ReflexõesImaginativas

Reflexões imaginativas no espaço-tempo das Permanências e dos Fluxos

com a licença de Augusto de Franco pelo enxerto (quase paráfrase) feito sobre o título de um de seus trabalhos.

  • O espírito com que estou escrevendo e pistas sugestivas de espaço para mudanças

  • Influências, inspirações, a plataforma adotada para exposição de ideias
  • O livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, de 1966, a nossa Cartilha; cujo autor, Michel Foucault, merece o título de Engenheiro de Produção emérito
  • O funcionamento das operações; uma Anatomia ou Cartografia, dos modelos; Metáforas adequadas para modelos de operações; Propriedades emergentes em função das configurações do pensamento
  • Unanimidades em conceitos, seja pelo uso, seja pelo desuso:
  • Alguns (7) exemplos de modelos descritivos da produção e de organizações, existentes;
  • A visão SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica, para organizações de qualquer tipo: modelagem simultânea do objeto esperado, e do instrumento necessário para obter esse objeto

 

Dom Quixote,
por Salvador Dalí
Miguel de Cervantes, 1547-1616
Dom Quixote em sua biblioteca

“O poeta faz chegar a similitude até os signos
que a dizem,

o louco carrega todos os signos com uma semelhança
que acaba por apagá-los.”

Dom Quixote é a primeira das obras modernas,

  • pois que aí se vê a razão cruel das identidades e das diferenças desdenhar infinitamente dos signos e das similitudes:
  • pois que aí a linguagem rompe seu velho parentesco com as coisas, para entrar nessa soberania solitária donde só reaparecerá, em seu ser absoluto, tornada literatura;
  • pois que aí a semelhança entra numa idade que é, para ela, a da desrazão e da imaginação.

Uma vez desligados a similitude e os signos, 

  • duas experiências podem se constituir
  • e duas personagens aparecer face a face.

O louco, 

  • entendido não como doente,
  • mas como desvio constituído e mantido, como função cultural indispensável, 

tornou-se, na experiência ocidental, o homem das semelhanças selvagens.

Essa personagem, tal como é bosquejada nos romances ou no teatro da época barroca e tal como se institucionalizou pouco a pouco até a psiquiatria do século XIX, é aquela que se alienou na analogia. 

É o jogador desregrado do Mesmo e do Outro.

Toma as coisas pelo que não são e as pessoas umas pelas outras; ignora seus amigos, reconhece os estranhos; crê desmascarar e impõe uma máscara. Inverte todos os valores e todas as proporções, porque acredita, a cada instante, decifrar signos: para ela, os ouropéis fazem um rei. 

Segundo a percepção cultural que se teve do louco até o fim do século XVIII, ele só é o Diferente na medida em que não conhece a Diferença; por toda a parte vê semelhanças e sinais da semelhança; todos os signos para ele se assemelham e todas as semelhanças valem como signos.

Na outra extremidade do espaço cultural, mas totalmente próximo por sua simetria, 

o poeta 

  • é aquele que, por sob as diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentescos subterrâneos das coisas, suas similitudes dispersadas. 
  • Sob os signos estabelecidos e apesar deles, ouve um outro discurso, mais profundo, que lembra o tempo em que as palavras cintilavam na semelhança universal das coisas: a Soberania do Mesmo, tão difícil de enunciar, apaga na sua linhagem a distinção dos signos.

Daí sem dúvida, na cultura ocidental moderna, o face-a-face da poesia e da loucura.

Mas já não se trata do velho tema platônico do delírio inspirado. 

Trata-se da marca de uma nova experiência da linguagem e das coisas.

Às margens de um saber que separa os seres, os signos e as similitudes, e como que para limitar seu poder, o louco garante a função do homossemantismo: reúne todos os signos e os preenche com uma semelhança que não cessa de proliferar.

O poeta garante a função inversa; sustenta o papel alegórico; sob a linguagem dos signos e sob o jogo de suas distinções bem determinadas, põe-se à escuta de “outra linguagem”, aquela, sem palavras nem discursos, da semelhança.

O poeta faz chegar a similitude até os signos que a dizem,

o louco carrega todos os signos com uma semelhança que acaba por apagá-los.

Assim, na orla exterior da nossa cultura e na proximidade maior de suas divisões essenciais, estão ambos nessa situação de “limite” – postura marginal e silhueta profundamente arcaica – onde suas palavras encontram incessantemente seu poder de estranheza e o recurso de sua contestação.

Entre eles abriu-se o espaço de um saber onde, por uma ruptura essencial no mundo ocidental,

  • a questão não será mais a das similitudes,
  • mas a das identidades e das diferenças.

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 3 – Representar;
tópico I. Dom Quixote
de Michel Foucault

  • Influências e inspirações;
  • Plataforma adotada para exposição de ideias;
  • Imaginação e Conceituação: funções humanas reversíveis entre ocorrências espacio-temporais – imagens – textos;
  • Os caminhos (e descaminhos) de Humberto Maturana Romesin;
  • Nosso roteiro e nossa inspiração. 

Influências e inspirações

1 a influência de Vilém Flusser no livro ‘Filosofia da caixa preta’: 

uso das funções reversíveis Imaginação e Conceituação para navegar, ida e volta, entre 

textos ↔ imagens ↔ e ocorrências espacio-temporais; 

e ainda, não menos importante

    • as imagens tradicionais, as imagens técnicas, as classes de abstrações que usamos cotidianamente;
Vilém-Flusser-Portrait-008
Vilém Flusser
1920-1991

2 as sugestões de Humberto Maturana nos livros: Cognição, Ciência e Vida cotidiana; Emoções e Linguagem na Educação e na Política; ‘De máquinas e de seres vivos’:

objeções e propostas de mudança feitas por Maturana ao fazer dos pesquisadores em IA do MIT do final dos anos ’50, aceitação de algumas das críticas feitas, e aparentemente, uma alteração de rota;

Humberto Maturana
1928-

3 a influência especialmente muito forte de Michel Foucault no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’:

a descoberta de duas pedras de tropeço durante seu trabalho nesse livro, a saber:

    • uma impossibilidade (ainda em nossos dias) de fundar as sínteses no espaço da representação, presente no nosso pensamento cotidiano;
    • e uma obrigação de abrir o campo transcendental da subjetividade constituindo, para além do objeto, os quase-transcendentais Vida(Biologia), Trabalho(Economia) e Linguagem(Filologia).
Michel Foucault
1926-1984

A plataforma visual adotada para exposição das imagens feitas para ilustrar os conceitos

a plataforma adotada para dar suporte às figuras ou imagens correspondentes aos conceitos encontrados no livro ‘As palavras e as coisas’ será

  • a Figura 2 – Diagrama ontológico; do tópico Reflexões epistemológicas, do livro Cognição, Ciência e Vida cotidiana; 

ou ainda essencialmente a mesma figura, com as observações sobre diferenças

  • a Figura 2 – O Explicar e a Experiência; do Cap. Linguagem, Emoções e Ética nos Afazeres Políticos, do livro Emoções e Linguagem na Educação e na Política;

ambos esses dois livros de Humberto Maturana, 

Vamos utilizar essa figura – com as alterações –  como plataforma para o trânsito de e para (ida e volta): 

Texto ↔ Imagem ↔ Ocorrências espacio-temporais 

seguindo a orientação de Flusser . 

E fizemos alterações e complementações nela, o que pode ser visto em outra animação neste trabalho.

 

O circuito ida e volta possibilitado por funções
Imaginação e Conceituação reversíveis

classes de abstrações:
Graus da abstração;
Dimensões próprias a cada caso

Roteiro e inspiração

 

  • Estar na linguagem segundo Humberto Maturana

    Estar na linguagem é uma coordenação de coordenações consensuais de ações

  • Pedra fundamental do pensamento de Maturana no início do seu trabalho

    A pedra fundamental do pensamento de Humberto Maturana

HM foto 1

Humberto Maturana Romesin
1928 –

  • Um salto para fora do cartesianismo

    Salto para fora do cartesianismo: Vilém Flusser em Pensamento e Reflexão

  • As imagens tradicionais

  • As imagens técnicas, as construídas por aparelhos

    Imagem técnica – aquele tipo de imagem produzida por um aparelho.

vilem

Vilém Flusser
1920-1991

Veja aqui os seguintes pontos:

  • O livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’ tal como visto por seu autor, Michel Foucault;
  • A história do nascimento do ‘As palavras e as coisas’ contada por Michel Foucault no Prefácio desse livro, associada a imagens;
  • O que exatamente Foucault via quanto ao que acontecia com as formas de pensamento em nossa cultura e a modos distintos de absorver o mundo;
  • O espaço a ser ocupado pelo estudo em estilo de arqueologia realizado no ‘As palavras e as coisas’;
  • A descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura, posicionada por Michel Foucault entre os anos de 1775 e 1825;
  • A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura e os dois perfis de conceitos característicos das duas configurações do pensamento; 
  • Conceitos homônimos mas com significados diferentes entre o pensamento clássico, o de antes de 1775, e o moderno, o de depois de 1825, segundo Michel Foucault;
  • A análise das riquezas: (riquezas: um domínio, solo e objeto da “economia” na idade clássica, segundo Michel Foucault);
  • As duas opções alternativas para a visão do fenômeno ‘operações’, com diferentes abrangências, e as respectivas duas origens do valor carregado pelas proposições para as representações; as correspondentes duas configurações de funcionamento da própria linguagem e do pensamento, e os modelos resultantes em cada caso.

Veja esses pontos a seguir:

O livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, na visão de Michel Foucault

“Ora, esta investigação arqueológica mostrou duas grandes descontinuidades na epistémê da cultura ocidental:

  • aquela que inaugura a idade clássica (por volta dos meados do século XVII)
  • e aquela que, no início do século XIX, marca o limiar de nossa modernidade.

A ordem,
sobre cujo fundamento pensamos,
não tem o mesmo modo de ser
que a dos clássicos.

Por muito forte que seja a impressão que temos de um movimento quase ininterrupto da ratio européia desde o Renascimento até nossos dias,

  • por mais que pensemos que a classificação de Lineu, mais ou menos adaptada, pode de modo geral continuar a ter uma espécie de validade,
  • que a teoria do valor de Condillac se encontra em parte no marginalismo do século XIX,
  • que Keynes realmente sentiu a afinidade de suas próprias análises com as de Cantillon,
  • que o propósito da Gramática geral (tal como o encontramos nos autores de Port-Royal ou em Bauzée) não está tão afastado de nossa atual linguística 

 – toda esta quase-continuidade ao nível das idéias e dos temas não passa, certamente, de um efeito de superfície; no nível arqueológico, vê-se que o sistema das positividades mudou de maneira maciça na curva dos séculos XVIII e XIX.

Não que a razão tenha feito progressos;

  • mas o modo de ser das coisas e da ordem que, distribuindo-as, oferece-as ao saber; é que foi profundamente alterado.

Se a história natural de Tournefort, de Lineu e de Buffon tem relação com alguma coisa que não ela mesma,

  • não é com a biologia, a anatomia comparada de Cuvier ou o evolucionismo de Darwin,
  • mas com a gramática geral de Bauzée, com a análise da moeda e da riqueza tal como a encontramos em Law, em Véron de Fortbonnais ou em Turgot.

Os conhecimentos chegam talvez a se engendrar; as ideias a se transformar e a agir umas sobre as outras (mas como? até o presente os historiadores não no-lo disseram);

  • uma coisa, em todo o caso, é certa:
    • a arqueologia,
      • dirigindo-se ao espaço geral do sabe!;
      • a suas configurações
      • e ao modo de ser das coisas que aí aparecem,
    • define sistemas de simultaneidade, assim como a série de mutações necessárias e suficientes para circunscrever o limiar de uma positividade nova.

Assim, a análise pôde mostrar a coerência que existiu, durante toda a idade clássica, entre

  • a teoria da representação e as
    • da linguagem,
    • das ordens naturais,
    • da riqueza e do valor:

É esta configuração que, a partir do século XIX, muda inteiramente;

  • a teoria da representação desaparece como fundamento geral de todas as ordens possíveis;
  • a linguagem, por sua vez, como quadro espontâneo e quadriculado primeiro das coisas, como suplemento indispensável entre a representação e os seres, desvanece-se;
  • uma historicidade profunda penetra no coração das coisas, isola-as e as define na sua coerência própria.

Impõe-lhes formas de ordem que são implicadas pela continuidade do tempo;

  • a análise das trocas e da moeda cede lugar ao estudo da produção,
  • a do organismo toma dianteira sobre a pesquisa dos caracteres taxinômicos;
  • e, sobretudo, a linguagem perde seu lugar privilegiado e torna-se, por sua vez, uma figura da história coerente com a espessura de seu passado.

Na medida, porém, em que as coisas giram sobre si mesmas,

  • reclamando para seu devir não mais que o princípio de sua inteligibilidade
  • e abandonando o espaço da representação,

o homem,
por seu turno, entra,
e pela primeira vez,
no campo do saber ocidental.

Estranhamente, o homem – cujo conhecimento passa, a olhos ingênuos, como a mais velha busca desde Sócrates – não é, sem dúvida, nada mais que uma certa brecha na ordem das coisas, uma configuração, em todo o caso, desenhada pela disposição nova que ele assumiu recentemente no saber:

Daí nasceram todas as quimeras dos novos humanismos, todas as facilidades de uma “antropologia “, entendida como reflexão geral, meio positiva, meio filosófica, sobre o homem.

Contudo, é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que

  • o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber;
  • e que desaparecerá desde que este houver encontrado uma forma nova.”

“Vê-se que esta investigação responde um pouco, como em eco, ao projeto de escrever uma história da loucura na idade clássica; ela tem, em relação ao tempo, as mesmas articulações, tomando como seu ponto de partida o fim do Renascimento e encontrando, também ela, na virada do século XIX; o limiar de uma modernidade de que ainda não saímos.

Enquanto, na história da loucura,

  • se interrogava a maneira como uma cultura pode colocar sob uma forma maciça e geral a diferença que a limita, 

trata-se aqui  

  • de observar a maneira como ela experimenta a proximidade das coisas, como ela estabelece o quadro de seus parentescos e a ordem segundo a qual é preciso percorrê-los.

Trata-se, em suma, de uma história da semelhança:

  • sob que condições o pensamento clássico pôde refletir, entre as coisas, relações de similaridade ou de equivalência que fundam e justificam as palavras, as classificações, as trocas?
  • A partir de qual a priori histórico foi possível definir o grande tabuleiro das identidades distintas que se estabelece sobre o fundo confuso, indefinido, sem fisionomia e como que indiferente, das diferenças?

A história da loucura
seria a história do Outro

– daquilo que, para uma cultura  
é ao mesmo tempo
interior e estranho,
a ser portanto excluído
(para conjurar-lhe o perigo interior),
encerrando-o porém
(para reduzir-lhe a alteridade);

a história da ordem das coisas
seria a história do Mesmo
 

– daquilo que, para uma cultura,
é ao mesmo tempo
disperso e aparentado,
a ser portanto distinguido por marcas
e recolhido em identidades.

E se se pensar que a doença é, ao mesmo tempo, 

  • a desordem, a perigosa alteridade no corpo humano e até o cerne da vida, 

mas também 

  • um fenômeno da natureza que tem suas regularidades, suas semelhanças e seus tipos –

vê-se que lugar poderia ter uma arqueologia do olhar médico.

Da experiência-limite do Outro às formas constitutivas do saber médico e, destas, à ordem das coisas e ao pensamento do Mesmo, o que se oferece à análise arqueológica 

  • é todo o saber clássico, 
  • ou melhor; esse limiar que nos separa do pensamento clássico e constitui nossa modernidade.

Nesse limiar apareceu pela primeira vez esta estranha figura do saber que se chama homem e que abriu um espaço próprio às ciências humanas.

Tentando trazer à luz esse profundo desnível da cultura ocidental, é a nosso solo silencioso e ingenuamente imóvel que restituímos suas rupturas, sua instabilidade, suas falhas; e é ele que se inquieta novamente sob nossos passos.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Prefácio

Veja essa história em uma animação 

A história do nascimento do ‘As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas’,
de Michel Foucault, contada por ele mesmo

1 – A ideia que deu origem ao livro ‘As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas

que pode ser vista junto com outras mais, nesta página

Uma história do nascimento do livro ‘As palavras e as coisas,
contada pelo próprio autor no Prefácio

Para essa história contada por Foucault no Prefácio, a aqui é ideia sobrepor o texto dessa historinha a uma imagem em que estão representadas as duas estruturas exigidas pelos modelos de operações em dois perfis que podem ser associados aos pensamentos clássico e moderno:

  • o texto de Borges, que deu origem ao livro, associado a uma heterotopia e ao pensamento clássico;
  • efeitos desse texto sobre as familiaridades do pensamento que tem a nossa idade e a nossa geografia abalando todos os planos e todas as superfícies ordenadas que tornam para nós sensata a profusão dos seres; e fazendo vacilar e inquietando por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro;
  • associação da Utopia ao pensamento moderno (o impensado organizando as operações)
  • o texto da Enciclopédia chinesa uma taxinomia sob o pensamento clássico;
  • o limite do nosso pensamento: a impossibilidade de pensar isso.
  • Que coisa é impossível pensar? e de que impossibilidade se trata?
  • a desordem pior que aquela do incongruente, ou da aproximação daquilo que não convém:
    • seria a utilização de um grande número de ordens possíveis na dimensão sem lei nem geometria do heteróclito;
  • o consolo das Utopias;
  • a inquietação causada pelas heterotopias;
    • porque solapam secretamente a linguagem;
    • porque impedem de nomear as coisas, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham,
    • porque arruínam de antemão a sintaxe
      • e não somente a sintaxe que constrói as frases
      • também aquela sintaxe, menos manifesta, que autoriza manter juntas, ao lado e em frente umas das outras, as palavras e as coisas.
Neste trabalho mostramos como essas coisas mencionadas nesse texto se relacionam com modelos de operações, e também modelos de organizações.
Colocamos ao fundo da narrativa desse texto do Prefácio as diferentes configurações do pensamento em modelos de operações e de organizações, e como vão se alterando à medida que a narrativa prossegue.

Michel Foucault vê dois obstáculos que adiaram o término do seu trabalho no livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências  humanas. 

“Eis que nos adiantamos
bem para além do acontecimento histórico que se impunha situar
– bem para além das margens cronológicas
dessa ruptura
que divide, em sua profundidade,
a epistémê do mundo ocidental
e isola para nós o começo
de certa maneira moderna de conhecer as empiricidades. 

É que o pensamento que nos é contemporâneo 
e com o qual, queiramos ou não, pensamos, 
se acha ainda muito dominado 

  • pela impossibilidade,
    trazida à luz por volta do fim do século XVIII,
    de fundar as sínteses
    no espaço da representação.

  • e pela obrigação 
    correlativa, simultânea,
    mas logo dividida contra si mesma,
    de abrir o campo transcendental
    da subjetividade 
    e de constituir, inversamente, para além do objeto, 
    esses quase-transcendentais que são para nós a Vida, o Trabalho, a Linguagem.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas (Cartilha);
Capítulo 7 – Trabalho, Vida e Linguagem;
tópico I. As novas empiricidades
de Michel Foucault

Impossibilidade X Possibilidade
de fundar as sínteses (da empiricidade objeto)
no espaço da representação

A impossibilidade [no pensamento clássico, antes de 1775]
contra a sim-possibilidade [no pensamento moderno, depois de 1825]
de fundar as sínteses [da empiricidade objeto] no espaço da representação.

A obrigação cumprida:
os quase-transcendentais
Vida, Trabalho e Linguagem constituídos

Os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem
em utilização no espaço interior do triedro dos saberes
comum das ciências humanas

e também nesta página

Os dois obstáculos, as duas pedras de tropeço, encontrados por Michel Foucault em seu caminho,

com especial destaque para o segundo obstáculo, a saber, o cumprimento da obrigação de abertura do campo transcendental da subjetividade constituindo, para além do objeto, o espaço em que habitam os modelos das ciências humanas.

