pontos amarelos 1 e 2 marcam o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ justamente no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

  • o elemento central destas operações é ‘Processo’
  • o ponto amarelo 1, no lado esquerdo da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento clássico, que ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento clássico tudo existe desde sempre e para sempre compondo o Universo;
    • a operação funciona com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) e por isso não são consideradas propriedades originais e constitutivas, o que coloca a noção de objeto fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.
  • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, marca a inserção do ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, porém, em um pensamento configurado com o perfil de características do pensamento moderno
    • o elemento central desta operação é ‘Forma de produção’;
    • o ponto amarelo 2, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que também ocorre no interior do domínio do Discurso e da Representação, e no Circuito das trocas;
      • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
      • a operação transcorre na etapa de instanciamento de representação anteriormente construída, e pode funcionar tanto com propriedades não-originais e não-constitutivas (a construção de representações novas está fora do escopo dessas operações) como com propriedades sim-originais e sim-constitutivas), o que coloca a noção de objeto opcionalmente dentro ou fora desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

O ponto vermelho marcado com 1 no lado direito da figura marca o posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade do objeto da operação – a de construção de representações novas – tratando portanto da permutabilidade futura desse objeto em uma eventual operação de troca.

  • o ponto vermelho 1, no lado direito da figura, representa o início de uma operação sob o pensamento moderno, que ocorre agora no interior de dois domínios: no domínio do Pensamento e da Língua e no domínio do Discurso e da Representação, porém fora do Circuito das trocas;
    • com o pensamento formulado com o perfil de características do pensamento moderno a articulação do pensamento com o impensado característica da forma de reflexão que orienta o pensamento, incorpora no próprio escopo do pensamento, a criação de novas representações;
    • a operação transcorre na etapa de construção de representação nova, e  tem como escopo a descoberta das propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, o que coloca a noção de objeto obrigatoriamente dentro desse espaço de empiricidades, junto com a noção de homem como sujeito dessas últimas operações de construção de representações novas.

As duas possibilidades carregamento de valor pela proposição formulada na(s) linguagem(ns) em função desses pontos de inserção do início de leitura de operações.

Quando nos pontos amarelos 1 e 2  no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca.

O pressuposto no LE da figura ‘a existência precede a distinção’ feita na operação vale também para a linguagem.

  • ‘Processo’, o elemento central das operações no LE da figura sob o pensamento clássico é formulado com atividades, tasks encontrados no interior da categoria selecionada no Sistema de categorias, ou Quadro de simultaneidades escolhido, e o valor carregado à proposição formulada na linguagem é proveniente dessa origem interna à linguagem previamente existente nesse ambiente.

Quando no ponto vermelho 1 antes da disponibilidade de um dos objeto que possivelmente será levado a uma futura operação de troca.

  • Esse ponto vermelho 1 marca o início da operação de construção de representação nova. Feita a consulta ao repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da linguagem, a resposta foi negativa quanto à capacidade do repositório no estado em que se encontra de dar suporte ao ‘impensado’;
  • Disso decorre que a linguagem de ação ou de uso não pode fornecer representação que sirva ao objeto vislumbrado.
  • Nesse caso, a origem de valor para as proposições formuladas pela linguagem deve necessariamente provir de fonte externa à linguagem: as designações primitivas.

O que não muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura

A proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações e suas duas possibilidades de carregamento de valor, quanto às respectivas origens

a proposição
como veículo portador de valor

A proposição é para a linguagem
o que a representação é
para o pensamento:
sua forma, ao mesmo tempo
mais geral e mais elementar,
porquanto, desde que a decomponhamos, não reencontraremos mais o discurso,
mas seus elementos
como tantos materiais dispersos.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo IV  – Falar;
tópico III – Teoria do verbo
Michel Foucault 

a representação:
como o destino final do valor atribuído

(…) Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

O que sim muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura 

A origem do valor atribuído ao veículo de carregamento de valor para a representação: a proposição, sempre, porém em linguagens essencialmente diferentes até representações com origens de valor distintas.