Em nenhum momento Foucault solicita ao seu leitor que faça um ato de fé no que ele diz.
Foucault argumenta sempre, a partir de dados levantados quanto ao modo de ser do pensamento em uma vasta plêiade de autores contemporâneos às mudanças. 

Foucault via no conjunto de teorias, modelos e sistemas em nossa cultura, um espectro de modelos com três segmentos, que decorre dessa visão, e que aponta para o futuro; e que lhe sugeria a necessidade de distinções entre esses diferentes modos de ser do pensamento, e todo o trabalho com a arqueologia feita no ‘As palavras e as coisas’: 

Como se vê pelo ponto em que se insere na ‘Cartilha’ essa citação, o capítulo 7 de um trabalho em dez capítulos, quando escreveu esse trecho Foucault já tinha bem adiantado seu trabalho no ‘As palavras e as coisas’; nesse momento ele aponta dois obstáculos, duas pedras de tropeço que precisou enfrentar e que tiveram o poder de dilatar em muito o tempo necessário para fazer esse livro; ele via:  

    1. uma impossibilidade, a de fundar as sínteses [da representação para a empiricidade objeto de cada operação] no espaço da representação
    2. e uma obrigação a ser cumprida:
      a de abrir o campo transcendental da subjetividade
      e de constituir, inversamente, para além do objeto, 
      os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem 

O espectro de modelos com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e ALÉM do objeto

 O espectro de modelos com três segmentos, que abriga teorias, modelos e sistemas desde o século XVII até o século XXI, usando essa análise de Michel Foucault decorre desse momento intenso de Foucault.   

Efeito do levantamento da impossibilidade de fundar as sínteses (do objeto das operações) no espaço da representação;
e da constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem

Os segmentos do espectro de modelos compostos com os critérios acima são os seguintes

    • AQUÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • sem espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a impossibilidade 
        de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e portanto sem a constituição, para além do objeto, dos quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • DIANTE do objeto – teorias, modelos e sistemas
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • sem essa impossibilidade, ou melhor, com a possibilidade
        de fundar as sínteses dos objetos das operações, no espaço da representação;
      • sem a abertura do campo transcendental da subjetividade e constituídos, para além do objeto, os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem.
    • para ALÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas:
      • com espaço em suas estruturas para o par sujeito-objeto;
      • com a possibilidade de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação.
      • nos quais foi aberto o campo transcendental da subjetividade e foram constituídos para além do objeto, os “quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem
        estes, os modelos no domínio das ciências humanas. 

O excerto da Cartilha, o ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, – abaixo selecionado descreve o que é esse estudo em estilo de arqueologia realizado por Foucault, e como são as operações no antes e no depois desse evento fundador da nossa modernidade no pensamento, a descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825, descrita por ele.

Você pode ver agora a nossa interpretação do que conseguimos apreender desse texto, ou primeiro ler o texto original e depois ver esta animação:

A idade da história em três tempos: uma descrição de Foucault do que seja a sua arqueologia das ciências humanas.

Poderá ser útil ver também o funcionamento das operações

Funcionamento das operações em função das configurações do pensamento de antes de 1775 e de depois de 1825, datas limites da ocorrência desse evento fundador da nossa modernidade no pensamento. 

AVISO: tudo o que se segue neste trabalho depende da distinção estabelecida entre os dois modos de ver ‘operações’ correspondentes às duas configurações do pensamento, expressas nas animações acima
a partir do texto de Foucault abaixo.

Diz Foucault: 

“A arqueologia, essa,
deve percorrer o acontecimento
segundo sua disposição manifesta;

ela dirá como as configurações próprias a cada positividade se modificaram
(ela analisa por exemplo, 

                  • para a gramática, o desaparecimento do papel maior atribuído ao nome
                    e a importância nova dos sistemas de flexão; 

                  • ou ainda, a subordinação, no ser vivo, do caráter à função); 

ela analisará a alteração dos seres empíricos que povoam as positividades 

                  • (a substituição do discurso pelas línguas, 

                  • das riquezas pela produção); 

estudará o deslocamento das positividades umas em relação às outras

                  • (por exemplo, a relação nova entre a biologia, as ciências da linguagem e a economia); 

enfim e sobretudo, mostrará que o espaço geral do saber

                  • não é mais o das identidades e das diferenças, o das ordens não-quantitativas, o de uma caracterização universal, de uma taxinomia geral, de uma máthêsis do não-mensurável, 

                  • mas um espaço feito de organizações, isto é,
                    de relações internas entre elementos, cujo conjunto assegura uma função;

mostrará que essas organizações são descontínuas,
que não formam, pois, um quadro de simultaneidades sem rupturas,
mas que algumas são do mesmo nível
enquanto outras traçam séries ou sequências lineares. 

De sorte que se vêem surgir,
como princípios organizadores desse espaço de empiricidades,

a Analogia e a Sucessão:


de uma organização a outra,

o liame, com efeito,
•  não pode mais ser
a identidade de um ou vários elementos,
•  mas a identidade da relação entre os elementos
(onde a visibilidade não tem mais papel)
e da função que asseguram;

ademais, se porventura essas organizações se avizinham

por efeito de uma densidade
singularmente grande
de analogias,
↓ não é porque ocupem localizações próximas

num espaço de classificação,
↑ mas sim porque foram formadas
uma ao mesmo tempo que a outra
e uma logo após a outra

no devir das sucessões. 

Enquanto, no pensamento clássico, 

                • a sequência das cronologias não fazia mais que percorrer o espaço prévio e mais fundamental de um quadro que de antemão apresentava todas as suas possibilidades, 

doravante 

                • as semelhanças contemporâneas
                  e observáveis simultaneamente no espaço
                  não serão mais que as formas depositadas e fixadas

                  de uma sucessão que procede
                  de analogia em analogia. 

A ordem clássica distribuía num espaço permanente as identidades e as diferenças não-quantitativas que separavam e uniam as coisas: era essa a ordem que reinava soberanamente, mas a cada vez segundo formas e leis ligeiramente diferentes, sobre o discurso dos homens, o quadro dos seres naturais e a troca das riquezas. 

A partir do século XIX,
a História vai desenrolar numa série temporal
as analogias que aproximam umas das outras as organizações distintas. 

É essa História que, progressivamente, imporá suas leis

                •  à análise da produção, 

                • à dos seres organizados, enfim, 

                • à dos grupos linguísticos. 

A História
dá lugar às organizações analógicas,

assim como a Ordem
abria o caminho
das identidades

e das diferenças sucessivas.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7 – Os limites da representação;
tópico I. A idade da história
de Michel Foucault

Veja isto em 

A descontinuidade epistemológica ocorrida entre 1775 e 1825,
segundo o pensamento de Michel Foucault

ou ainda na seguinte página

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825

segundo Michel Foucault

De um lado e de outro dessa descontinuidade epistemológica temos:

  • antes de 1775 – pensamento clássico ou idade clássica do pensamento, com modelos com a (im)possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação;
  • depois de 1825 – pensamento moderno ou a nossa modernidade no pensamento, com modelos com a possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação.

Note que Adam Smith e David Ricardo estão posicionados em lados opostos com relação à fase de ruptura desse evento ao qual Foucault dá o status de evento fundador da nossa modernidade no pensamento.

Note ainda que todos os autores que formam a base do liberalismo clássico também estão posicionados por Foucault antes desse evento, em plena idade clássica.

“Instaura-se uma forma de reflexão, 
bastante afastada do cartesianismo e da análise kantiana, 
em que está em questão,
pela primeira vez, 
o ser do homem,
nessa dimensão segundo a qual 
o pensamento se dirige ao impensado 
e com ele se articula.”
 

Cartilha; Cap. 9. O homem e seus duplos; V – O “cogito” e o impensado

Veja isso associado a uma figura na qual os elementos de imagem escolhidos compõem uma estrutura que pode ser comparada com por exemplo, o Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo, de 1817 

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura

A forma de reflexão que se instaura
com esse perfil de conceitos do pensamento moderno, o de depois de 1825

Veja também o funcionamento das operações, especificamente no segmento DIANTE do objeto e na etapa da Construção da representação.

Nesse excerto da Cartilha, Foucault modela dinamicamente uma proposição que se ajusta a cada etapa da operação, coloca em cada proposição:

  • o ser do homem (o sujeito)
  • dirigindo-se ao objeto, o impensado,  (atributo do predicado do sujeito). 

Nota: Nessa forma de reflexão que se instaura, ‘o ser do homem’ não se dirige ao intangível, mas ao impensado! (que pode ser também intangível, sem problemas)  Muitas vezes o intangível continua exatamente assim, intangível, mesmo depois que o pensamento tenha dado um jeito no seu aspecto impensado.   

Intangível é uma qualidade de algo e não faz parte das propriedades originais e constitutivas desse algo.

Essa forma de reflexão sim, dirige-se ao impensado, o objeto por inteiro, em relação ao qual o Pensamento pode muito. Pode descobrir suas propriedades originais e constitutivas, propriedades substantivas, e não adjetivas, aparências, como é o intangível.
(Ref. Entrevista de Jorge Forbes)

Ao contrário do impensado, que mediante articulação no pensamento patrocinada pelo sujeito, pode ganhar o espaço da representação, o intangível na maioria dos casos, permanece exatamente isso: intangível.  

Veja as bases de sustentação e essa forma de reflexão em   

Os  perfis das duas configurações do pensamento, segundo o pensamento de Michel Foucault:
e Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento

Essa forma de reflexão é consistente e está na base do Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo.

Veja em imagens 

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho, o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, de 1817; veja também as diferenças entre esses dois conceitos, nas palavras de Michel Foucault

que ilustram essa forma de reflexão no depois da descontinuidade epistemológica, e a reflexão no período anterior.

Veja uma coleção de conceitos chamados pelos mesmos nomes, mas consignificados muito distintos, sob o pensamento clássico e sob o moderno. 

Uma lista de alguns conceitos distintos no significado mas chamados pelos mesmos nomes:

  • 0. os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo;
    • diferenças na paleta de ideias ou elementos de imagem e suas estruturas;
    • comparações entre os dois princípios feitas por Michel Foucault;
    • as duas diferentes origens de valor atribuído à proposição pela distinta opção de leitura do fenômeno ‘operações’.
  • 1. dois conceitos para o que seja um verbo;
  • 2. dois conceitos para o que seja ‘Classificar’;
  • 3. dois papéis atribuídos ao homem;
  • 4. dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento;
  • 5. duas sintaxes envolvidas na construção de representação nova;
  • 6. dois conceitos para História;
  • 7. dois espaços gerais do saber;
  • 8. dois conceitos para tempo: calendário e absoluto;
  • 9. a proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações.
  • 10. Tabela de propriedades das duas configurações do pensamento.

Veja abaixo as diferenças entre os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo, usando as palavras de Michel Foucault

Aquém do objeto
Adam Smith, 1776

Princípio monolítico de trabalho de Adam Smith,
publicado no Riqueza das Nações, de 1776

Diante e  Além do objeto
David Ricardo, 1817

Princípio dual de trabalho de David Ricardo, publicado no Principle of Political Economy and Taxation, em 1817

Comparações entre os dois princípios de trabalho,
e a importância do princípio de trabalho de David Ricardo segundo Michel Foucault

Comparação, feita por Michel Foucault,
entre os princípios de trabalho
o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, 1817

comparações entre Adam Smith
e David Ricardo,
por Michel Foucault
A importância de David Ricardo,
segundo Michel Foucault

As duas diferentes origens de valor para a proposição, em função da configuração de pensamento adotada

Os elementos de imagem, as ideias, que permitem formular o modelo de operações baseado diretamente na linguagem e na representação
Os elementos de imagem, as ideias,
que permitem formular o modelo de operações
desde fora da linguagem
a partir das designações primitivas
– e da linguagem de ação ou de raiz(*)

Conceito de Verbo ‘Processo’ na configuração de pensamento
do período clássico, antes de 1775
Conceito de Verbo ‘Forma de produção’ na configuração
de pensamento do período moderno, depois de 1825

Processo
como verbo

 

“A única coisa que o verbo afirma
é a coexistência de duas representações:
por exemplo, 

          • a do verde
            e da árvore,

          • a do homem
            e da existência

            ou da morte; 

é por isso que o tempo dos verbos
não indica aquele [tempo]
em que as coisas existiram no absoluto,
mas um sistema relativo
de anterioridade ou de simultaneidade
das coisas entre si.”

‘Forma de produção’
como verbo

“É preciso, portanto,
tratar esse verbo como um ser misto,
ao mesmo tempo palavra entre as palavras,
preso às mesmas regras,
obedecendo como elas
às leis de regência e de concordância;

e depois,


em recuo em relação a elas todas,

numa região que

          • não é aquela do falado

          • mas aquela donde se fala.

Ele está na orla do discurso,
na juntura entre

          • aquilo que é dito

          • e aquilo que se diz,

exatamente lá onde os signos
estão em via de se tornar linguagem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo IV – Falar;
tópico III. A teoria do verbo
por Michel Foucault

Os dois conceitos para o que seja ‘Classificar

Classificar, portanto,
não será mais
referir o visível
a si mesmo,
encarregando um de seus elementos
de representar todos os outros;

Será
num movimento que faz revolver a análise,
reportar o visível,
ao invisível,
como a sua razão profunda;
depois,
alçar de novo dessa secreta arquitetura,
em direção aos seus sinais manifestos
[as “aparências”]que são dados à superfície dos corpos.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas’;
Capítulo VII – Os limites da representação;
tópico III. A organização dos seres
por Michel Foucault

o homem está fora da paleta de ideias no pensamento clássico
era tratado como um gênero, ou uma espécie
do Sistema de Categorias
os dois papéis do homem no pensamento moderno,
o de depois de 1825: a) raiz e fundamento de toda positividade;
b) elemento do que é empírico

O modo de ser do homem,
tal como se constituiu no pensamento moderno,
permite-lhe desempenhar dois papéis:
está, ao mesmo tempo,

  • no fundamento de todas as positividades,

  • presente, de uma forma que não se pode sequer dizer privilegiada, no elemento das coisas empíricas.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cao. 10. As ciências humanas;
tópico I. O triedro dos saberes

“Assim o círculo se fecha.

Vê-se, porém, através de qual sistema de desdobramentos. 

As semelhanças exigem uma assinalação, pois nenhuma dentre elas poderia ser notada se não fosse legivelmente marcada. 

Mas que são esses sinais? 

Como reconhecer, entre todos os aspectos do mundo e tantas figuras que se entrecruzam,

que há aqui um
caráter

no qual convém se deter,
porque ele indica uma secreta
e essencial semelhança? 

Que forma constitui o signo
no seu singular valor de signo? 

– É a semelhança.
Ele significa na medida
em que tem semelhança com o que indica (isto é, com uma similitude). 

Contudo, 

  • não é a homologia que ele assinala, 

pois seu ser distinto de assinalação se desvaneceria no semelhante de que é signo; 

  • trata-se de outra semelhança, 

uma similitude vizinha e de outro tipo que serve para reconhecer a primeira, mas que, por sua vez, é patenteada por uma terceira. 

Toda semelhança recebe uma assinalação; essa assinalação, porém, é apenas uma forma intermediária da mesma semelhança. 

De tal sorte que o conjunto das marcas faz deslizar, sobre o círculo das similitudes, um segundo círculo que duplicaria exatamente e, ponto por ponto, o primeiro, se não fosse esse pequeno desnível que faz com que 

  • o signo da simpatia resida na analogia, 
  • o da analogia na emulação, 
  • o da emulação na conveniência, 

que, por sua vez, para ser reconhecida, requer 

  • a marca da simpatia… 

A assinalação e o que ela designa são exatamente da mesma natureza; apenas a lei da distribuição a que obedecem é diferente; a repartição é a mesma.”

“A arqueologia, essa, deve percorrer o acontecimento segundo sua disposição manifesta; ela dirá como as configurações próprias a cada positividade se modificaram 

  • (ela analisa por exemplo, para a gramática, o desaparecimento do papel maior atribuído ao nome e a importância nova dos sistemas de flexão; ou ainda, a subordinação, no ser vivo, do caráter à função); 

ela analisará a alteração dos seres empíricos que povoam as positividades 

  • (a substituição do discurso pelas línguas, das riquezas pela produção); 

estudará o deslocamento das positividades umas em relação às outras 

  • (por exemplo, a relação nova entre a biologia, as ciências da linguagem e a economia); 

enfim e sobretudo, mostrará que o espaço geral do saber não é mais o das identidades e das diferenças, o das ordens não-quantitativas, o de uma caracterização universal, de uma taxinomia geral, de uma máthêsis do não-mensurável, 

  • mas um espaço feito de organizações, isto é, de relações internas entre elementos, cujo conjunto assegura uma função; 
  • mostrará que essas organizações são descontínuas, que não formam, pois, um quadro de simultaneidades sem rupturas, mas que algumas são do mesmo nível enquanto outras traçam séries ou sequências lineares. 

 De sorte que se vêem surgir, 

como princípios organizadores
desse espaço de empiricidades, 

a Analogia
e a Sucessão:

de uma organização a outra, o liame, com efeito, 

  • não pode mais ser a identidade de um ou vários elementos,
  • mas a identidade da relação entre os elementos (onde a visibilidade não tem mais papel) 
  • e da função que asseguram; 

ademais, se porventura essas organizações se avizinham por efeito de uma densidade singularmente grande de analogias,

  • não é porque ocupem localizações próximas num espaço de classificação,
  • mas sim porque foram formadas uma ao mesmo tempo que a outra e uma logo após a outra no devir das sucessões. 

Enquanto, no pensamento clássico,

a seqüência das cronologias não fazia mais que percorrer o espaço prévio e mais fundamental de um quadro que de antemão apresentava todas as suas possibilidades,

doravante

as semelhanças contemporâneas e observáveis simultaneamente no espaço não serão mais que as formas depositadas e fixadas de uma sucessão que procede de analogia em analogia.  (*)

 

 

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Cap. – II. A prosa do mundo;
tópico II. As assinalações
de Michel Foucault

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas
Cap. – VII. Os limites da representação;
tópico I. A idade da história
de Michel Foucault

A sintaxe que autoriza
a construção das frases
A sintaxe que autoriza a manter juntas,
ao lado ou em frente umas das outras,
as palavras e as coisas

pensamento clássico,
de antes de 1775

pensamento moderno,
de depois de 1825

História entendida como

  • a coleta das sucessões de fatos
    tais como se constituíram.

História entendida como 

  • o modo de ser fundamental das empiricidades,

     

    aquilo a partir de que elas são

    • afirmadas, 

    • postas, 

    • dispostas 

    • e repartidas no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis

Mas vê-se bem que a História
não deve ser aqui entendida
como a coleta das sucessões de fatos, tais como se constituíram;
ela é o modo de ser fundamental das empiricidades,
aquilo a partir de que elas são
afirmadas, postas, dispostas e repartidas no espaço do saber
para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.

Assim como a Ordem no pensamento clássico
não era a harmonia visível das coisas,
seu ajustamento, sua regularidade ou sua simetria constatados,
mas o espaço próprio de seu ser
e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo,
as estabelecia no saber,
assim também a História, a partir do século XIX,
define o lugar de nascimento do que é empírico,
lugar onde,
aquém de toda cronologia estabelecida,
ele assume o ser que lhe é próprio. 

As palavras as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7. Os limites da representação;
tópico I. A idade da história

Aquém do objeto

espaço geral do saber sob o pensamento filosófico clássico

Diante do objeto

o Triedro dos saberes
exceto as ciências humanas

 Além do objeto

o espaço interno do Triedro dos saberes
– o habitat das ciências humanas –
mostrando o modelo constituinte composto e comum a todas as Ciências Humanas

Os dois conceitos para o tempo, em função do segmento do espectro de modelos e do tipo de operação em curso

Aquém do objeto

formulação sim reversível
e
instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento clássico, o de antes de 1775
tempo calendário no sistema Input-Output
operação de instanciamento de representação anteriormente formulada

Diante do objeto

formulação não reversível
e construção da representação nova
deus Kairós 

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo absoluto sistema absoluto
no caminho da Construção da representação

também Diante do objeto

formulação sim reversível
 e instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo relativo, sistema relativo ou absoluto,
no caminho do Instanciamento da representação

A análise das riquezas, junto com a gramática geral e a história natural, no pensamento clássico- o de antes de 1775, são contrapostas à análise da produção, filologia e biologia no pensamento de depois de 1825.

“Nem vida,
nem ciência da vida
na época clássica;
tampouco filologia.

Mas sim
uma história natural,
uma gramática geral.

Do mesmo modo,
não há economia política

porque, na ordem do saber,
a produção não existe.


Em contrapartida,
existe, nos séculos XVII e XVIII,

uma noção que nos permaneceu familiar,
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial.
Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito,
pois não tem lugar no interior
de um jogo de conceitos econômicos

que ela deslocaria levemente,
confiscando um pouco de seu sentido
ou corroendo sua extensão.

Trata-se antes de um domínio geral:
de uma camada bastante coerente
e muito bem estratificada,

que compreende e aloja, como tantos objetos parciais,
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação,
de renda, de interesse.


Esse domínio,

solo e objeto da “economia” na idade clássica,
é o da riqueza.

 Inútil colocar-lhe questões
vindas de uma economia de tipo diferente,

organizada, por exemplo,
em torno da produção ou do trabalho;

 inútil igualmente analisar seus diversos conceitos
(mesmo e sobretudo se seus nomes
em seguida se perpetuaram,

com alguma analogia de sentido),
sem levar em conta
o sistema em que assumem sua positividade.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

Sem fazer um alinhamento filosófico das ideias, das noções, para respectivamente cada período histórico em nossa cultura, o padrão é ficar com a análise de riquezas do pensamento filosófico clássico. (o que nem é difícil de perceber que é feito, em nosso meio)

O mínimo que somos chamados a fazer é esclarecer as razões pelas quais o conceito ‘riquezas’ é tão largamente utilizado; e as razões pelas quais Michel Foucault escreve “economia” assim, entre aspas, quando se refere ao período clássico.

As diferenças nas visões de ‘operações’ decorrentes do posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno, podem ser vistas em
E essas mudanças estão refletidas no tópico 
‘Uma anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento’
 
Para entender melhor os elementos de imagem 
  • ‘designações primitivas’
  • ‘linguagem de ação ou raiz’
que representam as origens de valor atribuído à proposição, veja nas palavras de Michel Foucault
Resumidamente, podemos ler operações posicionando o início da leitura desse fenômeno de duas maneiras diferentes:
  1. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ colocado no  cruzamento da disponibilidade entre dois objetos intervenientes na operação de troca: o que é dado e o que é recebido, testando as condições de troca;
  2. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade de um dos objetos, testando desta vez a permutabilidade futura desse objeto e não imediatamente as condições de troca.

O carregamento de valor na proposição em cada caso:

  1. valor é carregado diretamente na proposição desde dentro do espaço da representação;
  2. valor é carregado na proposição desde fora do espaço da representação, com origens de valor externas ao espaço da representação, provenientes de:
    1. designações primitivas;
    2. linguagem de ação ou raiz.

Operações calcadas no Princípio Dual de trabalho de David Ricardo têm valor carregado na proposição e por elas para as representações como no segundo caso acima.

Veja a seguir os pontos:

  • As operações – do pensamento, as de produção, as de troca, antes e depois desse evento fundamental em nossa cultura, antes e depois dele;
  • O tempo nas operações em função da configuração do pensamento e da etapa da operação;
  • Uma Anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento;
  • Metáforas adequadas para modelos de operações respectivamente para cada configuração do pensamento;
  • Propriedades emergentes dos modelos de operações e organizações em função da configuração do pensamento utilizada.

Veja isso na página: 

Funcionamento das operações para as configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

veja também o tempo respectivamente para cada operação levando em conta, no pensamento moderno, as operações de Construção de representação nova, e as de Instanciamento de representação previamente existente.

Note que a amplitude da visão do fenômeno ‘operações’ é muito maior no pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825. Neste caso a visão do fenômeno abrange a construção da representação para a empiricidade objeto, e também o instanciamento de representação previamente existente em um repositório de proposições explicativas da experiência formuladas de acordo com as regras da língua; enquanto que sob o pensamento clássico o fenômeno é visto apenas a partir da fase de instanciamento.

Veja que há uma correspondência entre as visões de operações no pensamento clássico e no princípio monolítico de trabalho de Adam Smith, de 1776, e pensamento moderno e o princípio dual de trabalho de David Ricardo, de 1817.

Certifique-se dessa correspondência visualizando as figuras feitas para os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo.

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho: o de Adam Smith, de 1776, e o de David Ricardo, de 1817

a página que o link acima dá acesso mostra também as diferenças entre esses dois princípios de trabalho nas palavras de Michel Foucault. Mas por favor certifique-se de que essas diferenças apontadas por Foucault entre os dois princípios de trabalho correspondem também, e são consistentes, com

as duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operações’ com as duas origens da essência da linguagem (interna e externa), e correspondentes duas possibilidades de análise de valor;

Os dois conceitos para o tempo, em função do segmento do espectro de modelos e do tipo de operação em curso

Aquém do objeto

formulação sim reversível
e
instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento clássico, o de antes de 1775
tempo calendário no sistema Input-Output
operação de instanciamento de representação anteriormente formulada

Diante do objeto

formulação não reversível
e construção da representação nova
deus Kairós 

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo absoluto sistema absoluto
no caminho da Construção da representação

também Diante do objeto

formulação sim reversível
 e instanciamento da representação
deus Chronos

pensamento moderno, o de depois de 1825
tempo relativo, sistema relativo ou absoluto,
no caminho do Instanciamento da representação

 

o homem está fora da paleta de ideias no pensamento clássico
era tratado como um gênero, ou uma espécie
do Sistema de Categorias
os dois papéis do homem no pensamento moderno,
o de depois de 1825: a) raiz e fundamento de toda positividade;
b) elemento do que é empírico

1
“Em tantas ignorâncias, 
em tantas interrogações  permanecidas em suspenso, seria preciso, sem dúvida, deter-se:  aí está fixado
o fim do discurso,  e o recomeço talvez do trabalho. 
Há ainda, no entanto, algumas palavras a dizer.
Palavras cujo estatuto é, sem dúvida,  difícil de justificar, pois se trata de introduzir no último instante 
e como que por um lance de teatro artificial, 
uma personagem  que não figurara ainda  no grande jogo clássico das representações.” (…)

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
2
“No pensamento clássico, 
aquele para quem a representação existe,   
e que nela se representa a si mesmo,   
aí se reconhecendo por imagem ou reflexo,   
aquele que trama todos os fios entrecruzados   
da “representação em quadro” -,   
esse [o homem] jamais se encontra lá presente.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
3
“Antes do fim do século XVIII,  
o homem não existia.  
Sem dúvida,  as ciências naturais  trataram do homem como de uma espécie 
ou de um gênero:   
a discussão sobre  o problema das raças,   
no século XVIII,  o testemunha.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
4
“Mas não havia 
consciência epistemológica  do homem como tal.
A epistémê clássica 
se articula segundo linhas 
que de modo algum
isolam o domínio próprio e específico  do homem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
5
“Na medida, porém,  em que
as coisas  giram sobre si mesmas, 
reclamando para seu devir 
não mais que  o princípio de sua inteligibilidade 
e abandonando o espaço da representação, 
o homem, por seu turno, entra, 
e pela primeira vez, 
no campo do saber ocidental.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Prefácio
de Michel Foucault
6
“O modo de ser do homem, 
tal como se constituiu  no pensamento moderno,  permite-lhe desempenhar dois papéis: 
está ao mesmo tempo,
no fundamento de todas as positividades,
presente, de uma forma
que não se pode sequer dizer privilegiada,
  no elemento das coisas empíricas.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 10 – As ciências humanas;
tópico I – O triedro dos saberes
de Michel Foucault
Anterior
Próximo

Uma Anatomia ou uma Cartografia para modelos de operações segundo a configuração do pensamento:

  • pensamento clássico, o de antes de 1775;
    • não há construção de representações; 
    • domínio: do Discurso e da Representação;
    • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (estrutura Input-Output)
    • elemento central: Processo
    • tempo: relativo ou tempo calendário sob o deus Cronos
    • ordem: Quadro de simultaneidades com um Sistema de categorias. (pode ser múltipla, e de uso simultâneo).
  • pensamento moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • Lugar do nascimento do que é empírico; com os sub-espaços:
        • Lugar desde onde se fala: domínio do Pensamento e da Língua;
        • Lugar do falado: domínio do Discurso e da Representação.
      • elemento central: Forma de produção;
      • tempo: absoluto (não relativo e não calendário) sob o deus Kairós;
      • ordem: única, dada pelas regras da gramática da língua utilizada.
      • origens de valor
        • designações primitivas;
        • linguagem de ação ou de uso: Repositório
    • caminho do Instanciamento da representação;
      • domínio do Discurso e da Representação;
        • Mercado, ou Circuito onde ocorrem as trocas;
      • linguagem de ação ou de uso: Repositório.

Anatomia ou cartografia dos modelos: os diferentes lugares onde o pensamento acontece, em função do perfil de pensamento e do caminho no qual seguem as operações.

  • operação sob o pensamento clássico, antes de 1775
    • O circuito das trocas (Mercado),
      • no interior do domínio do Discurso e da representação.
  • operação sob o pensamento moderno, depois de 1825
    • operação de Construção da representação: o Lugar de nascimento do que é empírico;

no interior de dois domínios

      • o domínio do Pensamento e da língua;
        • o Lugar desde onde se fala;
      • o domínio do Discurso e da representação.
        • o Lugar do falado.
  • operação de Instanciamento de representação anteriormente construída
    • a operação de troca ocorre no Circuito das trocas (Mercado).
      • no interior do domínio do Discurso e da Representação

Visão da operação clássica
Transformação única de Entradas em Saídas,
ou Processamento de informações

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho da Construção da representação
A metáfora adequada às operações no caminho
da Construção de representação
para a empiricidade objeto

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação
Metáfora adequada para operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação:
uma Conversão ou um par de transformações com sinais trocados

Resumo Metáfora adequada para operações e Propriedades emergentes

  • pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775
    • propriedade emergente: Fluxo
    • metáfora adequada: transformação única Entradas ⇒ Saídas
    • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (Input-Output)
  • pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • propriedade emergente: Permanência
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de mesmo sinal;
      • sistema: absoluto no interior do Lugar de nascimento do que é empírico
    • caminho do Instanciamento da representação
      • propriedade emergente: Fluxo
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de sinais trocados;
      • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si ou absoluto, dependendo do projeto da operação.

A. Pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775

1.   Transformação única, de Entradas Saídas, sobre a estrutura Input-Output, ou um processamento de informações

A metáfora da transformação de Entradas  ⇒ Saídas, sobre a estrutura Input-Output, que dá lugar a um sistema relativo de anterioridade ou de simultaneidade das coisas entre si é válida aqui, e é a famosa caixa preta. 

Seu elemento central é Processo, um verbo, que a única coisa que afirma é a coexistência de duas representações indicando a coexistência

Com a opção pela leitura do fenômeno ‘operações’ desde um ponto de vista posicionado no cruzamento do que é dado com o que é recebido na troca, essa metáfora representa apelas a operação de instanciamento de representação anteriormente feita e já carregada de valor diretamente atribuído à proposição.

Toda a etapa da construção de representação nova está fora desse escopo e por isso, a transformação pode ser única.

Veja aqui em Conceitos homônimos mas com significados diferentes, os conceitos para o que seja um verbo.

B. Pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825

1.  Metáforas no caminho da Construção da representação:
uma Conversão, ou um par de transformações de mesmos sinais

Veja novamente página Metáforas adequadas e propriedades emergentes dos modelos de operações em cada segmento do espectro de modelos sob o título Conversão ou um par de transformações de mesmos sinais no caminho da Construção da representação.

Toda a operação pode ser reduzida a uma

  • Conversão, de pensamento não articulado em representação.

Essa conversão pode ser desdobrada em um par de transformações de mesmos sinais:

  • Primeira transformação:
    • [não – sim] pensamento não-articulado em pensamento sim-articulado;
  • Segunda transformação:
    • [sim – não] representação não-existente para representação sim-existente.

2.  Metáforas no caminho do Instanciamento da representação: outra Conversão, ou um par de transformações mas agora de sinais opostos

Veja novamente página Metáforas adequadas e propriedades emergentes dos modelos de operações em cada segmento do espectro de modelos agora sob o título Conversão ou um par de transformações de sinais trocados no caminho do Instanciamento da representação.

Toda a operação pode ser reduzida a uma

  • Conversão,
    • de uma disponibilidade de recursos 
    • para disponibilidade de objeto da produção.

Essa conversão pode ser desdobrada em um par de transformações de mesmos sinais:

    • Primeira transformação: [não – sim] Consumo, ou disponibilidade de recursos para indisponibilidade de recursos;
    • Segunda transformação: [não – sim] Produção: indisponibilidade de objeto para disponibilidade de objeto.

Visão da operação clássica
Transformação única de Entradas em Saídas,
ou Processamento de informações

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho da Construção da representação
A metáfora adequada às operações no caminho
da Construção de representação
para a empiricidade objeto

Visão da operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação
Metáfora adequada para operação do pensamento moderno
no caminho do Instanciamento da representação:
uma Conversão ou um par de transformações com sinais trocados

Resumo Metáfora adequada para operações e Propriedades emergentes

  • pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775
    • propriedade emergente: Fluxo
    • metáfora adequada: transformação única Entradas ⇒ Saídas
    • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si (Input-Output)
  • pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • propriedade emergente: Permanência
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de mesmo sinal;
      • sistema: absoluto no interior do Lugar de nascimento do que é empírico
    • caminho do Instanciamento da representação
      • propriedade emergente: Fluxo
      • metáfora adequada: Conversão, ou um par de transformações de sinais trocados;
      • sistema: relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si ou absoluto, dependendo do projeto da operação.

Veja Metáforas adequadas e propriedades emergentes dos modelos de operações em cada segmento do espectro de modelos

A.  Modelos de operações sob o pensamento clássico, o de antes de 1775

1.  Fluxo

Veja em Funcionamento das operações… a animação sob o título Aquém do objeto. Essa é uma operação de instanciamento de representação formulada anteriormente como uma composição de representações existentes. O apontador de início da operação está no cruzamento entre o dado e o recebido, ou na disponibilidade dos dois objetos envolvidos em uma eventual operação de troca.

Sob o pensamento clássico, o de antes de 1725 e anterior à descontinuidade epistemológica temos:

  • O tipo de pensamento usado tem a impossibilidade de fundar as sínteses [do objeto das operações] no espaço da representação – o primeiro obstáculo vislumbrado por Foucault em seu trabalho;
  • Essa impossibilidade arrasta o ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ para o cruzamento entre o que é dado e o que é recebido na operação de troca, ou o ponto em que os dois objetos envolvidos na operação de troca estão disponíveis;
  • A operação pode acontecer no Circuito das trocas já que os objetos envolvidos nesse tipo de operação estão disponíveis; essa operação transcorre inteiramente em um domínio único, o domínio do Discurso e da representação.
  • História, nesse tipo de operações, é entendida como a coleta das sucessões de fatos, tais como se constituíram.
  • O tipo de propriedades possíveis de serem consideradas na modelagem das operações é propriedades não-originais e não-constitutivas das coisas, que são selecionadas para participar das operações por suas propriedades consistentes com esse tipo, ou por “aparências”.
  • O elemento central desse modelo de operações é ‘Processo’, sobre um sistema relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si;
  • Resta nesse modelo de operações a contabilidade do que se aproxima de uma região do espaço em que ocorrem operações, do que entra nessa região, do que fica nessa região ou que Sai dela. A análise se restringe a esse Fluxo, pela total ausência da noção de objeto definido pelas suas propriedades originais e constitutivas, e pela pressuposição de que tudo existe, desde sempre e para sempre prescindindo assim da noção de sujeito.

B.    Modelos de operações sob o pensamento moderno, depois de 1825

1.  Permanência: no caminho da Construção da representação:

Veja agora em Funcionamento das operações… a animação sob o título Diante do objeto. A operação modelada é de formulação da representação para empiricidade objeto ainda não representada. Ao final dessa operação passa a existir a representação, ou o projeto, do objeto antes indisponível para eventual operação de troca. E esse objeto, com o fim dessa operação com sucesso, está resolvido (seu projeto foi executado) mas ainda está indisponível. Para que ele esteja disponível será necessário o desencadeamento da etapa de instanciamento dessa representação recém criada. Então, a aposta é que essa representação permaneça em um repositório de proposições explicativas formuladas de acordo com as regras da língua, de onde será selecionado para essa ulterior operação de instanciamento.

  • O tipo de pensamento utilizado tem desta vez a possibilidade de fundar as sínteses [do objeto das operações] no espaço da representação.
  • Essa possibilidade arrasta o ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ para antes do ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido em uma operação de troca, ou para o ponto em que pelo menos um dos objetos envolvidos na operação de troca não está disponível;
  • A operação transcorre no, ‘ interior do ‘Lugar de nascimento do que é empírico: “Assim como a Ordem no pensamento clássico não era a harmonia visível das coisas, seu ajustamento, sua regularidade ou sua simetria constatados, mas o espaço próprio de seu ser e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo, as estabelecia no saber, assim também a História, a partir do século XIX, define o lugar de nascimento do que é empírico, lugar onde, aquém de toda cronologia estabelecida, ele assume o ser que lhe é próprio.”
  • História, nesse tipo de operação é o “modo de ser fundamental das empiricidades, aquilo a partir de que elas são afirmadas, postas, dispostas e repartidas no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.”
  • O tipo de propriedades consideradas na modelagem de operações é propriedades sim-originais e sim-constitutivas do objeto da operação, exatamente aquele objeto que falta para compor uma operação de troca.
  • O elemento central deste modelo de operações agora é a Forma de produção, em um sistema absoluto no qual “aquém de toda cronologia estabelecida, ele [o objeto da operação, aquele que falta para compor a operação de troca] assume o ser que lhe é próprio.
  • Nesse modelo de operações a representação (projeto) daquele objeto que faltava para eventual operação de troca é construída e dessa construção de nova representação surgem as propriedades sim-originais e sim-constitutivas que descrevem essa representação construída.

2.  Fluxo: no caminho do Instanciamento da representação:

A propriedade emergente volta a ser Fluxo, no caminho do Instanciamento da representação.

A representação objeto da operação de instanciamento é recuperada do Repositório no estado em que ela se encontrava quando foi adicionada a ele.

A empiricidade objeto será instanciada nesse estado em que foi recuperada; assim, o ‘modo de ser fundamental’ dessa empiricidade objeto da operação de instanciamento não muda.

Processos, atividades, etc. que compõem os elementos de suporte na experiência da Forma de produção são desencadeados, e há fluxos vários, que são mostrados na página indicada.

Veja a seguir os pontos:

  • Temos um samba de uma nota só (com três ritmos):
    • unanimidades pelo uso dos conceitos:

Mercado‘, ‘Processo‘, ‘Riquezas;

  • quando poderíamos ter uma sinfonia
    • eliminando a unanimidade pelo não uso dos conceitos:

Lugar de nascimento do que é empírico‘, ‘Forma de produção‘ e ‘Análise da produção‘;

  • Alguns (7) exemplos de modelos descritivos de operações de produção e de organizações empresariais existentes, e usados em nosso ambiente, alguns deles muito utilizados, e baseados tanto na representação como fora dela, sem que ninguém reclame dessa confusão epistemológica;
  • A Visão SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica: o exercício de um pensamento organizado pelo par sujeito-objeto.