o que muda é a origem – interna ou externa à linguagem –
do valor atribuído à proposição e por ela carregado para a representação

o destino final do valor atribuído à proposição, a representação,  pode ser 

  • representação já existente, a operação de construção da representação já foi realizada, o objeto já está disponível para uma troca,   
    (e a operação de troca imediata é possível) 
  • ou representação possível, pode ser construída, e o que a operação investiga é a permutabilidade futura do objeto
    (a operação de troca imediata não é possível)

Sobre isso, a explicação de Michel Foucault no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação do valor, é a seguinte

“Valer, para o pensamento clássico,
é primeiramente valer alguma coisa,
poder substituir essa coisa num processo de troca.

A moeda só foi inventada,
os preços só foram fixados e só se modificam
na medida em que essa troca existe.

Ora, a troca é um fenômeno simples
apenas na aparência.

Com efeito, só se troca numa permuta,
quando cada um dos dois parceiros
reconhece um valor
para aquilo que o outro possui.

Num sentido, é preciso, pois,
que as coisas permutáveis,
com seu valor próprio,
existam antecipadamente nas mãos de cada um,
para que a dupla cessão e a dupla aquisição
finalmente se produzam.

Mas, por outro lado,

  • o que cada um come e bebe,
    aquilo de que precisa para viver
    não tem valor
    enquanto não o cede;
  • e aquilo de que não tem necessidade
    é igualmente desprovido de valor
    enquanto não for usado
    para adquirir alguma coisa de que necessite.

Em outras palavras,
para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam
já carregadas de valor;
e, contudo,
o valor só existe
no interior da representação

  • (atual [troca imediata]
  • ou possível [permutabilidade]),

isto é, 

  1. no interior da troca
    [representação existente]
  2. ou da permutabilidade
    [representação possível]
    .

… e prossegue Michel Foucault, indo diretamente ao ponto:

“Daí duas possibilidades simultâneas de leitura:

  1. leitura já dadas as condições de troca;
  2. leitura investiga a permutabilidade, isto é a criação de condições de possibilidade da troca

1 uma analisa o valor
no ato mesmo da troca,
no ponto de cruzamento
entre o dado e o recebido;

  • A primeira dessas duas leituras corresponde a uma análise que coloca e encerra

toda a essência da linguagem
no interior da proposição;

no primeiro caso, com efeito, a linguagem encontra seu lugar de possibilidade numa atribuição assegurada pelo verbo – isto é, por esse elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras mas que as reporta umas às outras; o verbo, tornando possíveis todas as palavras da linguagem a partir de seu liame proposicional, corresponde à troca que funda, como um ato mais primitivo que os outros, o valor das coisas trocadas e o preço pelo qual são cedidas;

2 outra analisa-o
como anterior à troca
e como condição primeira
para que esta possa ocorrer.

  • a outra, a uma análise que descobre essa mesma essência da linguagem do lado das

    • designações primitivas
    • linguagem de ação ou raiz;

[no segundo caso] a outra forma de análise,  

a linguagem está enraizada
fora de si mesma e como que

      • na natureza, ou nas   
      • analogias das coisas;

a raiz, o primeiro grito que dera nascimento às palavras antes mesmo que a linguagem tivesse nascido, corresponde à formação imediata do valor,

      • antes da troca
      • e das medidas recíprocas da necessidade.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo VI – Trocar;
V. A formação do valor
Michel Foucault 

  • modelos com estrutura clássica
    • o modelo descritivo de operações de produção de Elwood S. Buffa;
    • o Diagrama FEPSC(SIPOC)/Six Sigma;
    • os modelos na visão contábil-financeira:
      • de operações (Débito/Crédito)
      • e de organização (Ativo – Passivo – Resultados) ;

  • modelos com estrutura moderna
    • o modelo descritivo de operações de produção do Kanban;
    • o modelo expresso na Figura 7.1 – mapa da atividade semicondutores da Texas Instruments, do livro Reengenharia, de Michael Hammer;

modelo da UML – Unified Modeling Language, de Ivar Jacobson

  • modelos com estrutura moderna
    • o triedro dos saberes;
    • o espaço interior do triedro;
    • o uso dos pares de modelos constituintes, inclusive fora do domínio próprio.