Os detalhes estão a seguir:

As páginas antecedentes apresentaram muitas e profundas diferenças nas condições de possibilidade do pensamento ao longo do tempo. Mesmo assim, permanecem inexplicavelmente, ou somente explicáveis pela falta de um alinhamento filosófico das bases de teorias, modelos e sistemas que utilizamos, unanimidades pelo uso , e pelo não uso, frequentes, de conceitos:

  • Unanimidades de conceitos pelo uso:
    • Mercado’,
    • Processo’,
    • Riquezas’;
  • Unanimidades de conceitos pelo não uso:
    • Lugar de nascimento do que é empírico’
    • Forma de produção’, 
    • Análise da produção’

As unanimidades nos conceitos, pelo seu uso, e pelo não uso: ‘Mercado’, ‘Processo’, ‘Riquezas’ conceitos de antes da descontinuidade epistemológica e portanto na idade clássica, são campeões de unanimidade pelo uso; e os correspondentes conceitos do após a descontinuidade epistemológica e portanto da nossa modernidade no pensamento, campeões absolutos pelo não-uso: ‘Lugar de nascimento do que é empírico’, ‘Forma de produção’, ‘Análise da produção unânimes pelo não uso.

“Assim como a Ordem no pensamento clássico
não era a harmonia visível das coisas, seu ajustamento,
sua regularidade ou sua simetria constatados,
mas o espaço próprio de seu ser
e aquilo que, antes de todo conhecimento efetivo,
as estabelecia no saber,
assim também a História, a partir do século XIX,
define o lugar de nascimento do que é empírico,
lugar onde, aquém de toda cronologia estabelecida,
ele assume o ser que lhe é próprio.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 7 – Os limites da representação;
tópico I. A idade da história

Mercado é o lugar onde ocorrem as trocas; Foucault chama isso de Circuito das trocas, e nós chamamos de Mercado.

Lugar do nascimento do que é empírico é o lugar onde, “aquém de toda cronologia estabelecida, ele [as coisas empíricas] assume o ser que lhe é próprio”.

Veja o modelo de operações – de produção e outras – sob o pensamento moderno, e note que ‘Lugar do nascimento do que é empírico‘ é um lugar, mesmo, e não o uso de ‘lugar’ como um cacoete retórico.

É um lugar onde as empiricidades objeto de operações têm alterado o seu ‘modo de ser fundamental‘, definido por Michel Foucault como o elemento ordenador da história sob o pensamento filosófico moderno.

modo de ser fundamental de uma empiricidade é aquilo a partir do que ela pode ser “afirmada, posta, disposta e repartida no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis.” Cartilha; Cap. 7 – Os limites da representação; tópico I. A idade da história.

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775 e 1825

“Certamente, para Ricardo como para Smith, 
o trabalho pode realmente 
medir a equivalência das mercadorias que passam pelo circuito das trocas:”

“Na infância das sociedades, 
o valor permutável das coisas 
ou a regra que fixa a quantidade que se deve dar 
de um objeto por outro 
só depende da quantidade comparativa de trabalho 
que foi empregada na produção de cada um deles.” 

A diferença, porém, entre Smith e Ricardo está no seguinte:

  • para o primeiro, o trabalho, porque analisável em jornadas de subsistência, pode servir de unidade comum a todas as outras mercadorias (de que fazem parte os próprios bens necessários à subsistência);
  • para o segundo, a quantidade de trabalho permite fixar o valor de uma coisa,
    •  não apenas porque este seja representável  em unidades de trabalho,
    • mas primeiro e fundamentalmente porque
      o trabalho como atividade de produção
      é a fonte de todo valor”.

Já não pode este ser definido, como na idade clássica, partir do sistema total de equivalências e da capacidade que podem ter as mercadorias de se representarem umas às outras. 

O valor deixou de ser signo, tomou-se um produto. 
Se as coisas valem tanto quanto o trabalho que a elas se consagrou, 
ou se, pelo menos, seu valor está em proporção a esse trabalho, 
não é porque o trabalho seja um valor fixo, constante 
e permutável sob todos os céus e em todos os tempos, 
mas sim porque todo valor, qualquer que seja, extrai sua origem do trabalho. 
E a melhor prova disso está em que o valor das coisas 
aumenta com a quantidade de trabalho que lhes temos de consagrar se as quisermos produzir; porém não muda com o aumento ou baixa dos salários 
pelos quais o trabalho se troca como qualquer outra mercadoria.”

Circulando nos mercados, trocando-se uns por outros, 
os valores realmente têm ainda um poder de representação. 
Extraem esse poder, porém, de outra parte – 
desse trabalho mais primitivo e radical do que toda representação 
e que, portanto, não pode definir-se pela troca.

Enquanto no pensamento clássico 
o comércio e a troca 
servem de base insuperável para a análise das riquezas 
(e isso mesmo ainda em Adam Smith, 
para quem a divisão do trabalho é comandada pelos critérios da permuta),

desde Ricardo, 
a possibilidade da troca está assentada no trabalho; 
e a teoria da produção, doravante, 
deverá sempre preceder a da circulação.
As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; 
Cap. 8 Trabalho, vida e linguagem; tópico II – Ricardo

Processo é o elemento central daquele tipo de operações que o mais que fazem é assinalar a coexistência de duas representações aceitando sua existência prévia, e tomando como bons os valores a elas carregados pelas proposições em uma linguagem que lê operações como fenômeno, a partir da disponibilidade dos dois objetos envolvidos na troca.

Para modelar esse tipo de operação a estrutura Input-Output é mais do que suficiente; e a natureza das operações é uma contabilidade focalizada na região do espaço onde a operação transcorre, tomando conta do que entra, do que sai, do que permanece dentro ou nem entra nem sai. Nada a ver com o homem, ou com qualquer objeto definido por suas propriedades sim-originais e sim-constitutivas.

Qualquer coisa para a qual for possível estabelecer uma relação de anterioridade ou simultaneidade com relação à região onde ocorre a operação serve como Entrada, ou como Saída. E essa relação pode ser estabelecida por meio de uma propriedade não-original e não-constitutiva, ou uma “aparência”. Propriedades sim-originais e sim-constitutivas não são utilizadas.

Veja aqui duas coisas:

“A única coisa que o verbo afirma 
é a coexistência de duas representações: 
por exemplo, a do verde e da árvore, 
a do homem e da existência ou da morte; 
é por isso que o tempo dos verbos 
não indica aquele em que as coisas existiram no absoluto, 
mas um sistema relativo de anterioridade ou de simultaneidade das coisas entre si.” As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. IV – Falar; tópico III.  A teoria do verbo

para certificar-se de que esse conceito acima corresponde realmente ao pensamento na idade clássica, veja na página sobre o funcionamento das operações, as animações sobre o tempo nos dois períodos, e associe o tempo ‘calendário’ à parte do excerto acima sobre o tempo dos verbos. 

“Nem vida, nem ciência da vida na época clássica; 
tampouco filologia. 
Mas sim uma história natural, uma gramática geral. 
Do mesmo modo, não há economia política 
porque, na ordem do saber, 
a produção não existe. 
Em contrapartida, existe, nos séculos XVII e XVIII, 
uma noção que nos permaneceu familiar, 
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial. 
Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito, 
pois não tem lugar no interior de um jogo de conceitos econômicos 
que ela deslocaria levemente, confiscando um pouco de seu sentido ou corroendo sua extensão. Trata-se antes de um domínio geral: 
de uma camada bastante coerente e muito bem estratificada, 
que compreende e aloja, como tantos objetos parciais, 
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação, de renda, de interesse.

Esse domínio, 
solo e objeto da “economia” na idade clássica, 
é o da riqueza.

Inútil colocar-lhe questões vindas de uma economia de tipo diferente, 
organizada, por exemplo, em torno da produção ou do trabalho;
inútil igualmente analisar seus diversos conceitos 
(mesmo e sobretudo se seus nomes em seguida se perpetuaram, 
com alguma analogia de sentido), 
sem levar em conta o sistema em que assumem sua positividade.” 

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; 
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

Sem fazer um alinhamento filosófico das ideias, das noções, para respectivamente cada período histórico em nossa cultura, o padrão é ficar com a análise de valor do pensamento filosófico anterior, o clássico, de antes de 1775.

 

Veja novamente a animação central sob o título ‘Diante do objeto’ na página

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Toda essa operação acontece no Lugar do nascimento do que é empírico, no caminho da Construção de representação nova. A operação vê o fenômeno a partir de um ponto de inserção do início de leitura da operação antes da disponibilidade do objeto cuja representação está em desenvolvimento e que, futuramente, poderá ser levada ao circuito das trocas.

O Lugar de nascimento do que é empírico compreende dois sub-espaços:

  • o Lugar desde onde se fala, no interior do domínio do Pensamento e da Língua;
  • e o Lugar do falado, no interior do domínio do Discurso e da Representação.

É parte da preparação para receber os resultados da articulação do pensamento com o impensado, encaminhando o resultado para o espaço das representações, no interior do domínio do Discurso e da Representação.

É assim que funciona o Princípio Dual de trabalho de David Ricardo.

A Forma de produção é o elemento central das operações sob o pensamento moderno. Nessa posição, a forma de produção tem também a natureza de um verbo, mas em um conceito totalmente diferente, que transcrevo abaixo:

“É preciso, portanto, 
tratar esse verbo como um ser misto, 
ao mesmo tempo 
palavra entre as palavras, 
preso às mesmas regras, 
obedecendo como elas às leis de regência e de concordância; 
e depois
em recuo em relação a elas todas, 
numa região que não é aquela do falado 
mas aquela donde se fala. 
Ele está na orla do discurso, 
na juntura entre aquilo que é dito 
e aquilo que se diz, 
exatamente lá onde os signos 
estão em via de se tomar linguagem.” 
As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
 Cap. IV – Falar; tópico III.  A teoria do verbo

Veja agora que esse verbo está postado na região ‘desde onde se fala’, um sub-espaço do ‘Lugar do nascimento do que é empírico’, e no interior do domínio do Pensamento e da Língua, onde a articulação com o impensado pode ter início para uma representação ainda não existente, – e não na região do falado, esta no interior do domínio do Discurso e da Representação. Foucault é preciso a esse respeito: ‘Ele está na orla do discurso, na juntura…’

Veja a página

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho: o de Adam Smith e o de David Ricardo, de 1817

Nessa mesma página, mais embaixo, veja Comparações entre os dois princípios de trabalho, e a importância do princípio de trabalho de David Ricardo, segundo Michel Foucault.

A animação central da página Funcionamento… com o título ‘Diante do objeto’ descreve a operação de construção de uma representação para empiricidade objeto ainda não representada. Trata-se daquele objeto ainda indisponível em uma operação de troca já descrito nas duas possibilidades de leitura… etc.

Veja logo acima o item II.8.a.i especialmente o trecho:

  • para o segundo, a quantidade de trabalho permite fixar o valor de uma coisa,
    não apenas porque este seja representável em unidades de trabalho,
    mas primeiro e fundamentalmente
    porque o trabalho como atividade de produção
    é “a fonte de todo valor”.

Tudo o que está representado na página Funcionamento… na animação central ‘Diante do objeto’ está completamente fora do pensamento que pensa operações no cruzamento do que é dado e o que é recebido.

Toda a operação que acontece no caminho da Construção da representação está fora do modo como operações são vistas como fenômeno.

Mesmo quando diante de um modelo descritivo da produção que considere a Construção de representação, o analista supõe que se trata de um modelo que reza pela cartilha anterior, e segue pensando do modo como sempre pensou.

O pensamento clássico, aquele que dispunha da História natural, da Análise das riquezas e da Gramática geral, fazia a Análise das riquezas.

O pensamento moderno efetua em seu lugar, a Análise da produção, o que implica na inclusão do que acontece no caminho da Construção da representação nova para a empiricidade objeto. Como esse pensamento não é considerado em suas diferenças com relação ao clássico, a Análise da produção acaba sendo feita meio que sem consistência no pensamento.

 

  • modelos com estrutura clássica
    • o modelo descritivo de operações de produção de Elwood S. Buffa;
    • o Diagrama FEPSC(SIPOC)/Six Sigma;
    • os modelos na visão contábil-financeira:
      • de operações (Débito/Crédito)
      • e de organização (Ativo – Passivo – Resultados) ;

  • modelos com estrutura moderna
    • o modelo descritivo de operações de produção do Kanban;
    • o modelo expresso na Figura 7.1 – mapa da atividade semicondutores da Texas Instruments, do livro Reengenharia, de Michael Hammer;

  • modelos com estrutura moderna
    • o triedro dos saberes;
    • o espaço interior do triedro;
    • o uso dos pares de modelos constituintes, inclusive fora do domínio próprio.

 

Mapa geral das operações na disposição SSS

Estrutura SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica para uma organização projetada usando o par sujeito-objeto como elemento organizador

Argumento: a modelagem de operações
organizada pelo par sujeito-objeto

Construção da estrutura de operações na disposição SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica

Os dois objetos diferentes, presentes no Mapa da Reengenharia de Michael Hammer

A simetrização do Mapa da Reengenharia, a Fig. 7.1 Mapa da atividade semicondutores da TI,
apenas detalhando elementos já existentes no mapa original de Michael Hammer

A figura da Visão SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica parte de duas ideias:

  • a ideia de que cada objeto demanda operação específica para ele;
  • a ideia de que não é possível a obtenção de um objeto (produto) sem dispor de um instrumento (laboratório, área de desenvolvimento, fábrica). Claramente não temos acesso à Varinha Mágica de condão de Merlin, o Mago, instrumento habil para instanciar qualquer objeto.
    • pensar na obtenção do objeto sem o respectivo instrumento é semelhante a pensar magicamente;
    • o pensamento conjunto dos dois objetos, o produto e a fábrica, reduz a qualidade dos modelos de operações;
    • a Visão SSS permite a modelagem do Nexo da produção.

Essa ideia está embutida na Figura 7.1 Mapa de processos da atividade semicondutores da Texas Instruments, basta analisar tendo em mente as condições de possibilidade no pensamento daquela figura.

Veja também



  • Sistema Formulador – uma alteração no modelo de dados clássico de um SDGP – Sistema Dedicado à Gestão de Projetos  – como o MS Project 4.0 por exemplo, fazendo com que ele passe a funcionar a partir de banco de dados 9com a linguagem de uso) e com um modelo sim-discriminativo com relação ao elemento componente do objeto que se pretende concretizar.

Partindo dos dois obstáculos, ou as duas pedras de tropeço que Foucault declara ter encontrado em seu trabalho, traçamos – usando apenas interpretação de texto – um espectro de produções do pensamento, teorias, modelos e sistemas, com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e para ALÉM do objeto.

Da forma de reflexão que se instaura no pensamento em nossa cultura no depois da descontinuidade epistemológica, vemos que o pensamento funciona organizado em torno do par sujeito-objeto. Mudando o objeto, muda a operação que pode ou não ser conduzida por um sujeito diferente, mas com um sujeito a conduzi-la.

Aplicando esse elemento organizador par sujeito-objeto às operações em organizações, vê-se que já existem operações e organizações organizadas com esse critério: o modelo descritivo da produção do Kanban, e a Fig. 7.1 Mapa de processos da atividade semicondutores da Texas Instruments, do livro Reengenharia, são exemplos.

Se examinamos mais de perto este último exemplo, veremos que há dois pares sujeito-objeto incluídos nesse mapa – segundo Hammer, de ‘processos’ (ele não conseguiu se livrar dessa unanimidade mesmo mapeando claramente Formas de produção e não processos.

A Visão SSS resume-se a respeitar a relação um objeto – um modelo de operações. E isso leva a uma organização SSS – Simétrica, Simbiótica e Sinérgica que torna evidente o nexo da produção.

  • a) Canal Inconsciente Coletivo, vídeo Jorge Forbes: estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos, de 28/07/2020;

  • b) Canal Falando Nisso, vídeo 150 – Signo, significação e significado de 08/10/2017;

  • c) Canal Falando, Nisso vídeo 254 – Neoliberalismo e sofrimento, de 31/08/2019;

  • d) Canal Quem Somos Nós? – vídeo Desigualdade: Concentração de renda com Eduardo Moreira;

  • e) Canal Monica de Bolle, vídeo 31 – Imaginando o “Novo Normal”;

  • f) Canal Monica de Bolle, vídeo 32 – O “Novo Normal”: Bens Públicos”;

  • g) Canal Inconsciente Coletivo – vídeo Ivaldo Bertazzo, que testou positivo para o Covid-19: “o grande problema do corpo é o medo”, de 12/08/2020.

Os pontos comentados são os seguintes:

  • Introdução do vídeo: ‘O mundo de hoje é parecido com o de ontem, apenas na fotografia!’
  • Direcionamento do pensamento: ao intangível, ou ao impensado? 
  • Jorge Forbes: Entrevista ao canal Inconsciente coletivo em 28/07/2020: “estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos”
  • O incômodo de Jorge Forbes com a noção de ‘norma’ e o modelo composto padrão e genérico, constituinte das ciências humanas em geral, todas elas, proposto por Michel Foucault. 
  • Sobre as qualidades que Jorge Forbes atribui à época anterior, que ele chama de terra1 (um rótulo dispensável se significar pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo Michel Foucault. 
  • Freud explica ⇒ Freud implica: uma frase de efeito que depende de qual seja a configuração do pensamento sob a qual é proferida; 

Meus comentários usando o pensamento de Michel Foucault:

 

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura

A forma de reflexão que se instaura
com esse perfil de conceitos do pensamento moderno, o de depois de 1825

A descontinuidade epistemológica ocorrida entre 1775 e 1825,
segundo o pensamento de Michel Foucault

“Assim, estes três pares,

• função e norma,

• conflito e regra,

• significação e sistema

cobrem por completo,
o domínio inteiro
do conhecimento do homem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 10 – As ciências humanas;
tópico III – Os três modelos

Claramente a determinação ou não dessa parecença depende do modo como você olha para a fotografia, ou seja, com que recursos de pensamento faz isso. E o que procura na fotografia, com o seu olhar.

Ivaldo Bertazzo ensina que a gente olha e ouve o que nos chega do mundo sempre de acordo com o mesmo padrão.

Michel Foucault, olhando para o estado em que ele percebia encontrar-se a nossa cultura, viu modelos com e modelos sem a possibilidade de fundar as sínteses (da empiricidade objeto do pensamento) no espaço da representação. Ele estava questionando as condições de possibilidade do pensamento, evidentemente.

E ele foi além disso: viu a configuração de todo o campo das ciências humanas configurado tendo como pressuposto a constituição do que ele chama de os ‘quase-transcendentais’ Vida, Trabalho e Linguagem, podendo então identificar um modelo composto padrão e genérico para todas as ciências humanas nesse espaço, a partir de modelos constituintes das três ciências do eixo epistemológico fundamental, as ciências da Vida (Biologia) [função-norma], do Trabalho (Economia política) [conflito-regra] e da Linguagem (Filologia) [significação-sistema]. 

Pouca gente vê isso, mas você pode ver adiante neste trabalho.

Mas, olhando para a fotografia de hoje com os padrões que usamos ontem e desde sempre, fica estabelecida uma semelhança pela intermediação do padrão utilizado. Se é o padrão de sempre, as diferenças porventura existentes, causadoras de diferenciações, mas aparentes somente sob outro padrão, não aparecem.

Sempre é necessário percebermos quais são os critérios dos quais se compõe o modo como olhamos para o mundo. Dependendo do que surge dessa procura daquilo que integra nossos padrões, pode ser que percebamos que ocorreram, sim, mudanças que nos passaram despercebidas; e mudanças de tal monta que sim, foram revoluções, mas localizadas no passado, e hoje já distante.

Mas que a gente possa manter um savoir faire – um saber fazer, numa relação da harmonia do homem agora não mais com a natureza, não mais com os deuses, não mais com a razão, mas com o intangível. Então, nesse intangível, isso me leva a pensar numa ética – em dois tempos para cada um – de inventar uma surresposta singular da sua intangibilidade, e de colocá-la no mundo (que é o que faz o artista); não é? um Van Gogh vê um girassol que só ele viu – ele inventou um girassol – e inscreveu esse girassol no mundo.

Esse ‘savoir faire’ parece-me que seja a boa e antiga de dois séculos ‘Forma de produção’ de David Ricardo

Desde logo esse ‘savoir faire‘ é interessante porque me dá a oportunidade de, ao invés da tradução óbvia ‘saber fazer‘, optar por traduzir essa ideia como ‘forma de produção‘ como a maneira encontrada para fazer aquilo que sei fazer; e se fizer isso guiado pela ideia por trás do nome, estarei usando justamente o nome dado por David Ricardo, em 1817, para o elemento central do seu modelo de operações que, segundo Foucault, ele publicou com o nome de Princípio Dual de Trabalho (e é interessante descobrir por que esse ‘dual’ no nome do principio.

O pensamento bem frequentemente consegue dar conta do ‘impensado’, mas ao contrário, o ‘intangível’ permanece tal e qual na maioria das vezes.

Desde logo, estabelecer um saber fazer voltado ao intangível – o que quer que essa palavra signifique neste contexto – é organizar “a relação da harmonia do homem não mais com a natureza, os deuses, a razão”, mas levando em conta, agora, o objeto, um objeto definido como ‘intangível’, aquela coisa que não se pode tocar, parece que seja um grande passo adiante. 

Veja que toda a mecânica celeste funciona perfeitamente e artefatos são colocados em órbita e chegam sem acidentes a outros planetas, e em sua grande maioria todos permanecem intangíveis – no sentido original da palavra ‘intocáveis’ – depois de estudados. Mas todos deixam de ser impensados. E graças a um pensamento organizado pelo par sujeito-objeto.

Pensando em um buraco negro, e nas teorias da relatividade que ajudam a compreendê-los, não se pode dizer que eles, buracos negros – e outros entes cósmicos – de alguma forma possam tornar-se tangíveis. Mas a ciência os converte de ‘impensados’ cada vez mais em ‘pensados’. E essa conversão faz mais sentido do que a proposta por Forbes de intangíveis para tangíveis. Até mesmo no caso do Sars Cov-2.

Seja com ‘intangível’ seja com ‘impensado’, mas o pensamento proposto é voltado para o objeto, o que já é um grande passo”

Mas, porém, todavia, contudo, o direcionamento do pensamento para o que seja ‘intangível’ já requer uma alteração radical na configuração do próprio pensamento: para um pensamento definido com relação a um determinado objeto, – embora um objeto genérico; isso porque exige um pensamento sim-discriminativo com relação ao objeto escolhido e seus elementos componentes, em contraposição a um pensamento indefinido porque não-discriminativo com relação a qualquer objeto como é (sim, é, porque ainda agora, muito usado entre nós) o pensamento terra1 – como diz Forbes, voltado aos transcendentais natureza, deuses, razão.

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura desde o início do século XIX

Na filosofia de Michel Foucault, pensando em David Ricardo na economia política, Franz Bopp na Filologia, Georges Cuvier na Biologia, o pensamento volta-se para o impensado em vez de para o intangível.

Instaura-se
uma forma de reflexão, 

bastante afastada 
do cartesianismo 
e da análise kantiana, 
em que está em questão, 
pela primeira vez, 
o ser do homem, 
nessa dimensão segundo a qual 
o pensamento 
se dirige ao impensado 
e com ele se articula. 

Isso tem duas conseqüências.”

 (…) 

“A outra consequência é positiva. 
Concerne à relação 
do homem 
com o impensado, 
ou mais exatamente, 
ao seu aparecimento gêmeo 
na cultura ocidental.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 9 – O homem e seus duplos; tópico V. O “cogito” e o impensado

Veja a forma de reflexão que se instaura no pensamento em nossa cultura quando mudança como essa foi realizada:

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura, segundo Michel Foucault

Essa mudança no modo de organização do pensamento aconteceu, segundo Foucault, entre 1775 e 1825, nos cinquenta anos centrados na virada dos séculos XVIII para o XIX (vinte e cinto anos para cada lado). Grosso modo há dois séculos; mudança bem mais recente do que os 28 séculos atrás em que  Forbes posiciona o evento marcador antecedente da revolução que aponta também nos laços sociais.

A mudança em decorrência dessa forma de reflexão

Trata-se de uma mudança com a seguinte natureza:

  • de operações organizadas por uma (ou pode ser mais de uma) Ordem(ns) arbitrariamente escolhida(s) nas quais o homem era tratado como um gênero, ou uma espécie integrando uma das categorias do sistema de categorias clássico; 
  • para operações organizadas pelo par sujeito-objeto em uma ordem única dada pelas regras da gramática da língua, usando o bloco padrão construtivo genérico para construção de representações proposição. 

A primeira consequência evidente é que não é mais possível modelar operações, empresariais ou outras, usando a metáfora da transformação única de Entradas  Saídas ou do processamento de informações sobre a estrutura Input-Output cujo sistema é relativo, de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si. Veja que o elemento central desse modelo, Processo, tem a natureza de um verbo, e note que há dois conceitos para o que seja um verbo, e esse de um sistema relativo, etc. etc. é o primeiro que transcrevo a seguir.

“A única coisa que o verbo afirma, é a coexistência de duas representações; por exemplo, a do verde e da árvore, a do homem e da existência ou da morte. É por isso que o tempo dos verbos não indica aquele em que as coisas existiram no absoluto, mas um sistema relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si.” As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências  humanas; Cap. 4 – Falar; tópico III. A teoria do verbo 

A segunda consequência é que partindo do conhecimento de que usualmente operações são modeladas sobre a estrutura Input-Output, e isso não é mais adequado, é preciso encontrar um outro padrão, um outro modelo. Isso é necessário para que operações em organizações reais sejam modeladas convenientemente.

E esse outro modelo é consistente não mais com o pensamento de Adam Smith (Processo, estrutura Input-Output) mas sobre o pensamento de David Ricardo e seu Principio Dual de Trabalho, cujo elemento central é o ‘savoir faire’ ou a forma de fazer, com o nome de Forma de produção.

Veja as seguintes páginas, comparando:

Modelos construídos dentro desse padrão: 

Veja, o que gera uma vacina para o Sars-Cov-2 é uma operação na qual o pensamento do cientista que, tendo em vista os aspectos ainda impensados, porque não pensados, desse vírus, desencadeia uma operação no seguinte formato:

  • coloca-se como sujeito de uma operação científica na qual
  • o vírus é o atributo do predicado do cientista sujeito dessa operação, e assim é o objeto da operação da ciência,
    • que funciona à luz do que se sabe sobre vacinas
    • e sobre sistema imunológico humano, entre outros saberes.

Essa operação científica considera entre outras coisas o que a ciência sabe sobre vírus em geral e o Sars-Cov-2 em particular. 

Tangibilidade ou intangibilidade são qualidades, aparências, ou propriedades não-originais e não-constitutivas desse vírus. O impensado, ao contrário, toma o objeto dessa operação de conhecimento por inteiro, mesmo que de início, não haja qualquer propriedade sejam as não-originais e não-constitutivas sejam as sim-originais e sim-constitutivas.

O interesse da ciência é pelas propriedades sim-originais e sim-constitutivas desse vírus, que são essas que podem levar a conquistas como por exemplo, uma vacina. E encontrar esse conjunto de propriedades é o que converte o impensado em representação. 

Nota: Nessa forma de reflexão que se instaura no pensamento filosófico de depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825,’ o ser do homem’ não se dirige ao intangível!  

Intangível é uma qualidade de algo e não faz parte das propriedades originais e constitutivas desse algo.

Essa forma de reflexão sim, dirige-se ao impensado, o objeto por inteiro, em relação ao qual o Pensamento pode muito. Pode descobrir suas propriedades originais e constitutivas, propriedades substantivas, e não adjetivas, aparências, como é o intangível.
(Ref. Entrevista de Jorge Forbes)

Ao contrário do impensado, que mediante articulação feita pelo pensamento e patrocinada pelo sujeito, pode ganhar o espaço da representação (e a vacina!), o intangível na maioria dos casos, permanece exatamente isso: intangível.

Há uma confusão entre os vocábulos intangível e impensado. 

Veja as bases de sustentação e essa forma de reflexão em   

Os  perfis das duas configurações do pensamento, segundo o pensamento de Michel Foucault:
e Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento

Essa forma de reflexão é consistente e está na base do Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo.

Veja em imagens 

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho, o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, de 1817; veja também as diferenças entre esses dois conceitos, nas palavras de Michel Foucault

que ilustram essa forma de reflexão no depois da descontinuidade epistemológica, e a reflexão no período anterior.

Esse título faz alusão a uma revolução nos laços sociais única nos últimos 2800 anos.

Volto ao redirecionamento da ‘harmonia do homem’ desde os transcendentais natureza, deuses, razão, para o intangível como diz Forbes. Se o argumento que fiz acima, a substituição do ‘intangível‘ pelo ‘impensado‘ for aceito – ao menos para efeito deste texto, essa revolução a que o título alude já ocorreu, e há exatos 203 anos. E teve exatamente a mesma intenção, atingiu ‘os laços sociais’ e todas as áreas do conhecimento humano. 

Não foi pouca coisa.

Esse título, com a afirmativa nele expressa, parece conter em seu significado, um descarte histórico desse evento que tem, na avaliação de Michel Foucault, o status de evento fundador da nossa modernidade no pensamento; e um desconhecimento do modo como se alterou ao longo do tempo o modo de ser fundamental do pensamento e suas condições de possibilidade, em nossa cultura em tempo muito mais próximo de nós que os 28 séculos. 

Gostaria que Jorge Forbes relesse sobre isso na minha Cartilha – o livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, desse autor. 

Tendo em mente especificamente a mudança proposta por Forbes para um pensamento voltado a um objeto ‘intangível’, e tendo consciência de que isso resulta em um certo esforço do pensamento e além disso, um pensamento organizado por esse objeto ‘intangível’ escolhido, exatamente essa alteração aconteceu em nossa cultura em um espaço de tempo muito menor, pouco mais de dois séculos atrás em vez dos 28 mencionados por Forbes.

Nesse meio tempo, e por falar não em revoluções mas em descontinuidades epistemológicas em nossa cultura, podemos ver esse evento em nossa cultura na página seguinte.

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825

Essa mudança no pensamento exigiu uma forma de reflexão também nova. Segundo Michel Foucault, essa mudança ocorreu em um movimento do pensamento muito mais recente e importante que surgiu em momento muito mais próximo do nosso tempo. Veja essa forma de reflexão associada a uma imagem para o conceito, que torna aparentes os elementos de imagem utilizados, a estrutura que ocupam e os relacionamentos que estabelecem.

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura, segundo Michel Foucault

E os efeitos de tal movimentação das positividades umas em relação às outras pode ser constatado nas produções do pensamento efetivamente feitas e utilizadas em teorias, modelos e sistemas existentes e muito utilizados. Essa mudança não ficou apenas no pensamento teórico mas atingiu a prática, embora não tenha sido avaliada de maneira alinhada com o pensamento filosófico.

A página a seguir mostra:

  • os dois perfis do pensamento antes e depois desse evento segundo Foucault fundador da nossa modernidade no pensamento  expressos por suas características de características, ou pelos respectivos referenciais, princípios organizadores e métodos;
  • esses elementos nas palavras de Foucault;
  • os modelos de operações possíveis com um e outro desses perfis;
  • as grandes áreas do pensamento possíveis antes e depois desse evento;
  • e a Forma de reflexão que se instaura depois desse evento

Os perfis das duas configurações do pensamento, segundo Michel Foucault; (…) Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento (…) a Forma de reflexão que se instaura em nossa cultura

Esse título do vídeo da entrevista de Jorge Forbes imediatamente me lembra do movimento Reengenharia, e da capa do livro de mesmo nome de Michael Hammer “– Esqueça o que você sabe sobre como as empresas devem funcionar: quase tudo está errado” trombeteava ele. Seja em Hammer, ou em Forbes, nos dois casos havia e há, a denúncia, como se atual fosse, de uma revolução já ocorrida em passado nem tão remoto. Em termos históricos, foi ontem.

A Cartilha mostra como e por que isso é verdade.

Se estou entendendo o que ele chama de ‘época anterior’, ou terra1 isso já tem um nome: idade clássica ou pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo a Cartilha. E chamado por esse nome, suficiente, podemos prescindir do nome fantasia terra1. 

Usando ‘pensamento filosófico clássico’ podemos fazer o relacionamento com o modo de ser do pensamento de autores importantes desse período – a virada dos séculos XVIII para o XIX, como Adam Smith, John Locke, Jeremy Bentham, etc.  E usando a contraparte ‘pensamento moderno’ – que possivelmente Forbes chamará de terra2 igualmente sem necessidade e com desvantagens – podemos estabelecer relações com pensadores como David Ricardo, Franz Bopp, Georges Cuvier, Sigmund Freud, John Maynard Keynes, entre muitos outros.

“Me incomoda a noção de norma no sentido de que você sai de um laço social 

estandardizado, padronizado, rígido, hierárquico, linear, focado

que são algumas das características que eu entendo da época anterior que eu chamo de terra1. 

Eu chamo de terra1 toda organização, todo laço social vertical – independente do que esteja, na verticalidade, no ponto da transcendência, esteja (como esteve durante muitos séculos) primeiro a natureza, depois  os deuses, depois a razão. As transcendências mudam mas a estrutura arquitetônica arquitetural vertical se manteve. Então eu entendo que há uma revolução monumental neste momento, sobre 2800 anos de história, em que nós saímos de uma forma de nos comportarmos verticalmente e temos a chance de nos comportarmos horizontalmente; o que implica em que nós temos a chance de viver num laço social flexível, criativo, múltiplo, responsável, – responsável antepõe responsabilidade e disciplina – (…) Então você tem um laço social de características, como eu disse, 

colaborativo, múltiplo, reticular, flexível, criativo, [responsável]; 

e eu acho que o interessante quando nós sairmos dessa pandemia, é nós guardarmos um aspecto dela, que é a relação do homem com o intangível.

 Ref. Jorge Forbes, em Estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos do canal Inconsciente coletivo.

Neste comentário, faço uso, claro, do meu particular e pessoal entendimento do pensamento de Michel Foucault, e afirmo: 

1. que no que Forbes chama terra2 – (entendido como a configuração moderna do pensamento, o de depois de 1825, como aquilo que sucede e substitui, se opondo, ao pensamento ‘anterior’), ‘hierarquia’ é uma estrutura intrínseca e inseparável do resultado de uma operação de construção de representação nova, porque é uma estrutura ligada ao resultado (uma representação) dessa operação sempre organizada pelo par sujeito-objeto, com princípios organizadores Analogia e Sucessão e com os métodos Análise e Síntese;

e no entanto a qualidade ‘hierárquico’ está atribuída ao pensamento em terra1 (entendido agora como o pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775, o que Forbes chama de ‘anterior’). 

Dado que no pensamento clássico não existem as noções de objeto (noção à qual a ideia de hierarquia está ligada em um modelo de operações) e de sujeito (homem), essa qualidade atribuída a terra1 deve estar referida a outra coisa que mereça esse atributo, mas que não está clara no texto, e valeria a pena esclarecer o que seja que tem essa qualidade. 

2. que o incômodo de Forbes com a ‘norma’ – se aplicada a terra2 com o entendimento acima, e usando aquilo que consigo apreender do pensamento de Michel Foucault no ‘As palavras e as coisas’, – sugere uma simplificação em dose dupla.
 
  • A primeira simplificação: 

norma é um dos modelo constituintes das ciências humanas que juntamente com função, compõe o par constituinte da ciência da Vida, a Biologia no período moderno do pensamento e no segmento do espectro de modelos para ALÉM do objeto.

  • A segunda simplificação: 

há outros dois pares de modelos constituintes no modelo constituinte padrão, genérico para todas as ciências humanas, a saber

        • conflitoregra, o par constituinte da ciência do Trabalho (Economia política); e
        • significaçãosistema, o par constituinte da ciência da Linguagem, (Filologia). 

A descrição feita por Michel Foucault desse  modelo constituinte padrão e genérico, composto dos pares constituintes das ciências que habitam a região epistemológica fundamental, e o eixo vertical do Triedro dos saberes:

        • ciência da Vida (Biologia), par constituinte [funçãonorma];
        • ciência do Trabalho (Economia política), par constituinte [conflitoregra];
        • e ciência da Linguagem (Filologia), par constituinte [significaçãosistema],

acaba sendo quase que um manual para formulação de teorias, modelos e sistemas nesse campo, e por isso faço este comentário.

Portanto este comentário vai a seguir em dois pontos:

  • 1. Quanto às qualidades atribuídas a terra1 e terra2; 

  • e 2. Quanto ao incômodo com a ‘norma’

  • e ao final, o que eu chamo de um Manual (em uma animação ilustrada) para o projeto e uso de modelos no campo das ciências humanas, usando diretamente as palavras de Michel Foucault

1. Quanto às qualidades atribuídas a terra1 e terra2

Note que as características tanto em terra1 quanto em terra2 são dadas no excerto acima, e nos dois casos, por qualidades dos laços sociais.

 

Tomando terra1 como sendo a configuração do pensamento filosófico no período clássico, nesse período o pensamento funciona com propriedades não-originais e não-constitutivas das coisas, as aparências, estas, qualidades. Para o pensamento assim configurado não existem a noção de homem como ser capaz de desempenhar uma duplicidade de papéis, e a noção de objeto.

O elenco de qualidades atribuídas ao laço social – estandardizado, padronizado, rígido, hierárquico, linear, focado – pode ser objeto de reflexão interessante. 

A qualidade ‘hierárquico’ está atribuída ao pensamento terra1 que eu, aqui, presumo que se refira ao pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo Foucault. 

Tomando posição em terra2, que eu presumo referir-se ao pensamento moderno, o de depois de 1825 segundo Foucault, essa qualidade ‘hierárquico’ seria dada por uma estrutura de conformação definida no objeto, uma hierarquia.

Enfatizando, no pensamento moderno os princípios organizadores de uma operação no caminho da Construção de representação nova são Analogia e Sucessão com os métodos Análise e Síntese

 “De sorte que se vêem surgir, 
como princípios organizadores desse espaço de empiricidades, 
Analogia e a Sucessão
de uma organização a outra, 
o liame, com efeito, não pode ser mais a identidade de um ou vários elementos, 
mas a identidade da relação entre os elementos 
(onde a visibilidade não tem mais papel) e da função que asseguram; (…) 

Cartilha; Cap. 7. Os limites da representação; tópico I. A idade da história

Tomemos (ainda posicionados em terra2!) um ‘impensado’ em Foucault ou um ‘intangível’ em Forbes; não existe representação para isso – ou não seria um impensado ou um intangível no domínio de trabalho. Por isso, se for feita a decisão de resolver essa situação de intangibilidade ou não representatividade, esse ‘impensado’ será objeto em uma operação de construção de uma representação. 

O pensamento converte o impensado em representação.

Aquilo que antes dessa operação era o ‘impensado‘ de Foucault, depois dessa operação de construção de representação nova – conduzida em cada etapa pelo sujeito – nada mais será do que um pacote logicamente organizado de objetos análogos ao impensado e seus aspectos, objetos esses adotados em seu conjunto como substitutivos – dentro de certos critérios de aceitação – daquele ‘impensado’ para o qual não havia representação no espaço no qual a operação acontece. 