Veja a seguir os pontos:

  • Temos um samba de uma nota só (com três ritmos):
    • unanimidades pelo uso dos conceitos:

Mercado‘, ‘Processo‘, ‘Riquezas;

  • quando poderíamos ter uma sinfonia
    • eliminando a unanimidade pelo não uso dos conceitos:

Lugar de nascimento do que é empírico‘, ‘Forma de produção‘ e ‘Análise da produção‘;

As unanimidades nos conceitos, pelo seu uso, e pelo não uso:

  • ‘Mercado’, ‘Processo’, ‘Riquezas’ conceitos de antes da descontinuidade epistemológica e portanto na idade clássica, são campeões de unanimidade pelo uso;
  • e os correspondentes conceitos do após a descontinuidade epistemológica e portanto da nossa modernidade no pensamento, campeões absolutos pelo não-uso: ‘Lugar de nascimento do que é empírico’, ‘Forma de produção’, ‘Análise da produção unânimes pelo não uso.

“Assim como a Ordem no pensamento clássico
não era a harmonia visível das coisas, seu ajustamento,
sua regularidade ou sua simetria constatados,
mas o espaço próprio de seu ser
e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo,
as estabelecia no saber,
assim também a História, a partir do século XIX,
define o lugar de nascimento do que é empírico,
lugar onde, aquém de toda cronologia estabelecida,
ele assume o ser que lhe é próprio.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7 – Os limites da representação;
tópico I. A idade da história

Mercado é o lugar onde ocorrem as trocas;
Foucault chama isso de Circuito das trocas, e nós chamamos de Mercado.

(a operação de troca ocorre no domínio do Discurso e da Representação,  pressupõe a existência do objeto que é dado e do que é recebido, e ocorre no interior do Domínio do Discurso e da Representação)

Lugar do nascimento do que é empírico é o lugar onde,
“aquém de toda cronologia estabelecida,
ele [a coisa empírica] assume o ser que lhe é próprio”
.

a operação de Construção de representação nova (projeto) acontece no Lugar de nascimento do que é empírico, – composto do Lugar desde onde se fala (no domínio do Pensamento e da Língua) e do Lugar do falado, (no interior do Domínio do Discurso e da Representação), e essa operação tem início antes da disponibilidade de um dos objetos envolvidos em operação de troca, que será levado – quando instanciado – ao circuito das trocas, fazendo essa operação de Construção de representação, uma prospecção da permutabilidade. 

Veja o modelo de operações – de produção e outras – sob o pensamento moderno, e note que ‘Lugar do nascimento do que é empírico‘ é um lugar, mesmo, e não o uso de ‘lugar’ como um cacoete retórico.

Lugar de nascimento do que é empírico é um lugar onde as empiricidades objeto de operações têm alterado o seu ‘modo de ser fundamental‘, definido por Michel Foucault como – nada mais, nada menos do que o elemento ordenador da história sob o pensamento filosófico moderno.

modo de ser fundamental de uma empiricidade é aquilo a partir do que ela pode ser
afirmada, posta, disposta e repartida no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.” As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7 – Os limites da representação; tópico I. A idade da história.

Os detalhes estão a seguir:

“Certamente, para Ricardo como para Smith, 
o trabalho pode realmente 
medir a equivalência das mercadorias que passam pelo circuito das trocas:”

“Na infância das sociedades, 
o valor permutável das coisas 
ou a regra que fixa a quantidade que se deve dar 
de um objeto por outro 
só depende da quantidade comparativa de trabalho 
que foi empregada na produção de cada um deles.” 