O princípio organizador do pensamento Analogia estabelece relações de analogia das quais surgem objetos análogos ao impensado mais representáveis. Usando como diz Foucault ‘a sintaxe que autoriza a construção das frases’, esse objeto análogo é arrastado para o modelo de operações construído segundo as regras da linguagem por meio de uma proposição na qual o homem é sujeito, e o predicado do sujeito é composto por um verbo – a forma de produção, e um atributo, o objeto análogo que acaba de ser criado na relação de analogia. Agora cada um desses objetos análogos são testados quanto às respectivas possibilidades de representação nesse espaço em que a operação acontece. Caso necessário, o método Análise entra em cena e quebra cada objeto análogo eventualmente ainda não representável em outros objetos análogos mais próximos de suas respectivas possibilidades de representação nesse espaço; e o método Síntese garante que o objeto análogo inicial ainda pode ser composto pelo conjunto de objetos análogos resultantes da Análise.

Aí entra o princípio organizador Sucessão. Usando como diz Foucault ‘aquela sintaxe, menos manifesta, que autoriza manter juntas ao lado e em frente umas das outra, as palavras e as coisas‘, a Sucessão posiciona ao lado, ou em frente uns dos outros, os objetos análogos criados em substituição ao objeto análogo não representável, estabelecendo entre eles relações lógicas – de sucessão. 

Você pode ver isso em uma animação nesta página, sob DIANTE do objeto. Se necessário, posso dar mais detalhes sobre como isso funciona.

Nota: essa descrição do funcionamento de uma operação de construção de representação para algo antes impensado não explica suficientemente o ‘laço social’, mas podemos chegar lá.

Continuando. Assim, supondo que terra2 seja de fato o que eu estou pensando que é, o pensamento filosófico moderno – o de depois de 1825, como diz Foucault ‘aquele [pensamento] com o qual queiramos ou não, pensamos‘, então, hierárquico é uma qualidade intrínseca a esse tipo de pensamento, terra2, desde que entendido como referente ao objeto. Como humanos não nos é possível construir representação para qualquer ‘impensado’ sem que o resultado seja um objeto expresso por uma representação com uma estrutura em hierarquia.

Fechando o longo parênteses, e voltando ao ponto, supondo que terra1 seja de fato o que penso que é, – o pensamento filosófico clássico.

Em assim sendo, a noção de impensado cuja representação é construída pelo pensamento, nesse tipo de pensamento, não existe. Porque não existe a noção de objeto e também não existe a noção de sujeito da operação, como o homem, que seria capaz de construir representação nova. O homem está fora da paleta de ideias no pensamento clássico. ‘Antes do final do século XVIII o homem não existe em nossa cultura. Não mais do que um gênero, ou uma espécie’ é o que nos alerta Foucault.

Logo, nesse tipo de pensamento, sem a noção de objeto prima irmã da noção de hierarquia, a qualidade ‘hierárquico’ deve referir-se a outra coisa que não o objeto. Então o que é danoso, prejudicial, e justifica mudanças é essa outra coisa que está associada a essa qualidade ‘hierárquico’, e que vista mais de perto, não pertence a esse pensamento. 

E essa coisa não é declarada por Forbes, o que poderia gerar confusão.

Mas a palavra hierarquia é muito usada, e mesmo em terra1; as organizações foram bem ou mal se organizando e apresentando problemas. Sem atentar para que tipo de pensamento estavam usando. E aí, por diferentes razões, alguns autores passaram a demonizar a organização hierárquica sem dizer especificamente o que estavam demonizando. Isso sem noção de que a estrutura hierárquica é inerente, indissociável, ao pensamento moderno, e às operações que transcorrem organizadas sob essa configuração do pensamento.

Então, se estou sendo entendido, hierárquico em terra1, nada tem, nem pode ter, a ver com o objeto de operações sob o pensamento moderno que terminam construindo representações novas. E o pensamento voltado para o ‘intangível’ de Forbes ou ‘impensado’ de Foucault não pára de pé sem o objeto e sem o sujeito; e portanto necessariamente com a qualidade ‘hierárquico’ que em Forbes está posta em terra1.

Pode haver confusão aí, demonizando a hierarquia, o que, em se tratando de pensamento moderno (terra2) em qualquer caso, é na verdade é uma missão impossível. 

Obviamente não sei como essa qualidade afeta o laço social descrito por Forbes, mas posso ver com alguma clareza como essa qualidade afeta a estrutura do pensamento nas operações sob o pensamento filosófico moderno, no depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825. E a hierarquia é característica integrante e indissociável do resultado nessa configuração do pensamento, arrastada para a representação (projeto) decorrente do referencial, dos princípios organizadores e dos métodos utilizados em um pensamento orientado pelo par sujeito-objeto.

Veja isso na seguinte página

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

Não se ganha nada ao retirar a qualidade hierárquica da estrutura inerente à construção de representação nova (projeto); ao contrário perde-se muito, essa tentativa empobrece a visão da operação, oblitera o funcionamento das duas sintaxes da língua usada para modelar operações; por essas razões, mas acima de tudo, essa parece ser uma missão impossível. A estrutura hierárquica da operação da qual resulta uma representação nova é resultado do perfil de configuração do pensamento.

2. Quanto ao incômodo de Forbes com a ‘norma’

Quanto ao incômodo de Forbes com a noção de ‘norma’, isso me remete imediatamente de novo à Cartilha, (o livro ‘As palavras e as coisas’, que me permite uma visão de conjunto muito mais completa e útil para quem pensa em formular e configurar, e depois operar com sucesso, modelos no domínio das ciências humanas.

A ‘norma‘ que incomoda Forbes, é a expressão de uma convenção, um acordo feito para atender às condições requeridas por uma ‘função‘; esse acordo, essa convenção, visa a estabilidade temporal, em mais de um aspecto, e o compartilhamento dessa ‘norma‘ isto é, da solução conseguida e convencionada para a obtenção prática dessa ‘função’.

Vale a pena examinar, usando o pensamento de Michel Foucault, o que se configura quase como 

Um ‘manual’ para projeto e construção de modelos no domínio das ciências humanas

em três tempos:

  • o espaço geral dos saberes sob o pensamento moderno chamado por Foucault de Triedro dos saberes; com as faces e eixos do Triedro dos saberes;
  • a classe de modelos das ciências humanas;
  • o uso dos pares de modelos constituintes fora do domínio próprio em que foram formados.

examinando o modelo constituinte padrão das ciências humanas composto de uma combinação ponderada dos pares constituintes das ciências do eixo epistemológico fundamental, as ciências da Vida, do Trabalho e da Linguagem:

“Assim, estes três pares, função e norma, conflito e regra, significação e sistema, cobrem, por completo, o domínio inteiro do conhecimento do homem.” Cartilha; Cap. 10 – As ciências humanas; tópico I – O triedro dos saberes

Esse excerto da Cartilha dá-nos conta de que esses três pares de modelos constituintes, das ciências 

  • da Vida (Biologia) par constituinte  [função-norma] 
  • do Trabalho (Economia)  par constituinte [conflito-regra] e 
  • da Linguagem (Filologia) par constituinte  [significação-sistema] 

estão na base de toda e qualquer ciência humana, incluindo a economia política, e a biopolítica, e também a análise da produção. Essas três ciências compõem, segundo Foucault, a região epistemológica fundamental.

Forbes supostamente está analisando o que acontece nas, e com as organizações empresariais e, portanto, está elaborando bem no campo de uma ciência humana. Essa ciência humana que segundo Foucault, tem esse modelo constituinte padrão no qual 

  • o par constituinte dominante é escolhido, em cada caso específico, por quem formula o modelo, 
  • e os coeficientes que determinam o mix da composição no modelo específico, que estabelecem a proporção em que entram no modelo os três pares constituintes – e a predominância de um deles sobre os outros – são também escolhidos pelo analista formulador. 

Isso evidencia que esse incômodo de Forbes com a ‘norma‘ precisa ser bastante ampliado quando se fala de laços sociais porque estes estão afetos, 

  • desde logo às ‘funções’ normatizadas pela ‘norma’ (o par constituinte do quase-transcendental Vida), 

mas também estão regidos pelos pares constituintes dos outros dois quase-transcendentais: 

  • [conflito-regra] da Economia, 
  • e [significação-sistema] da Filologia.

É claro que podemos desconsiderar esse mapeamento admirável do espaço dos saberes moderno feito por Foucault e pensar de modo compartimentado e muito mais incompleto. 

Mas por que exatamente faríamos isso?

Um

Manual para uso e projeto de modelos no campo das ciências humanas, já constituídos os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem

A frase citada por Forbes:

“Freud explica Freud implica:

  • no ‘explica’ você tem um saber anterior ao ato; 

  • no ‘implica’ você tem um ato anterior ao saber.”

Significado da palavra ‘Implica’ no Dicionário Online de português

Implica vem do verbo implicar. O mesmo que: hostiliza, origina, requer, requere, discorda, compromete, confunde.

Significado de implicar

Expressar desdém, deboche, zombaria; hostilizar: ele implica com seu irmão constantemente; implicava-se com o vizinho.

Obter como resultado, efeito ou consequência; originar: a devolução do imóvel implica multa.

Fazer com que algo se torne necessário; requerer: o trabalho não implica sua participação.

Sinônimos de Implica

Implica é sinônimo de: hostiliza, origina, requer, requere, discorda, compromete, confunde

Antônimos de Implica

Implica é antônimo de: desimplica

Significado da palavra ‘Explicar’ no mesmo dicionário

verbo transitivo diretoFazer com que fique claro e compreensível; descomplicar uma ambiguidade: explicar um mistério.Ser a causa de: a desgraça explica sua amargura.Conseguir interpretar o significado de: explicar um texto irônico.verbo transitivo direto e bitransitivoFazer com que alguma coisa seja entendida; explanar: explicar uma teoria; explicar a matéria aos alunos.verbo transitivo direto e pronominalProvidenciar uma justificativa ou desculpa; desculpar-se: preciso explicar meu comportamento; o presidente explicou-se ao povo.Manifestar-se através das palavras; exprimir-se: explicar uma paixão; explicou-se numa linguagem bem popular.Etimologia (origem da palavra explicar). Do latim explicare.

Sinônimos de Explicar

Explicar é sinônimo de: leccionarpontificaradestraramestrardoutrinareducarensinarformarinstruir

Antônimos de Explicar

Explicar é o contrário de: obscurecercomplicar

É bem implicante o leque de significados das palavras ‘explica’ e ‘implica’. Implica é até confunde! mas é também ‘origina’.

Implica é origina, requer. Explicar é formar, instruir. Complicar, é antônimo de explicar. 

Etimologicamente complicar é dobrar junto; implicar é entrelaçar, juntar, reunir. Muito próximos os significados, não?

Pensando o ‘Explicar’, em uma operação, como a procura de elementos que deem sustentação na experiência para o que se  afirma com respeito ao objeto da operação – inclusive indicando sua origem no pensamento, ‘Explica’ e ‘implica’ são palavras com dois conjuntos de significados diferentes mas cuja intersecção é não vazia; há significados em comum; veja a etimologia das duas palavras. 

Essa relação de sucessão ou de precedência entre ato e conhecimento tem bastante mais a ver com o modo como o pensamento é configurado e com a natureza da operação envolvida em cada específico movimento do pensamento, do que propriamente com o significado escolhido para essas duas palavras. E dependendo dessa natureza da operação, essa operação pode acomodar-se a uma configuração do pensamento clássico, anterior a 1775, ou a uma configuração do pensamento moderno, o de depois de 1825. Muito diferentes, uma da outra, se atentarmos ao pensamento de Foucault. Você pode ver essas diferenças aqui. Isso ,se o modo de ser do pensamento não for explicitado onde e quando devido.

Esta argumentação tem como pano de fundo o pensamento de Foucault. E a frase acima é a expressão de um pensamento atual tal como ele aflora. Vale, portanto, rever como Foucault avaliava o pensamento em geral, tal como aflorava durante o seu trabalho no ‘As palavras e as coisas’, em 1966, o que, pelo que vejo, não mudou.

Veja Os dois obstáculos encontrados por Michel Foucault em seu trabalho.

usando essa citação de modo mais restrito, Foucault via um pensamento contaminado, nas palavras dele, ‘dominado’ por um pensamento de idade anterior. Ele via um pensamento ‘dominado pela impossibilidade de fundar as sínteses (da empiricidade objeto) no espaço da representação’. 

Nessa frase acima, eu vejo esse mesmo tipo de contaminação, que gera uma dubiedade, que queremos levantar com a ajuda do mestre, Michel Foucault.

Para a situação sugerida no lado direito da frase – um ato anterior ao saber -, a configuração do pensamento deve, necessariamente, permitir a geração de saber novo (ser capaz de fundar as sínteses no espaço da representação); deve portanto permitir a construção de representação nova para o objeto da operação. 

Essa possibilidade – inerente ao proposto no lado direito da frase -, é privativa do pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825. Mas só ocorre quando o ‘Freud’ da frase estiver com um pensamento configurado com o perfil do pensamento moderno, e na etapa da Construção da representação. O mesmo ‘Freud’, no pensamento moderno, mas na etapa de Instanciamento de representação relativa a saber anteriormente obtido, estará diante de um saber anterior ao ato.

O pensamento clássico, em suas teorias, modelos e sistemas, não permite construção de representação nova (porque era marcado pela impossibilidade de fundar as sínteses …, esse o obstáculo vislumbrado por Foucault); no pensamento clássico tudo o que existe está lá desde sempre e para sempre, por obra de Deus.

O lado esquerdo da frase – saber anterior ao ato – nessa perspectiva do pensamento de Foucault, gera uma dubiedade que só pode ser resolvida tendo presentes, em detalhe, como são as operações as que sim, podem, e as que não podem ‘fundar as sínteses no espaço da representação’. Sem discernimento, o lado esquerdo fica ‘dominado’.

Pensando nessas relações de precedência ou sucessão entre ato e saber, e nas operações em suas possíveis etapas, suas configurações e perfis ou estruturas de conceitos sobre os quais são concebidas, não há razão para que essa frase se restrinja a Freud. Poderia ser qualquer outra pessoa. Mas se levarmos em conta a menção especificamente a Freud, ela arrasta para a frase o modo de ser do pensamento desse grande autor, classificado por Michel Foucault como um pensador moderno, com estrutura de pensamento daquela configuração de pensamento de depois de 1825.

Dado esse conjunto de significados em comum, esses dois conceitos ‘explica‘ e ‘implica‘ e essas relações de precedência ou de sucessão entre ato e saber me fazem lembrar do pensamento de Humberto Maturana, que pode ser visto em uma animação de menos de 4 minutos, na seguinte página; 

Figura 2 – Diagrama ontológico; capítulo Reflexões epistemológicas, do livro Cognição, Ciência e Vida cotidiana; ou ainda a Figura 2 – O explicar e a Experiência; capítulo Linguagem, Emoções e Ética nos Afazeres Políticos, do livro Emoções e Linguagem na Educação e na Política, de Humberto Maturana Romesin

Essa figura é original de Maturana (apenas a arte foi editada – os elementos gráficos que representam as ideias foram modificados) mas em vez de usar dois rótulos como explica e implica, Maturana usa um pensamento no qual emprega duas formas para o mesmo rótulo ‘Explicar’, com diferentes significados correspondentes á mudança que está discutindo: 

  • ‘Explicar sem reformular’ no que ele chama de Objetividade sem parênteses e 

(saber anterior ao ato, ou o ‘Explica’ no lado esquerdo da frase)

  • ‘Explicar com Reformular’, no que ele chama de Objetividade entre parênteses.

(saber posterior ao ato, ou o ‘Implica’ do lado direito da frase)

Nesse pensamento, no original de Maturana, ele atribui pressupostos para o tipo de pensamento desenvolvido em cada lado da figura:

  • do lado esquerdo, o pressuposto é ‘a existência precede a distinção‘ (aquela distinção feita na operação);
    • o que leva a uma única realidade, Universo, transcendência.

e reflete o saber anterior ao ato (operação)

  • e no lado direito, ‘a existência se constitui na distinção‘ ou ‘a existência sucede à distinção’
    • o que conduz a múltiplas realidades.

e reflete o saber posterior ao ato (operação)

Usando agora o pensamento de Michel Foucault. Veja, por favor, e novamente, as páginas seguintes com animações que  colocam palavras de Foucault sobre paletas de elementos de imagem e respectivas estruturas:

primeiro, a operação de construção de representação nova (projeto) sob o pensamento configurado com o perfil do pensamento moderno:

Funcionamento das operações (…) operação Diante do objeto

e depois, veja a página

Formas de reflexão que se instauram em nossa cultura, segundo o pensamento de Michel Foucault, e correspondentes perfis de conceitos que permitem identificar cada um deles.

Resumidamente – e para facilitar – os dois perfis ou estruturas de conceitos, são:

  • para o pensamento clássico, o de antes de 1775
    • referencial: Ordem pela ordem;
    • princípios organizadores: caráter e similitude;
    • métodos: identidade e semelhança; 
  • pensamento moderno, o de depois de 1825
    • referencial: Utopia;
    • princípios organizadores: Analogia e Sucessão;
    • métodos: Análise e Síntese 

 Examinando os dois perfis característicos das duas configurações do pensamento, vê-se que: 

(Aviso: é melhor examinar primeiro o perfil do pensamento moderno, com suas capacidades de tratar propriedades originais e constitutivas e depois o perfil do pensamento clássico)

  • com o perfil de características do pensamento clássico, o de antes de 1775, realmente a suposição é que tudo o que existe compõe o Universo que está lá desde sempre e para sempre como obra de Deus, e que a existência precede a distinção;
    • a todo ato, precede todo o saber existente: o perfil do pensamento clássico não comporta a construção de representações novas e assim todo saber é anterior a qualquer ato (operação) do qual resulta uma explicação que é uma composição de saberes (representações) anteriormente existentes;
  • e com o perfil do pensamento moderno, o de depois de 1825, a suposição é que há múltiplas realidades, que o pensamento pode construir representações novas como resultado das distinções que faz, e que a existência, portanto, sucede a distinção,
    • a todo ato, sucede saber novo – ato desencadeado pelo sujeito (operação) com um objeto -, desde que o ato seja bem sucedido. 

Nota: não se trata de afirmar que na idade clássica não se produzia representações novas; mas dizer que as teorias, modelos e sistemas sob essa configuração do pensamento não abrangiam a etapa de construção de representações novas.

Acabamos de ver o funcionamento da operação de construção de uma representação nova (projeto) para uma empiricidade objeto, com um pensamento configurado de acordo com o pensamento moderno,o de depois de 1825 – uma vez que a configuração do pensamento anterior, o clássico, não pode construir novas representações.

Fica claro – entendida essa sistemática de funcionamento – que 

  • a operação tem início sem qualquer conhecimento sobre o que é objeto da operação ou da explicação, ou ainda daquele algo a ser implicado. Salvo a arquitetura do que seja uma representação, como classe de produções do pensamento; 
  • e termina com esse conhecimento.

Como reza a frase no lado direito, sim, tem-se um ato anterior ao saber, mas… somente no caso do pensamento moderno, e no caminho da Construção da representação. Porém, estando no mesmo lado direito, e também no pensamento moderno, se estivermos no Caminho do Instanciamento de representação previamente existente – o que mais acontece – teremos um saber anterior ao ato.

Dado que a possibilidade de saber novo só acontece com um pensamento configurado com o perfil característico do pensamento moderno, essa frase (de efeito) depende de quais sejam as visões de operações adotadas (o ato) em qual etapa da operação e de qual configuração do pensamento.

A relação de precedência ou de sucessão entre o ato e o saber é essencial nessa frase e podemos deixar de lado, e em segundo plano, os nomes ‘explica‘ e ‘implica‘. 