A diferença, porém, entre Smith e Ricardo está no seguinte:

  • para o primeiro, o trabalho, porque analisável em jornadas de subsistência, pode servir de unidade comum a todas as outras mercadorias (de que fazem parte os próprios bens necessários à subsistência);
  • para o segundo, a quantidade de trabalho permite fixar o valor de uma coisa,
    •  não apenas porque este seja representável  em unidades de trabalho,
    • mas primeiro e fundamentalmente porque
      o trabalho como atividade de produção
      é a fonte de todo valor”.

Já não pode este ser definido, como na idade clássica, partir do sistema total de equivalências e da capacidade que podem ter as mercadorias de se representarem umas às outras. 

O valor deixou de ser signo, tomou-se um produto. 


Se as coisas valem tanto quanto o trabalho que a elas se consagrou, 
ou se, pelo menos, seu valor está em proporção a esse trabalho, 

não é porque o trabalho seja um valor fixo, constante 
e permutável sob todos os céus e em todos os tempos, 

mas sim porque todo valor, qualquer que seja,
extrai sua origem do trabalho. 

E a melhor prova disso está em que o valor das coisas 
aumenta com a quantidade de trabalho que lhes temos de consagrar se as quisermos produzir; porém não muda com o aumento ou baixa dos salários 
pelos quais o trabalho se troca como qualquer outra mercadoria.”

Circulando nos mercados, trocando-se uns por outros, 
os valores realmente têm ainda um poder de representação. 
Extraem esse poder, porém, de outra parte – 
desse trabalho mais primitivo e radical do que toda representação 
e que, portanto, não pode definir-se pela troca.

Enquanto no pensamento clássico 
o comércio e a troca 
servem de base insuperável para a análise das riquezas 
(e isso mesmo ainda em Adam Smith, 
para quem a divisão do trabalho é comandada pelos critérios da permuta),

desde Ricardo, 
a possibilidade da troca está assentada no trabalho; 
e a teoria da produção, doravante, 
deverá sempre preceder a da circulação.

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; 
Cap. 8 Trabalho, vida e linguagem; tópico II – Ricardo

Processo é o elemento central daquele tipo de operações que o mais que fazem é assinalar a coexistência de duas representações aceitando sua existência prévia, e tomando como bons os valores a elas carregados pelas proposições em uma linguagem que lê operações como fenômeno, a partir da disponibilidade dos dois objetos envolvidos na troca.

Para modelar esse tipo de operação a estrutura Input-Output é mais do que suficiente; e a natureza das operações é uma contabilidade focalizada na região do espaço onde a operação transcorre, tomando conta do que entra, do que sai, do que permanece dentro ou nem entra nem sai. Nada a ver com o homem, ou com qualquer objeto definido por suas propriedades sim-originais e sim-constitutivas.

Qualquer coisa para a qual for possível estabelecer uma relação de anterioridade ou simultaneidade com relação à região onde ocorre a operação serve como Entrada, ou como Saída. E essa relação pode ser estabelecida por meio de uma propriedade não-original e não-constitutiva, ou uma “aparência”. Propriedades sim-originais e sim-constitutivas não são utilizadas.

Veja aqui duas coisas:

“A única coisa que o verbo afirma 
é a coexistência de duas representações: 
por exemplo, a do verde e da árvore, 
a do homem e da existência ou da morte; 
é por isso que o tempo dos verbos 
não indica aquele em que as coisas existiram no absoluto, 
mas um sistema relativo de anterioridade ou de simultaneidade das coisas entre si.” As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. IV – Falar; tópico III.  A teoria do verbo

para certificar-se de que esse conceito acima corresponde realmente ao pensamento na idade clássica, veja na página sobre o funcionamento das operações, as animações sobre o tempo nos dois períodos, e associe o tempo ‘calendário’ à parte do excerto acima sobre o tempo dos verbos. 

“Nem vida, nem ciência da vida
na época clássica; 
tampouco filologia. 
Mas sim uma história natural, uma gramática geral. 

Do mesmo modo, não há economia política 
porque, na ordem do saber, 
a produção não existe.
 
Em contrapartida, existe, nos séculos XVII e XVIII, 
uma noção que nos permaneceu familiar, 
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial. 

Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito, 
pois não tem lugar no interior de um jogo de conceitos econômicos 
que ela deslocaria levemente, confiscando um pouco de seu sentido ou corroendo sua extensão.

Trata-se antes de um domínio geral: 
de uma camada bastante coerente e muito bem estratificada, 
que compreende e aloja, como tantos objetos parciais, 
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação, de renda, de interesse.

Esse domínio, 
solo e objeto da “economia” na idade clássica, 
é o da riqueza.

Inútil colocar-lhe questões vindas de uma economia de tipo diferente, 
organizada, por exemplo, em torno da produção ou do trabalho;
inútil igualmente analisar seus diversos conceitos 
(mesmo e sobretudo se seus nomes em seguida se perpetuaram, 
com alguma analogia de sentido), 
sem levar em conta o sistema em que assumem sua positividade.” 

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; 
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

Sem fazer um alinhamento filosófico das ideias, das noções, para respectivamente cada período histórico em nossa cultura, o padrão é ficar com a análise de valor do pensamento filosófico anterior, o clássico, de antes de 1775.

 

Veja novamente a animação central sob o título ‘Diante do objeto’ na página

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Toda essa operação acontece no Lugar do nascimento do que é empírico, no caminho da Construção de representação nova. A operação vê o fenômeno a partir de um ponto de inserção do início de leitura da operação antes da disponibilidade do objeto cuja representação está em desenvolvimento e que, futuramente, poderá ser levada ao circuito das trocas.

O Lugar de nascimento do que é empírico compreende dois subespaços:

  • o Lugar desde onde se fala, no interior do domínio do Pensamento e da Língua;
  • e o Lugar do falado, no interior do domínio do Discurso e da Representação.

É parte da preparação para receber os resultados da articulação do pensamento com o impensado, encaminhando o resultado para o espaço das representações, no interior do domínio do Discurso e da Representação.

É assim que funciona o Princípio Dual de trabalho de David Ricardo.

A Forma de produção é o elemento central das operações sob o pensamento moderno. Nessa posição, a forma de produção tem também a natureza de um verbo, mas em um conceito totalmente diferente, que transcrevo abaixo:

“É preciso, portanto, 
tratar esse verbo como um ser misto, 
ao mesmo tempo 
palavra entre as palavras, 
preso às mesmas regras, 
obedecendo como elas às leis de regência e de concordância; 

e
 depois
em recuo em relação a elas todas, 
numa região que não é aquela do falado 
mas aquela donde se fala

Ele está na orla do discurso, 
na juntura entre
aquilo que é dito 
e aquilo que se diz
exatamente lá onde os signos 
estão em via de se tomar linguagem.” 

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
 Cap. IV – Falar; tópico III.  A teoria do verbo

Veja agora que esse verbo está postado na região ‘desde onde se fala’, um subespaço do ‘Lugar do nascimento do que é empírico’, e no interior do domínio do Pensamento e da Língua, onde a articulação com o impensado pode ter início para uma representação ainda não existente, – e não na região do falado, esta no interior do domínio do Discurso e da Representação. Foucault é preciso a esse respeito: ‘Ele está na orla do discurso, na juntura…’

Veja a página

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho: o de Adam Smith e o de David Ricardo, de 1817

Nessa mesma página, mais embaixo, veja Comparações entre os dois princípios de trabalho, e a importância do princípio de trabalho de David Ricardo, segundo Michel Foucault.

A animação central da página Funcionamento… com o título ‘Diante do objeto’ descreve a operação de construção de uma representação para empiricidade objeto ainda não representada. Trata-se daquele objeto ainda indisponível em uma operação de troca já descrito nas duas possibilidades de leitura… etc.

Veja logo acima o item II.8.a.i especialmente o trecho:

  • para o segundo, a quantidade de trabalho permite fixar o valor de uma coisa,
    não apenas porque este seja representável em unidades de trabalho,
    mas primeiro e fundamentalmente
    porque o trabalho como atividade de produção
    é “a fonte de todo valor”.