Essa relação de sucessão corresponde ao que ocorre nas operações sob as configurações do pensamento clássico e moderno da seguinte forma:

  • pensamento clássico, o de antes de 1775:
    • o saber (o conhecimento das representações existentes) 
    • é, sempre, anterior ao ato (a operação); e o resultado, nesse modelo de operações, é uma combinação de representações anteriormente existentes.
  • no pensamento moderno, o de depois de 1825:
    • no caminho da Construção de representação nova, não existente no ambiente em que a operação ocorre,
      • o saber (o conhecimento da representação objeto da operação) 
      • é posterior ao ato (a operação de construção da representação).
    • no caminho do Instanciamento de representação já existente no domínio em que a operação ocorre,
      • o saber (o conhecimento da representação objeto da operação)
      • é anterior (volta a ser) ao ato (a operação de Instanciamento da representação objeto da operação) – tal como no lado esquerdo e pensamento clássico.

Então, para que a frase faça algum sentido, é necessário atentar qual seja o perfil de configuração do pensamento diferente, e em qualquer caso, uma visão clara do que sejam operações, em cada lado da seta que está no meio dessa frase: 

  • no lado esquerdo da frase, temos
    • caso a configuração do pensamento seja a do clássico, o de antes de 1775
      • sim, o saber precede o ato (tanto em uma explicação quanto implicação)
    • caso a configuração do pensamento seja a do moderno, o de depois de 1825,
      • não, o saber não precede o ato se a operação estiver no caminho for o da Construção da representação (seja no explica ou no implica)
      • sim, o saber precede ao ato se o caminho for o do Instanciamento de representação existente
  • no lado direito da frase, temos
    • caso a configuração do pensamento seja a do clássico, o de antes de 1775,
      • sempre temos o saber anterior ao ato (a operação)
    • caso a configuração do pensamento seja a do moderno, o de depois de 1825;
      • só teremos ato (operação) anterior ao saber no caso da operação estar no caminho da Construção da representação; 
      • caso a operação esteja no caminho do Instanciamento da representação, o saber é anterior ao ato (a operação).
  • e a seta do meio da frase passará a indicar entre um lado e outro, dependendo do caso, uma descontinuidade epistemológica.

Até agora Freud entrou nessa frase como Pilatos no credo.

E essa referência a Freud nessa frase também cria mais problemas, desde que usemos o pensamento de Michel Foucault.

Segundo Foucault, Freud é um pensador moderno. 

Logo, ele teria noção dos modelos de operações no pensamento moderno; e também os do pensamento clássico, se não não teria escolhido pensar com o missal do pensamento moderno.

E assim, todas as opções condicionadas ao pensamento clássico acima deixam de valer no caso de Freud.

Então, o pensador moderno Freud

  • no lado esquerdo da frase
    • se no caminho da Construção de saber novo relacionado a dado objeto;
      • não dispõe de saber antes do ato;
    • se no caminho do uso de saber já existente relacionada a dado objeto; (instanciamento de representação existente);
      • sim dispõe de saber antes do ato.
  • no lado direito da figura
    • se no caminho da Construção de saber novo relacionado a dado objeto;
      • não dispõe de saber antes do ato;
    • se no caminho do uso de saber já existente relacionado a dado objeto; (instanciamento de representação existente);
      • sim dispõe de saber antes do ato.

O comportamento do pensador moderno Freud não é função do nome dado à operação, se ‘explica’ ou se ‘implica’, mas o que a operação pretende com respeito ao seu objeto e o estado em que se encontra esse objeto no ambiente em que a operação acontece – já existe ou ainda não existe representação para ele nesse ambiente.

Então um ato de ‘explicar’ de Freud pode não ter um saber anterior; o que contradiz a frase no lado esquerdo. E também o estabelecimento de uma implicação dele pode ter um saber anterior, o que contraditaria o lado direito da frase. 

Mostramos isso no Funcionamento de operações, e um ato (operação) desse tipo preenche a etapa de Instanciamento de representações anteriormente construídas.a 

Os pontos comentados são os seguintes:

  • Aparentemente há uma inconsistência entre o pensamento no vídeo 150 e o pensamento de Michel Foucault: o movimento do pensamento entre a psicanálise de Freud e a de Lacan: uma mudança desde uma psicanálise (pelo menos alegadamente) baseada na representação, em Freud, para uma outra baseada fora da representação, em Lacan
  • as duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operações’ segundo o posicionamento do ponto de início de leitura 
    • no cruzamento das disponibilidades do que é dado e o que é recebido na troca; 
    • ou antes da possibilidade da troca, quando um dos objetos envolvidos não está disponível, investigando a permutabilidade;

e as duas correspondentes origens da essência da linguagem e do valor carregado pela proposição para a representação.

  • Uma possível contradição:
    • a aparente descontinuidade epistemológica na apresentação das teorias modelos e sistemas relacionados à psicanálise no vídeo 150;
    • e ao contrário, uma continuidade epistemológica na apresentação de teorias, modelos e sistemas do liberalismo e variantes, no vídeo 254;
 

De acordo com o pensamento de Christian Dunker no Canal Falando nisso do youtube, vídeo 150 – Signo, Significante e significado, as bases da psicanálise de Freud estavam postas na representação.

“Não há que supor que o empenho freudiano 
seja o componente de uma interpretação do sentido 
e de uma dinâmica da resistência ou da barreira; 

seguindo o mesmo caminho que as ciências humanas, 
mas com o olhar voltado em sentido contrário, 
a psicanálise se encaminha em direção ao momento 
– inacessível, por definição, a todo conhecimento teórico do homem, 

a toda apreensão contínua em termos de significação, de conflito ou de função 
– em que os conteúdos da consciência se articulam com, 
ou antes, ficam abertos para a finitude do homem.

Isto quer dizer que, 
ao contrário das ciências humanas que, retrocedendo embora em direção ao inconsciente, 
permanecem sempre no espaço do representável, 
a psicanálise avança para transpor a representação, 
extravasá-la do lado da finitude e fazer assim surgir, lá onde se esperavam 

  • as funções portadoras de suas normas, 
  • os conflitos carregados de regras 
  • e as significações formando sistema, 

o fato nu de que 

  • pode haver sistema (portanto, significação), 
  • regra (portanto, oposição), 
  • norma (portanto, função). 

E, nessa região onde a representação fica em suspenso, 
à margem dela mesma, 
aberta, de certo modo ao fechamento da finitude, 
desenham-se as três figuras pelas quais 

  • a vida, com suas funções e suas normas, vem fundar-se na repetição muda da Morte, 
  • os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, 
  • as significações e os sistemas, numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; 
Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia

Duas visões, duas leituras do fenômeno ‘operações’:
sob o pensamento clássico, o de antes de 1775; (seta amarela)
sob o pensamento moderno, o de depois de 1825 (seta vermelha)
com duas amplitudes – duas abrangências muito diferentes

Ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’
no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido

Operação de pensamento no período clássico, antes de 1775
ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido

Ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’
antes da disponibilidade de um dos objetos envolvidos na operação de troca

Operação de pensamento no período moderno, depois de 1825, no caminho
da Construção da representação:
‘modo de ser fundamental’ sim, muda.

Há casos em que produções do pensamento – teorias, modelos e sistemas – uma vez baseados na representação, passam por uma mudança epistemológica, porque envolvendo uma outra forma de conhecer, e surgem outras produções do pensamento agora baseados desde fora da representação. Dessa alteração no modo de conhecer resulta uma produção do pensamento, teoria, modelo ou sistema com base fora da representação.

Esse fenômeno – denominado por Michel Foucault de Descontinuidade no pensamento, por ele situado entre 1775 e 1825, ocorreu extensamente na cultura ocidental afetando as ciências da Vida (Biologia) do Trabalho (Economia) e da Linguagem (Filologia) e decorre de uma opção alternativa do modo como ‘operações’ são vistas; melhor dizendo, decorre de uma alteração no ponto de inserção do início da leitura do fenômeno:

  • modelos baseados na representação;
    • ponto de início de leitura no cruzamento entre o que é dado e o que é recebido;
  • modelos baseados fora da representação;
    • ponto de início de leitura antes da disponibilidade dos dois objetos envolvidos na operação de troca, em uma prospecção da permutabilidade.

Em nossa Cartilha, (o livro ‘As palavras e as coisas’) Foucault não hesita em classificar Freud como um autor moderno, e caracteriza o pensamento clássico como ‘aquele para o qual a representação existe’.

No livro ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia, de Michel Foucault, encontramos subsídios para afirmar que o autor discorda frontalmente dessa afirmativa de que a psicanálise de Freud tivesse suas bases na representação; nesse texto Foucault mostra que, ao contrário, o pensamento de Freud já tem suas bases fora da representação; e expõe como e por que ele faz esse juízo mostrando o funcionamento da psicanálise – tendo como elemento organizador dessa argumentação o modelo constituinte padrão, comum a todas ciências humanas por ele desenvolvido nesse livro, um modelo composto pelos pares de modelos constituintes das ciências da Vida (Biologia) [função-norma]; do Trabalho (Economia) [conflito-regra]; da Linguagem (Filologia) [significação-sistema].

“Não há que supor que o empenho freudiano
seja o componente de uma interpretação do sentido
e de uma dinâmica da resistência ou da barreira;

seguindo o mesmo caminho que as ciências humanas,
mas com o olhar voltado em sentido contrário,
a psicanálise se encaminha em direção ao momento
– inacessível, por definição, a todo conhecimento teórico do homem,

a toda apreensão contínua em termos de significação, de conflito ou de função
– em que os conteúdos da consciência se articulam com,
ou antes, ficam abertos para a finitude do homem.
Isto quer dizer que,
ao contrário das ciências humanas que, retrocedendo embora em direção ao inconsciente,
permanecem sempre no espaço do representável,
a psicanálise avança para transpor a representação,
extravasá-la do lado da finitude e fazer assim surgir, lá onde se esperavam 

  • as funções portadoras de suas normas, 
  • os conflitos carregados de regras 
  • e as significações formando sistema, 

o fato nu de que 

  • pode haver sistema (portanto, significação), 
  • regra (portanto, oposição), 
  • norma (portanto, função). 

E, nessa região onde a representação fica em suspenso,
à margem dela mesma,
aberta, de certo modo ao fechamento da finitude,
desenham-se as três figuras pelas quais 

  • a vida, com suas funções e suas normas, vem fundar-se na repetição muda da Morte, 
  • os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, 
  • as significações e os sistemas, numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia

Isso permite pensar que a razão de ser da psicanálise de Lacan, encontre seu fundamento em outro movimento de pensamento feito por ele, porque a psicanálise de Freud já estava formulada desde fora da representação.

Em que consiste, então, a contribuição feita por Lacan?

Veja aqui um excerto do que Foucault expõe a esse respeito.

Em destaque:

“E, nessa região onde a representação fica em suspenso,
à margem dela mesma, aberta, de certo modo ao fechamento da finitude,
desenham-se as três figuras pelas quais 

  • a vida, com suas funções e suas normas, vem fundar-se na repetição muda da Morte,

  • os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, 

  • as significações e os sistemas , numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei.

Sabe-se como psicólogos e filósofos denominaram tudo isso:

mitologia freudiana. 

Era realmente necessário
que este empenho de Freud assim lhes parecesse;

para um saber que se aloja no representável,
aquilo que margeia e define, em direção ao exterior,
a possibilidade mesma da representação
não pode ser senão mitologia.” 

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia

Essas duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operações’ situam-se de lados opostos em relação à descontinuidade epistemológica posicionada por Michel Foucault como tendo ocorrido entre 1775 e 1825. Isso colocaria uma produção do pensamento baseada na representação do lado oposto a uma outra, baseada desde fora da representação. (O movimento de pensamento que o vídeo informa ter sido feito por Lacan com relação a Freud.

Podemos ver isso sob o ponto de vista das alterações na própria linguagem em decorrência da visão que temos do fenômeno ‘operações’ de pensamento ou outra, e de acordo com as explicações de Michel Foucault:

i)      As diferenças de funcionamento da linguagem para modelos baseados na representação e modelos fora da representação, – como o que vai descrito no vídeo 254 teria ocorrido entre as psicanálises de Freud e de Lacan, – e em geral, no funcionamento da linguagem em qualquer construção do pensamento, tendo em vista quais sejam as bases em que se sustentam essas construções do pensamento, se na representação ou se fora da representação.

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’.

Esse link mostra uma figura com a visão ampla do que entendemos como o fenômeno ‘operações’ com representações, incluindo as operações de troca, mostrando os dois pontos nos quais podemos inserir o início da leitura que fazemos desse fenômeno:

  • No ponto de cruzamento entre as disponibilidades do que é dado e o que é recebido na troca: o momento em que os dois objetos envolvidos na operação de troca estão já disponíveis; discutindo a 
  • Em um ponto anterior a esse, quando pelo menos um dos objetos ainda não está disponível.

A página mostra:

(1)    O que não muda entre as duas possibilidades de inserção do ponto de leitura de ‘operações’

A proposição é o bloco construtivo padrão fundamental para construção de representações.

“A proposição é para a linguagem
o que a representação é para o pensamento:
sua forma, ao mesmo tempo mais geral e mais elementar
porquanto, desde que a decomponhamos,
não encontraremos mais o discurso,
mas seus elementos como tantos materiais dispersos.”
As palavras e as coisas; Cap. 4 – Falar; tópico III – Teoria do verbo

A representação carregada de valor como condição para que uma coisa possa representar outra em uma operação de troca.

(…) “Em outras palavras, para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam já carregadas de valor;
e, contudo, o valor só existe no interior da representação.”
As palavras e as coisas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

(2)    O que sim, muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura

Antes de mais nada, muda a abrangência da visão que temos do que seja uma operação, em decorrência do ponto de inserção do início de leitura que fazemos desse fenômeno. Há duas possibilidades de inserção desse ponto de início de leitura de operações:

  • No ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, já disponíveis os dois objetos intervenientes em uma operação de troca;
  • Antes desse ponto, quando ainda um dos objetos não está disponível

A origem do valor carregado pelo veículo de carregamento de valor na representação é nos dois casos, a proposição, sempre, porém em linguagens essencialmente diferentes e representações  com origens de valor distintas.

No primeiro caso o valor é carregado na proposição diretamente. Aliás, a proposição já chega carregada de valor.

No segundo caso, o valor chega à proposição no bojo de uma operação de construção da representação para o objeto ainda não disponível. Isso em outras palavras quer dizer durante o projeto desse objeto. E as fontes de valor neste caso são

  • as designações primitivas;
  • e a linguagem de ação ou de uso.

ii)    O funcionamento da troca em cada uma das duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operação’.

A citação acima prossegue da seguinte forma:

(…) “o valor só existe no interior da representação

  • atual [representação do objeto envolvido na troca já existente]

  • ou possível [objeto cuja representação foi construída quando no teste de permutabilidade]

 isto é, no interior

  1. da troca [objetos envolvidos na operação de troca já existentes]

  2. ou da permutabilidade [a prospecção da possibilidade da troca com a construção da representação do objeto a ser levado ao circuito das trocas, se possível]”

As palavras e as coisas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

“Daí duas possibilidades simultâneas de leitura:

  • uma analisa o valor no ato mesmo da troca,
    no ponto de cruzamento entre o dado e o recebido;
  • outra analisa-o como anterior à troca
    e como condição primeira para que esta possa ocorrer”

A primeira dessas duas leituras corresponde a uma análise que coloca e encerra
toda a essência da linguagem no interior da proposição;
e a outra, a uma análise que descobre essa mesma essência da linguagem

  • do lado das designações primitivas
  • e da linguagem de ação ou raiz
  1. “no primeiro caso, com efeito,
    a linguagem encontra seu lugar de possibilidade
    numa atribuição assegurada pelo verbo
    – isto é, por esse elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras
    mas que as reporta umas às outras;
    o verbo, tornando possíveis todas as palavras da linguagem
    a partir de seu liame proposicional,
    corresponde à troca que funda,
    como um ato mais primitivo que os outros,
    o valor das coisas trocadas e o preço pelo qual são cedidas;
  2. a outra forma de análise,
    a linguagem está enraizada fora de si mesma
    e como que na natureza, ou nas analogias das coisas;
    a raiz, o primeiro grito que dera nascimento às palavras
    antes mesmo que a linguagem tivesse nascido,
    corresponde à formação imediata do valor,
    antes da troca e das medidas recíprocas da necessidade.”

    As palavras e as coisas: Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

Veja, por favor, o funcionamento das operações sob o pensamento clássico, o de antes de 1775 e o moderno, depois de 1825 em 

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Podemos ver, do entendimento de como se desenvolvem as operações em um caso e em outro, a correspondência bastante estreita entre as explicações dadas por Foucault na citação acima.

Veja também os dois conceitos para o que seja um verbo, e identifique o verbo envolvido no primeiro caso em que a atribuição de valor é assegurada diretamente por ele; e o verbo no segundo caso, em outra configuração da linguagem na qual o valor atribuído à representação via a proposição, tem origem fora da linguagem nas designações primitivas e na linguagem de ação ou de uso. 

Conceitos homônimos mas com significados diferentes entre a configuração do pensamento na idade clássica e no pensamento moderno

Há, aparentemente, uma contradição entre os dois vídeos do Canal Falando nisso, os de números 150 e 254.

Essa contradição se estabelece desde que consideremos o movimento do pensamento de uma produção do pensamento com base na representação, para uma outra produção do pensamento agora baseada fora dela.

Isso acordado, toda a argumentação do vídeo 254 não pesquisa as produções do pensamento ligadas ao liberalismo sob essa caracterítica.

No vídeo 150 há a percepção de um movimento de pensamento importante, – a presumida alteração nas bases fundamentais das psicanálises de Freud e de Lacan – nada mais nada menos do que uma descontinuidade epistemológica em Foucault, se de fato correspondesse aos argumentos expostos no ‘As palavras e as coisas’.

Embora segundo o pensamento de Michel Foucault a psicanálise de Freud já tivesse suas bases fora da representação, mas uma mudança de bases como essa sem dúvida significaria uma alteração epistemológica.

Evento dessa mesma natureza, uma descontinuidade epistemológica, também aconteceu no período abrangido pelo vídeo 254 para as produções do pensamento associadas ao liberalismo. Isso está relatado em bastantes detalhes por Michel Foucault.

 Mas esse movimento do pensamento deixa de ser considerado para as teorias, modelos e sistemas ligados ao Liberalismo nos questionamentos feitos no vídeo 254 – Neoliberalismo e sofrimento.

Enquanto no vídeo 150 os modelos estão predominantemente no domínio da Linguagem, no liberalismo e variações, estão no domínio das ciências do Trabalho (Economia).

Veja em Os dois conceitos filosóficos para o que seja ‘Trabalho’: o de Adam Smith, de 1776, e o de David Ricardo, de 1817, e as diferenças entre esses dois conceitos segundo Michel Foucault.

Entre esses dois pensadores há uma diferença na visão do que sejam operações avaliável pela amplitude da visão do fenômeno ‘operação’ entre esses dois princípios para trabalho. Na parte inferior da página que o link acima dá acesso, a explicação dada por Foucault deixa  bem clara essa diferença de amplitude na visão de ‘operações’. 

David Ricardo inclui, em seu Princípio Dual de Trabalho, de 1817, também a etapa da construção de representação nova enquanto que Adam Smith não faz isso.

Essa alteração no modo como uma operação é vista implica em uma reconfiguração da linguagem no que ela tem de essencial: o modo como a proposição é formada, e como valor carregado na proposição é levado por esta para a representação.

Isso pode ser visto em 

As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ 

e também na argumentação abaixo.

Havia uma confusão em Adam Smith, que consistia em estabelecer uma assimilação entre:

  • o trabalho como atividade de produção;
  • e o trabalho como mercadoria que se pode comprar e vender.

Essa assimilação, feita em Adam Smith, passa a ser em Ricardo uma distinção entre:

  • essa força, esse esforço, esse tempo do operário que se compram e se vendem, tomados como mercadoria que se pode comprar e vender,
  • e essa atividade que está na origem do valor das coisas, tomada como atividade de produção.

distinção essa que, segundo Foucault, foi feita, pela primeira vez, e de forma radical, pelo pensamento de David Ricardo, em nossa cultura; e isso implica em uma expansão da visão do fenômeno ‘operações’.