Tudo o que está representado na página Funcionamento… na animação central ‘Diante do objeto’ está completamente fora do pensamento que pensa operações no cruzamento do que é dado e o que é recebido.

Toda a operação que acontece no caminho da Construção da representação está fora do modo como operações são vistas como fenômeno.

Mesmo quando diante de um modelo descritivo da produção que considere a Construção de representação, o analista supõe que se trata de um modelo que reza pela cartilha anterior, e segue pensando do modo como sempre pensou.

O pensamento clássico, aquele que dispunha da História natural, da Análise das riquezas e da Gramática geral, fazia a Análise das riquezas.

O pensamento moderno efetua em seu lugar, a Análise da produção, o que implica na inclusão do que acontece no caminho da Construção da representação nova para a empiricidade objeto. Como esse pensamento não é considerado em suas diferenças com relação ao clássico, a Análise da produção acaba sendo feita meio que sem consistência no pensamento.

Tópico V. Psicanálise e etnologia, do Cap. 10 – As ciências humanas,
do livro As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas

Espaços gerais dos saberes por segmento do espectro de modelos

pensamento clássico,
antes de 1775

pensamento moderno,
depois de 1825

Aquém do objeto

o espaço geral do saber
sob o pensamento filosófico clássico,
o de antes de 1775
O Quadro de simultaneidades

Diante do objeto

o espaço geral dos saberes
sob o pensamento filosófico moderno,
o de depois de 1825
o Triedro dos saberes
exceto as ciências humanas

 Além do objeto

o espaço interior do Triedro dos saberes
– o habitat das ciências humanas –
mostrando o modelo constituinte composto e comum a
todas as Ciências Humanas

Este último tópico do ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’ vale como Um exercício de uso do modelo composto característico das ciências humanas,
uma combinação dos pares constituintes das ciências: 

  • da Vida (Biologia) [função-norma]; 
  • do Trabalho (Economia) [função-norma]; 
  • da Linguagem (Filologia) [significação-sistema]

além do conhecimento do papel dessas duas ciências em nossa cultura.

“A psicanálise e a etnologia ocupam, no nosso saber, um lugar privilegiado. 

Não certamente 

  • porque teriam, melhor que qualquer outra ciência humana, embasado sua positividade e realizado enfim o velho projeto de serem verdadeiramente científicas; 

antes porque, 

  • nos confins de todos os conhecimentos sobre o homem, elas formam seguramente um tesouro inesgotável de experiências e de conceitos, mas, sobretudo, um perpétuo princípio de inquietude, de questionamento, de crítica e de contestação daquilo que, por outro lado, pôde parecer adquirido. 

Ora, há para isto uma razão que tem a ver com o objeto que respectivamente cada uma se atribui, mas tem mais ainda a ver com a posição que ocupam e com a função que exercem no espaço geral da epistémê. 

A psicanálise, com efeito, mantém-se o mais próximo possível desta função crítica acerca da qual se viu que era interior a todas as ciências humanas.

Dando-se por tarefa fazer falar através da consciência o discurso do inconsciente, 

a psicanálise avança na direção desta região fundamental onde se travam as relações entre a representação e a finitude. 

Enquanto todas as ciências humanas

  •  só se dirigem ao inconsciente virando-lhe as costas, esperando que ele se desvele à medida que se faz, como que por recuos, a análise da consciência, 

já a psicanálise 

  • aponta diretamente para ele, de propósito deliberado – 
    • não em direção ao que deve explicitar-se pouco a pouco na iluminação progressiva do implícito, 
    • mas em direção ao que está aí e se furta, que existe com a solidez muda de uma coisa, de um texto fechado sobre si mesmo, ou de uma lacuna branca num texto visível e que assim se defende. 

Não há que supor que o empenho freudiano seja o componente de uma interpretação do sentido e de uma dinâmica da resistência ou da barreira; 

  • seguindo o mesmo caminho que as ciências humanas, 

mas com o olhar voltado em sentido contrário, 

  • a psicanálise se encaminha 

em direção ao momento –inacessível, por definição, a todo conhecimento teórico do homem, a toda apreensão contínua em termos 

        • de significação
        • de conflito 
        • ou de função

– em que os conteúdos da consciência se articulam com,
ou antes, ficam abertos para a finitude do homem. 