Vista desse modo,

  • como uma assimilação, entre ‘atividade de produção’ e ‘mercadoria que se pode comprar ou vender’ ou ‘força, esforço, tempo do operário, que se compram e se vendem’, em Adam Smith, 
  • ou como uma distinção, entre essas duas coisas, no pensamento de David Ricardo,

pode ficar difícil perceber que essa mesma alteração feita em Ricardo na economia, é a mesma que Lacan teria feito na sua psicanálise;

Seria necessário perceber que com o termo ‘atividade de produção’ compreende-se a produção de algo ainda inexistente o que alarga a visão de operações para o caminho da Construção de representação nova; mas encaixando essas duas coisas em uma visão ampla do que sejam operações, de todos os tipos, obtida entre outros lugares na descrição de Foucault sobre as duas configurações da linguagem,

  • e vendo o que acontece nas operações, em decorrência das duas origens do valor carregado pela proposição para a representação como consequência das duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do que seja essa operação – se antes ou se no ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido – e os efeitos em cada opção, (veja o link acima)

vê-se que os dois movimentos – o de Ricardo em relação a Smith e o de Lacan em relação supostamente a Freud, são idênticos quanto a suas bases no pensamento, porque:

  • O pensamento de Adam Smith leva a um modelo de operações com ponto de leitura posicionado no ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, ou o ponto em que os objetos envolvidos em uma operação de troca estão disponíveis; a operação de processamento de informações sob Adam Smith abrange o instanciamento, pelo desencadeamento de Processo anteriormente formulado, de representação anteriormente formulada e configurada dentre alternativas já existentes. Nesse tipo de operações sob o pensamento clássico, não há construção de representações novas;
  • No pensamento de David Ricardo o modelo de operações tem ponto de leitura posicionado antes da disponibilidade dos objetos envolvidos em uma possível futura operação de troca. E abrange toda a operação no caminho da Construção de representação nova.

E dessa forma

  • colocar o ponto de início da leitura exatamente no cruzamento entre disponibilidades do que é dado e o que é recebido (com a disponibilidade simultânea dos dois objetos envolvidos na operação de troca), coloca o fenômeno ‘operação’ na etapa de instanciamento de objeto cuja representação foi anteriormente feita;
    • e o valor carregado pela proposição para a representação é atribuído diretamente na proposição, determinando a configuração correspondente da linguagem;
  • e colocar o início de leitura antes desse ponto de disponibilidade, (com a indisponibilidade de pelo menos um dos objetos envolvidos na operação de troca) implica em investigar a permutabilidade e obriga a ‘operação’ a incluir a etapa de construção da representação do objeto ainda não representado, que será levado ao circuito das trocas depois de instanciado; e também a posterior operação de instanciamento, e o valor carregado pela proposição terá sua origem
    • nas designações primitivas
    • e na linguagem de ação.

Os pontos comentados são os seguintes:

  • A lista de referências bibliográficas do vídeo 254
  • As possibilidades, segundo Michel Foucault, de sustentação da noção de sujeito na modernidade, através de uma matriz constituída por autores associados ao liberalismo, todos eles inseridos no pensamento clássico.
  • A indicação de Adam Smith e de David Ricardo juntos, como pertencentes ao mesmo bloco de sustentação de uma noção de sujeito na modernidade; á luz do pensamento de Michel Foucault
  • Sobre as possibilidades, segundo Michel Foucault, de sustentação da noção de sujeito na modernidade através de uma matriz constituída por autores associados ao liberalismo
  • Sobre as possibilidades – usando o pensamento de Michel Foucault – de que as teorias, modelos e sistemas ligados ao liberalismo clássico, possam dar sustentação a uma psicologia, mesmo dando ao homem o tratamento como uma espécie, ou um gênero.

 

1
“Em tantas ignorâncias, 
em tantas interrogações  permanecidas em suspenso, seria preciso, sem dúvida, deter-se:  aí está fixado
o fim do discurso,  e o recomeço talvez do trabalho. 
Há ainda, no entanto, algumas palavras a dizer.
Palavras cujo estatuto é, sem dúvida,  difícil de justificar, pois se trata de introduzir no último instante 
e como que por um lance de teatro artificial, 
uma personagem  que não figurara ainda  no grande jogo clássico das representações.” (…)

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
2
“No pensamento clássico, 
aquele para quem a representação existe,   
e que nela se representa a si mesmo,   
aí se reconhecendo por imagem ou reflexo,   
aquele que trama todos os fios entrecruzados   
da “representação em quadro” -,   
esse [o homem] jamais se encontra lá presente.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
3
“Antes do fim do século XVIII,  
o homem não existia.  
Sem dúvida,  as ciências naturais  trataram do homem como de uma espécie 
ou de um gênero:   
a discussão sobre  o problema das raças,   
no século XVIII,  o testemunha.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
4
“Mas não havia 
consciência epistemológica  do homem como tal.
A epistémê clássica 
se articula segundo linhas 
que de modo algum
isolam o domínio próprio e específico  do homem.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 9 – O homem e seus duplos;
tópico II – O lugar do rei
de Michel Foucault
5
“Na medida, porém,  em que
as coisas  giram sobre si mesmas, 
reclamando para seu devir 
não mais que  o princípio de sua inteligibilidade 
e abandonando o espaço da representação, 
o homem, por seu turno, entra, 
e pela primeira vez, 
no campo do saber ocidental.”

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Prefácio
de Michel Foucault
6
“O modo de ser do homem, 
tal como se constituiu  no pensamento moderno,  permite-lhe desempenhar dois papéis: 
está ao mesmo tempo,
no fundamento de todas as positividades,
presente, de uma forma
que não se pode sequer dizer privilegiada,
  no elemento das coisas empíricas.

As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Capítulo 10 – As ciências humanas;
tópico I – O triedro dos saberes
de Michel Foucault
Anterior
Próximo

O livro ‘Nascimento da biopolítica’, de 1978-1979, sim, figura na lista de referências do vídeo 254;

  • mas o ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’, do mesmo autor, publicado em 1966 pela primeira vez, está fora dessa lista; e é nessa obra que o surgimento da classe especial de saberes que chamamos ‘ciências humanas’ como a biopolítica, é descrita, dando conta dos seus modelos constituintes.

A importância disso – se atentarmos para o pensamento de Michel Foucault  no ‘As palavras e as coisas’ pode ser avaliada sob dois aspectos:

  • Foucault questiona as produções do pensamento – teorias, modelos e sistemas –  sob suas condições de possibilidade no pensamento;
  • Foucault não analisa teorias, modelos e sistemas quando já formulados e configurados, prontos e em utilização, mas antes, analisa-os sob suas condições de possibilidade no pensamento, que ele identifica criteriosamente em cada período.

É que nesse livro o autor identifica as condições de possibilidade no pensamento de produções do pensamento ao longo do tempo e distingue dois períodos separados justamente por uma mudança epistemológica, ou uma alteração nessas condições de possibilidade do pensamento usado.

E teorias, modelos e sistemas, como construções do pensamento, foram construídas por autores imersos nos dois períodos históricos, no antes,  e no depois desse evento; e as mudanças enquanto estavam sendo feitas, no durante.

Por favor veja 

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

e depois, veja 

A forma dos modelos em cada configuração do pensamento

 

e por favor veja ainda

Funcionamento das operações, para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775 e 1825

Na descrição desse evento, ao qual Foucault atribui o status de evento fundador da nossa modernidade no pensamento, temos

  • amplitude das alterações no modo de ser do pensamento: entre os anos de 1775 e 1825;
  • primeira fase: entre 1775 e 1795;
  • fase de ruptura: os últimos 5 anos do século XVIII;
  • Segunda fase: entre 1800 e 1825.
  • idade clássica, ou pensamento clássico, para o qual ele estabelece o limite superior de tempo como o final do século XVIII com fase de ruptura nos últimos 5 anos desse século;
  • idade moderna, ou nossa modernidade no pensamento: depois de 1825.

Como última atenção ao que Foucault tem a dizer nesse grande livro, veja

Condições de possibilidade das ciências humanas: consciência epistemológica do homem

“Antes do fim do século XVIII,
o homem não existia. 
Não mais que a potência da vida,
a fecundidade do trabalho 
ou a espessura histórica da linguagem. (…) 

Certamente poder-se-ia dizer que 
a gramática geral, a história natural, a análise das riquezas 
eram, num certo sentido, maneiras de reconhecer o homem, 
mas é preciso discernir. 

Sem dúvida, as ciências naturais – 
trataram do homem 
como de uma espécie ou de um gênero
a discussão sobre o problema das raças, no século XVIII, a testemunha.
A gramática e a economia, por outro lado, utilizavam noções como as de necessidade, de desejo, ou de memória e de imaginação.

Mas não havia consciência epistemológica do homem como tal. 

A episteme clássica se articula segundo linhas que
de modo algum 
isolam
o domínio próprio e específico do homem.” 

Cartilha; Cap. 9 – O homem e seus duplos; II. O lugar do rei

“Nem vida, nem ciência da vida na época clássica;
tampouco filologia. 
Mas sim
uma história natural,
uma gramática geral. 
Do mesmo modo, 
não há economia política
porque, 
na ordem do saber,
a produção não existe. “ 
Cartilha; Cap. 6 – Trocar; tópico I – A análise das riquezas

Isso é o que nos ensina a Cartilha. 

Como seria uma noção denominada ‘sujeito’ cunhada por pensadores clássicos e que, portanto trataram do homem como de uma espécie ou de um gênero

Como seria um sujeito na modernidade, visto como uma espécie ou um gênero

E como seria uma psicologia sustentada por um pensamento que leve o homem nessa conta?

No pensamento de Foucault, vê-se claramente duas rupturas duas descontinuidades epistemológicas em nossa cultura:

  • aquela que inaugura a idade clássica (por volta de meados do século XVII) ,
  • e aquela que no início do século XIX, marca o limiar de nossa modernidade.

Essa última ruptura é situada por Foucault na virada dos séculos XVIII para o XIX, e pode ser vista por este link:

A cronologia da descontinuidade epistemológica de 1775-1825

em uma animação que coloca em uma imagem, o texto de Michel Foucault em ‘As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas’.

Mas Adam Smith e David Ricardo pensavam de maneira bastante distinta. Podemos ver isso em

Os dois conceitos filosóficos para o que seja trabalho,
as operações de troca, e comparações entre os dois princípios de trabalho, feitas por Foucault

E as diferenças, explicitadas com palavras de Foucault, são muito grandes. O modo de ver o que sejam ‘operações’ é muito mais amplo em Ricardo do que em Smith, com as consequências que isso acarreta.

E existem atualmente, e entre nós, teorias, modelos e sistemas utilizados, que modelam operações dos dois modos, sem consciência epistemológica do que está envolvido nisso.

Veja isso nos links abaixo:

Essa cronologia posiciona Adam Smith e David Ricardo em lados opostos desse evento, ao qual Foucault atribui o papel de ‘evento fundador da nossa modernidade’ no pensamento.

“A partir de Ricardo, o trabalho,
desnivelado em relação à representação,
e instalando-se em uma região
onde ela não tem mais domínio,
organiza-se segundo uma causalidade que lhe é própria.”
Cartilha;  Cap. 8 – Trabalho, Vida e Linguagem; tópico II. Ricardo

Esse movimento do pensamento que Foucault percebe em Ricardo é o mesmo movimento feito por um autor que construa sua teoria, modelo ou sistema baseado na representação.

“A diferença, porém, entre Smith e Ricardo está no seguinte: 

  • para o primeiro, o trabalho, porque analisável em jornadas de subsistência, pode servir de unidade comum a todas as outras mercadorias (de que fazem parte os próprios bens necessários à subsistência);
  • para o segundo, a quantidade de trabalho permite fixar o valor de uma coisa, 
    • não apenas porque este seja representável em unidades de trabalho,
    • mas primeiro e fundamentalmente 
      porque o trabalho
      como atividade de produção 
      é “a fonte de todo valor”.

“Enquanto no pensamento clássico
o comércio e a troca servem
de base insuperável para a análise das riquezas
(e isso mesmo ainda em Adam Smith, para quem
a divisão do trabalho é comandada pelos critérios da permuta), 

desde Ricardo,
a possibilidade da troca
está assentada no trabalho; 
e a teoria da produção, doravante,
deverá sempre preceder a da circulação.”
 

Cartilha, Cap. 8. Trabalho, vida e linguagem; tópico II – Ricardo

Vê-se que a amplitude da visão do que sejam operações, em David Ricardo, é muito maior se comparada à amplitude da visão de Adam Smith. Para Ricardo toda ‘aquela atividade que está na raiz do valor das coisas’, a produção, está incluída, juntamente e ao lado de trabalho como mercadoria, o que não acontece em Adam Smith.

Veja novamente 

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Note que as diferenças nas operações, inclusive as de troca, são muito grandes no pensamento de Adam Smith e no pensamento de David Ricardo. Se consideramos os dois modelos de operações, essas diferenças são físicas. O pensamento de David Ricardo amplia sobremaneira a amplitude da visão do que sejam operações, incluindo a fase de ‘projeto’ ou de construção de representação nova.

Além disso, decorrentes das diferenças nas operações, altera-se a configuração da linguagem no antes e no depois desse evento. Muda, nas palavras de Foucault, a origem da essência da linguagem. Veja isso na página

As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função dessa inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’;

Mesmo assim, no vídeo Falando nisso 254, e no contexto da análise da incidência do trabalho na formação da subjetividade, Adam Smith e Ricardo são tomados juntos e indiferenciados, como pertencentes ao mesmo bloco ‘matriz’ que permitiria a construção da noção de sujeito na modernidade!

O esforço de sedução que a filosofia precisa fazer em relação aos economistas em sua luta contra a desigualdade

 

“Nem vida,
nem ciência da vida
na época clássica;
tampouco filologia.

Mas sim
uma história natural,
uma gramática geral.

Do mesmo modo,
não há economia política

porque, na ordem do saber,
a produção não existe.


Em contrapartida,
existe, nos séculos XVII e XVIII,

uma noção que nos permaneceu familiar,
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial.
Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito,
pois não tem lugar no interior
de um jogo de conceitos econômicos

que ela deslocaria levemente,
confiscando um pouco de seu sentido
ou corroendo sua extensão.

Trata-se antes de um domínio geral:
de uma camada bastante coerente
e muito bem estratificada,

que compreende e aloja, como tantos objetos parciais,
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação,
de renda, de interesse.


Esse domínio,

solo e objeto da “economia” na idade clássica,
é o da riqueza.

 Inútil colocar-lhe questões
vindas de uma economia de tipo diferente,

organizada, por exemplo,
em torno da produção ou do trabalho;

 inútil igualmente analisar seus diversos conceitos
(mesmo e sobretudo se seus nomes
em seguida se perpetuaram,

com alguma analogia de sentido),
sem levar em conta
o sistema em que assumem sua positividade.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

 Complexity: 

 the emerging science at the edge
of order and chaos, 

de M. Mitchell Waldrop
1992

Os vídeos e animações (parciais) a seguir mostram duas maneiras de ver o que seja Complexidade:

  • Mônica de Bolle, vê o conteúdo do livro ‘Complexidade’ como sendo um pouco coisa de nerd, muito embora ela ache o assunto fascinante.
    • no vídeo 32 seguinte,  Mônica também se posiciona fora daquele grupo de economistas que vê a economia como uma maquininha da qual as pessoas estão fora; um pensamento mecanicista, ela diz. Mas não diz qual seja o seu modo próprio de ver a economia dos nossos dias.
  • Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Química de 1977 e pioneiro da ciência do não equilíbrio, diz que a nova ciência do caos e da complexidade lida com a própria ciência moderna, e com o novo tipo de ordem que lhe é próprio, o caos.

A coleção de animações que se segue a esta mostra os modelos de operações:

  • no pensamento clássico, o de antes de 1775;
  • e no pensamento moderno, o de depois de 1825.

Esses modelos de operações têm entre eles uma descontinuidade epistemológica que segundo Foucault, ocorreu em nossa cultura entre os anos de 1775 e 1825 – os 50 anos centrados na virada dos séculos XVIII para o XIX.

Se depois da compreensão dos modelos de operações mostrados for possível concluir que

  • o tipo de ordem a que alude Prigogine 
  • o tipo de ordem adotado no pensamento moderno

são ao fim e ao cabo a mesma ordem, teremos ajudado. E se isso acontecer, teremos um modelo de pensamento que pode substituir o modelo mecanicista ao qual Mônica se refere.

 

Degravação da fala de Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química de 1977
pioneiro da Termodinâmica do não equilíbrio, sobre o conceito de caos na ciência moderna
no seminário Art meets Science and Spirituality in a changing Economy, 1990, Amsterdã

para comparar o que dizem os filósofos de diferentes áreas, – e também os economistas – uns mais e outros menos voltados aos fenômenos que acontecem ao seu redor, veja os seguintes modelos de operações:

  • pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775, 
  • pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825:
    • caminho da Construção da representação;
    • caminho do Instanciamento da representação.
  • origem de valor carregado pela proposição para a representação no pensamento moderno, caminho da Construção da representação.

NOTA: clicando na figura da origem do valor, você tem acesso ao pensamento de Michel Foucault sobre isso.

 

Pensamento clássico, o de antes de 1775
segmento do espectro de modelos
Aquém
do objeto

Operação de pensamento no período clássico, antes de 1775
modelos pertencentes ao segmento AQUÉM do objeto no espectro de modelos
referencial: ordem pela ordem; princípios organizadores: Caráter e Similitude; Métodos: Identidade e Semelhança

Pensamento moderno, depois de 1825, 
segmento do espectro de modelos
Diante
do objeto

Operação de pensamento no período moderno, depois de 1825
modelos pertencentes ao segmento DIANTE do objeto no espectro de modelos
referencial: Utopia; princípios organizadores: Analogia e Sucessão; Métodos: Análise e Síntese

Pensamento moderno, depois de 1825, 
segmento do espectro de modelos
Além do objeto

Operação de pensamento no período moderno, depois de 1825
modelos pertencentes ao segmento ALÉM do objeto no espectro de modelos
referencial: Utopia; princípios organizadores: Analogia e Sucessão; Métodos: Análise e Síntese
mas a operação pode ser tratada com o perfil do pensamento clássico

Operação de Construção de representação nova, no caminho da Construção da representação
sob o pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825 segundo Michel Foucault;
mostrando a origem de valor nas proposições externa à linguagem:
a) designações primitivas; e b) linguagem de ação; e a função que desempenham na operação.

Sobre origem do valor carregado pela proposição para a representação, nas palavras de Michel Foucault, veja a seguinte página:  

As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’

com as seguintes origens de valor atribuído à proposição:

  • designações primitivas;
  • linguagem de ação ou raiz.

Veja ainda sobre as duas opções de atribuição de valor à proposição:

  • a operação sob o pensamento clássico tem o ponto de início na visão do fenômeno ‘operações’ colocado sobre o cruzamento entre os objetos dado e recebido, ainda que nesse tipo de pensamento a noção de objeto seja distinta da que vige no pensamento moderno;
    • o valor é atribuído diretamente à proposição.
  • a operação sob o pensamento moderno – quando no caminho da Construção da representação, tem o ponto de início na visão do fenômeno ‘operações’ bem antes desse cruzamento, quando ainda o objeto da operação modelada ainda não existe;
    • a origem do valor está em dois elementos externos à linguagem:
      • designações primitivas;
      • linguagem de ação ou de uso.
    • a visão do fenômeno ‘operações’ é muito ampliada englobando toda a etapa da construção de representação nova (projeto).

Monica de Bolle identifica entre os economistas, não ela, mas economistas como categoria, quem pense em um modelo mecanicista.