Isto quer dizer que, 

  • ao contrário das ciências humanas que, 
    • retrocedendo embora em direção ao inconsciente, 
      • permanecem sempre no espaço do representável, 
  • a psicanálise 
    • avança para transpor a representação, extravasá-la do lado da finitude
    • e fazer assim surgir, lá onde se esperavam 
      • as funções portadoras de suas normas
      • os conflitos carregados de regras 
      • e as significações formando sistema
    • o fato nu de que pode haver 
      • sistema (portanto, significação), 
      • regra (portanto, oposição), 
      • norma (portanto, função). 

E, nessa região onde a representação fica em suspenso, à margem dela mesma, aberta, de certo modo ao fechamento da finitude, desenham-se as três figuras pelas quais 

  • a vida, com suas funções e suas normas, vem fundar-se na repetição muda da Morte, 
  • os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, 
  • as significações e os sistemas, numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei. “

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. X – As ciências humanas;
tópico V – Psicanálise, etnologia 

Modelo de operações em organização orientada pelo par sujeito-objeto

 

Argumento: a modelagem de operações
organizada pelo par sujeito-objeto

Construção da estrutura de operações na disposição SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica

 

Os dois objetos diferentes, presentes no Mapa da Reengenharia de Michael Hammer

A simetrização do Mapa da Reengenharia, a Fig. 7.1 Mapa da atividade semicondutores da TI,
apenas detalhando elementos já existentes no mapa original de Michael Hammer

A figura da Visão SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica parte de duas ideias:

  • a ideia de que cada objeto demanda operação específica para ele;
  • a ideia de que não é possível a obtenção de um objeto (produto) sem dispor de um instrumento (laboratório, área de desenvolvimento, fábrica). Claramente não temos acesso à Varinha Mágica de condão de Merlin, o Mago, instrumento habil para instanciar qualquer objeto.
    • pensar na obtenção do objeto sem o respectivo instrumento é semelhante a pensar magicamente;
    • o pensamento conjunto dos dois objetos, o produto e a fábrica, reduz a qualidade dos modelos de operações;
    • a Visão SSS permite a modelagem do Nexo da produção.

Essa ideia está embutida na Figura 7.1 Mapa de processos da atividade semicondutores da Texas Instruments, basta analisar tendo em mente as condições de possibilidade no pensamento daquela figura.

Veja também



  • Sistema Formulador – uma alteração no modelo de dados clássico de um SDGP – Sistema Dedicado à Gestão de Projetos  – como o MS Project 4.0 por exemplo, fazendo com que ele passe a funcionar a partir de banco de dados 9com a linguagem de uso) e com um modelo sim-discriminativo com relação ao elemento componente do objeto que se pretende concretizar.

Partindo dos dois obstáculos, ou as duas pedras de tropeço que Foucault declara ter encontrado em seu trabalho, traçamos – usando apenas interpretação de texto – um espectro de produções do pensamento, teorias, modelos e sistemas, com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e para ALÉM do objeto.

Da forma de reflexão que se instaura no pensamento em nossa cultura no depois da descontinuidade epistemológica, vemos que o pensamento funciona organizado em torno do par sujeito-objeto. Mudando o objeto, muda a operação que pode ou não ser conduzida por um sujeito diferente, mas com um sujeito a conduzi-la.

Aplicando esse elemento organizador par sujeito-objeto às operações em organizações, vê-se que já existem operações e organizações organizadas com esse critério: o modelo descritivo da produção do Kanban, e a Fig. 7.1 Mapa de processos da atividade semicondutores da Texas Instruments, do livro Reengenharia, são exemplos.

Se examinamos mais de perto este último exemplo, veremos que há dois pares sujeito-objeto incluídos nesse mapa – segundo Hammer, de ‘processos’ (ele não conseguiu se livrar dessa unanimidade mesmo mapeando claramente Formas de produção e não processos.

A Visão SSS resume-se a respeitar a relação um objeto – um modelo de operações. E isso leva a uma organização SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica que torna evidente o nexo da produção.

Coleção de modelos CIM e outros

28 modelos na coleção

Coleção de modelos

  1. orquestra sinfônica
  2.  modelo do Orion da FormTek apresentado pela Eikon
  3.  modelo relacional de dados do Open Plan Professional
  4. Modelo de organização por Prof. Dr. Robert Henry Srour
  5.  Processos – principal e de apoio: de Três estratégias para turbinar a inteligência organizacional, pg 47
  6.  CRM – Visão Estratégica: de Miriam Bretzke, FGV e PUC São Paulo
  7.  Visualização de uma empresa: o critério de Entradas e Saídas; de Samsão Woiler e Washington Franco Matias
  8.  O processo de desenvolvimento de um objeto esperado: The Unified Software Development Process por Ivar Jacobson
  9.  Web Application: visão em quebra-cabeças
  10.  Proforma Provision Workbench: o modelo 5W2H
  11.  Moldeo CIM da GM
  12.  Visão geral sobre Organizações/Instituições da Fundação Dom Cabral
  13.  A visão antroposófica de Jair Moggi
  14.  Espiral de Desenvolvimento e suas 4 fases
  15.  A organização vista pela Soltec
  16.  Modelo CIM – USP São Paulo: de Prof. A. C. Fleury
  17.  Modelo CTI – Campinas
  18.  Modelo CIM – AWF
  19.  Modelo CIM da GE
  20.  Modelo CIM da HP
  21.  Modelo CIM da IBM
  22.  Arquitetura CIM-OSA
  23.  Modelo CIM – USP São Carlos
  24.  Modelo CIM – Siemens
  25.  Modelo Y
  26.  Modelo BMW
  27.  A manufatura como sistema
  28.  Modelo CIM da NCR

Detalhes dos 28 modelos da coleção

Coleção de modelos de organizações, de operações, modelos CIM e outros

Modelo de organização
de uma Orquestra
Modelo de organização:
Orion, da FormTek
Modelo relacional de dados
do Open Plan Professional
Modelo de organização
interdependência organizacional
Modelo de processos
principal e de apoio
Modelo de organização
CRM – visão estratégica
asdf
Modelo de processo
obtenção de um sistema de software
Aplicativo Web
visão em quebra-cabeças
Modelo de organização
Proforma Provision Workbench
Modelo de organização
modelo CIM da GE
Modelo de organização
Visão geral Organizações/Instituições Fundação Dom Cabral
Modelos de organizações
A visão antroposófica
Modelo de organizações
Modelo Espiral
Modelo de organização
Modelo Soltec
Modelo de operações
Baseado no Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo, de 1817
Modelo de organização
FEPSC/SIPOC Six Sigma
Modelo organização
Visão da PHD, original
/modelo de operações
Modelo descritivo da produção do Kanban
Modelo comparativo
Visões Top down e Botton up
Figura 7.1 – Mapa da atividade semicondutores da Texas Instruments; Reengenharia, Michael Hammer

Sumário Parte II – Pensamento corrente na mídia: alguns exemplos do pensamento encontrado corrente na mídia

Os pontos comentados são os seguintes:

1

Introdução do vídeo:
‘O mundo de hoje é parecido com o de ontem, apenas na fotografia!’

2

Direcionamento do pensamento:
ao intangível, ou ao impensado? 

3

Relação com o intangível

4

Jorge Forbes: Entrevista ao canal Inconsciente coletivo em 28/07/2020: “estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos”

5

O  incômodo de Jorge Forbes com a noção de ‘norma’ e o modelo composto padrão e genérico, constituinte das ciências humanas em geral, todas elas, proposto por Michel Foucault

6

Freud explica ⇒ Freud implica: uma frase de efeito que depende de qual seja a configuração do pensamento sob a qual é proferida;